Chronica de El-Rei D. Affonso V, Vol. I
Capitulo LXXV
Como o Infante D. Pedro e o Infante D. Anrique se foram a Lamego para
passarem entre Doiro e Minho. E como o conde de Barcellos se poz em defesa, e
do que se n'isso passou
E ante de seu apartamento tiveram conselho sobre o que ao diante deviam fazer, e accordaram que por quanto já se começara d'entender contra os que eram reveis e desobedientes a seu Regimento, que o Regente se fosse á Beira juntar-se com o Infante D. Anrique, para que ambos pela melhor maneira que o tempo lh'o offerecesse, assessegassem os desmandos e alvoroços em que os fidalgos d'aquella comarca andavam. E assi soubessem logo se o conde de Barcellos queria estar á sua obediencia e ordenança como os outros, e se o contradissesse, que procedessem contra elle de feito e direito, como sua contumacia requeria, pois com ella dava causa a se fazer em muita parte do reino muito mal, e pouca justiça.
Foi-se o Regente a Coimbra, e alli se refez da mais gente que pôde, e posta em ordenança e com esperança de guerra se foi a Vizeu, e alli no Couto se viu com o Infante D. Anrique, que tambem para o caso estava de gente, armas e mantimentos mui bem percebido, os quaes por assi sentirem que cumpria se partiram logo para Lamego, onde chegaram com proposito de assi poderosos passarem o Douro, e o Re Foi-se o Regente a Coimbra, e alli se refez da mais gente que pôde, e posta em ordenança e com esperança de guerra se foi a Vizeu, e alli no Couto se viu com o Infante D. Anrique, que tambem para o caso estava de gente, armas e mantimentos mui bem percebido, os quaes por assi sentirem que cumpria se partiram logo para Lamego, onde chegaram com proposito de assi poderosos passarem o Douro, e o Regente usar inteiramente de seu officio nas comarcas d'Entre Doiro e Minho, e Tras os Montes.
A Rainha por conselho do conde de Barcellos se partiu d'Albuquerque, com fundamento de ir ao longo do estremo até através da comarca de Tras os Montes, para ir entrar em Portugal pelas terras d'Alvaro Pirez de Tavora, onde o conde de Barcellos e os de sua opinião se offereceram de a irem receber e servir. E de Ledesma a que chegou, enviou seus messegeiros ao conde para saber sua determinação e vontade, e para lh'a fazer maior e mais forte, lhe enviou novos esforços com esperança de grande honra e acrecentamento seu; os quaes messegeiros foram a elle, que estava em Guimarães ao tempo que os Infantes chegaram a Lamego, e sendo de sua chegada d'elles certificado, e da maneira e tenção com que iam, não pôde dessimular a muita tristeza e grande cuidado que por isso recebeu, e respondeu á Rainha escusando-se com coisas necessarias, a não poder cumprir por então seu requerimento, reprendendo com largas razões o pouco cuidado que os Infantes d'Aragão para sua restituição mostravam. E por se mostrar forte aos que de sua parte já sentia mui fracos, enviou dizer ao conde d'Ourem seu filho, que dissesse como disse da sua parte ao Regente, que escusasse passar o Douro, porque elle lh'o não havia de consentir, de que o Infante mostrou grande sentimento, e com palavras e contenença não livres de sanha, respondeu ao conde por maneira, que sentindo elle como a honra e estado de seu pae se despunha a grande perigo, pediu ao Regente por mercê que sobre o caso não houvesse por mal que elle mandasse um cavalleiro por messegeiro a seu pae, de que ao Infante aprouve, e ainda com desejo de mais assessego o obrigava que para isso elle não devia mandar alguem, mas ir em pessoa. E porque Luiz Alvarez de Sousa, que ao conde foi sobr'isso enviado, não lhe abrandou em nada sua tenção, tornou a elle em pessoa o conde d'Ourem seu filho, o qual como quer que com palavras de muito amor e razões de grande efficacia lhe pedisse que se decesse de sua opinião, pois o tempo e a razão assi o queriam, nunca o pôde acabar, e assi assaz triste e anojado tornou para o Regente sem alguma conclusão.
O conde de Barcellos moveu de Guimarães com mostrança de ao Infante defender por força a passagem. E assentou-se com sua gente em auto de guerra em Meisanfrio, que é logar sobre o Douro duas leguas de Lamego. E mandou alagar e metter de sob a agua todalas barcas e bateis do rio, pelo qual o Infante aceso já em desejo de vingança para que os desprezos e porfia do conde o moviam, determinou logo de passar contra elle, e para isso ordenou que no Douro sobre toneis se fizesse uma ponte porque a gente e cavallos podessem em breve e mui seguramente passar, e assi se fez prestes do mais que para rompimento e peleja cumpria. As quaes cousas vendo o conde d'Ourem aparelhadas com tal trigança para destruição de seu pae, ajuntou comsigo para sua ajuda alguns principaes, perante quem fallou ao Regente. E com palavras de grande prudencia e muita piedade, e com outras de não menos obrigação, lhe pediu que sobrestivesse em sua passagem e lhe desse logar que volvesse a seu pae; porque esperava de o tornar á sua obediencia e serviço prouve d'isso ao Infante, e lhe louvou muito a dôr e cuidado que para remedio de seu pae a todos mostrava. Porque entre as outras virtudes muitas que no Infante havia, esta era n'elle de grande perfeição, ser para as execuções de sua sanha mui temperado, e mui ligeiro de mover por rogos e intercessões dos bons.
O conde d'Ourem foi logo a seu pae, e tão evidentes lhe mostrou os erros de sua dureza e os principios que se ordenavam para sua quéda, que vencido do evidente perigo que via, mais que de sua propria vontade, lhe prouve vir como veiu a Lamego falar aos Infantes. Os quaes como souberam de sua vinda sahiram a recebe-lo fóra da cidade acompanhados de muita e mui nobre gente.
E posto que entre o conde e o Regente havia odios mui verdadeiros, porém n'aquella hora que se viram houve entre elles palavras fingidas de tanto amor e cortezia, e se abraçavam a cada passo com tanta alegria, que pareceu que um não estimava nem desejava mais bem que a vista do outro, sem alguma lembrança de roturas passadas, e nas contenenças do povo que os assi viam, bem parecia que todos haviam d'isso grande prazer.
Era hi presente o Arcebispo de Braga D. Fernando, que com vozes altas começou de cantar o principio do salmo Ecce quam bonum & quam jucundum habitare fratres in unum; como a quem parecia que na concordia d'estes Senhores se segurava de todo a paz e descanço do Reino. Os quaes como foram na cidade fallaram entre si suas cousas, e assi nos desvairos passados, e o Regente recebeu com bem na cara as desculpas do conde, que ficou de todo á sua obediencia, approvando em todo o seu Regimento, e prometteu de mais não servir nem seguir a Rainha, salvo n'aquellas cousas em que os mesmos Infantes a servissem, e assi concludiram que o casamento d'El-Rei de necessidade se fizesse logo com a filha do Infante, ao menos com recebimento simples; porque ao tomar de sua casa, se fariam depois suas festas solenes e reaes, como a sua honra e estado cumpria. E assi prouve ao Regente a requerimento do conde que seu cunhado D. Pedro, o Arcebispo de Lisboa, que andava em Castella desterrado, fosse como foi á sua dinidade restituido, e lhe outorgou para si e para os seus outras muitas graças e mercês, a que depois seu agardecimento não respondeu com egual balança.
E concordado assi todo se despediram uns dos outros: o Regente e o conde d'Ourem para Lisboa, e o Infante D. Anrique para suas terras, e o conde de Barcellos tornou-se d'onde viera; e isto foi no fim de Fevereiro do anno de mil e quatrocentos e quarenta e um.