Chronica de El-Rei D. Affonso V, Vol. I

Rui de Pina · Capítulo 47 de 84

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Chronica de El-Rei D. Affonso V, Vol. I

Capitulo XLIII

 

Dissensão que a Rainha procurou d'haver entre o Infante D. Pedro e o Infante D.

Anrique

 

S a Rainha que o Infante D. Anrique, com quanto se

mostrára sempre a seu serviço, seguia acerca do Regimento a parte do Infante D. Pedro. Por causar entre elles suspeita e differença em sua conformidade. Ou por ventura e mais certo, por lh'o fazerem assi crêr. Escreveu secretamente de sua mão ao Infante D. Anrique que se não fiasse do Infante D. Pedro. Porque elle para haver com menos impedimento o Regimento que procurava, e mais soltamente usar d'elle, como era sua vontade, sabendo que não havia no reino de quem esperasse contradição, salvo d'elle, soubesse certo que o queria prender, de que sua vida não estaria muito segura. E ante que a carta d'este aviso fosse dada ao Infante D. Anrique, que estava em Soure, o Infante D. Pedro, que era em Montemór-o-Velho, por meios secretos que trazia, foi d'ella primeiro sabedor. E para preservar a vontade do irmão, que com tamanha falsidade contra elle em alguma maneira se não damnasse, partiu a gram pressa e mui aforrado, e lhe foi fallar, não lhe revelando cousa alguma da carta que lhe havia de vir; mas acceitando geralmente seu coração, com a firmeza de seu amor e amizade, para os movimentos e desaccordos que se lhe aparelhavam. Pedindo-lhe, que se contra elle viessem a suas orelhas algumas cousas, que a isto contrariassem, que as não recebesse em seu juizo, e d'elle cresse que o amava como a si mesmo.

O Infante D. Anrique não se saltou muito com aquella vinda; porque lhe parecia que os tempos e as mudanças d'elles o causavam e requeriam. E porém com palavras que em siso e prudencia, e confiança não desacordaram das do Infante seu irmão, lhe respondeu e o despediu.

A dois dias que o Infante D. Pedro se partiu, chegou Martim de Tavora ao Infante D. Anrique com a carta da Rainha que disse. E como a viu, maravilhado da sustancia d'ella, se foi logo a Coimbra só, onde já era o Infante D. Pedro. Ao qual mostrando-lhe a carta disse:

«Vêde senhor irmão o que me escreve a Rainha; mas porque vejaes bem o temor que tenho de vós, venho assi percebido e seguro a vossa casa.»

E o Infante D. Pedro rindo-se, e com mostrança de grande amor, o abraçou e lhe disse:

«Senhor irmão, não me espanto taes tempos e taes vontades criarem fruita tão nova. E porque sabia já que vos haviam de convidar com ella, sem vo-lo dizer vos fui falar. Cá não eram a outro fim as cautellas da segurança que vos de mim fui dar; porque ainda que sobre tanta razão e firmeza pareciam então escusadas. Sabei que o receio d'este damnamento as não escusou. E porém a prisão que vós aqui recebereis será a honra e amor que de mi sempre recebestes, e me vós mui bem mereceis.