Chronica de El-Rei D. Affonso V, Vol. I
Capitulo XLI
Como o castello de Lisboa foi pela cidade tomado e dado ao Infante D. João, e o
que se n'isso seguiu
D. Affonso, senhor de Cascaes, e D. Fernando seu filho sostinham a parte da Rainha; e porque D. Affonso era alcaide mór de Lisboa, tanto que sentiram as voltas da cidade contrairas a sua tenção se meteram no castello, e com elles alguns fidalgos seus amigos e outra gente de sua criação: e começaram logo de poer n'elle grandes avisos de guardas de dia, e vellas e roldas publicas de noite. E os da cidade vendo tal novidade, e sendo certificados de muitas ameaças e palavras deshonestas que as vellas contra elles diziam, como sentidos d'isso acordaram de ir combater o castello. Mas o Infante D. João por evitar escandalos e damnos que se podiam d'isso seguir, por então os impediu; e tomou o cargo de assessegar se podesse esta alteração, por meio de D. Maria de Vasconcellos, mulher de D. Affonso, a qual por consentimento, e com seguridade do povo lhe veiu fallar ás casas da Moeda. Onde o Infante com palavras mui honestas e virtuosas lhe apontou, que por assessego de tantos alvoroços e uniões, quantos na cidade via contra seu marido e filho, fizesse com elles que lhe entregassem o castello, ou consentissem por sua segurança, que o Infante pousasse dentro, e elles tivessem suas forças e menagem.
D. Maria com este recado se veiu ao castello, e depois de sobre tudo haverem suas praticas e conselhos, ella tornou ao Infante com resposta e determinação de seu regimento. A qual brevemente foi elles não entregarem o castello, nem receberem outrem n'elle, nem se sahirem d'elle.
Verdade é que o pae logo consentira em alguns dos meios apontados; mas o filho por ser mancebo, em que o sangue e pontos de honra ferviam, o houve por abatimento e o estorvou, especialmente porque havia o partido da Rainha que seguiam, por mais esforçado que o do Infante D. Pedro que contrariavam; e juntamente com isto D. Maria disse ao Infante D. João:
«Senhor, se vossa mercê tanto desejo tem d'haver este castello, não sei porque o não tem d'haver tambem quantos outros ha no reino; pois está em vossa mão, e o podeis fazer, e para certidão d'isto a Rainha minha Senhora vos envia por mim dizer, que ella é tão magoada das sem razões que o Infante D. Pedro contra ella tem feitas, e cada dia ordena, que antes se despoeria a todolos trabalhos e perigos do mundo, que consentir ser elle Regedor d'estes reinos. E que para verdes que o não faz por ella desejar para si o regimento, é mui contente que o hajaes vós. E para isso renunciará o direito que n'elle tem; pois sabeis que é todo o que de razão e justiça se requere. E mais lhe praz que El-Rei nosso Senhor seu filho case com D. Isabel vossa filha: e que d'aqui em diante vos terá em lugar de padre, para por este respeito e assi por ser já mulher d'El-Rei vosso irmão, que vos tanto amou, olhardes por ella e por suas cousas».
O Infante sorrindo-se das derradeiras palavras de D. Maria lhe disse:
«D. Maria, porque vos responda segundo logo começastes, a mim pesa de vosso marido e filho não consentirem em alguma das cousas que lhe por vós enviei apontar; Deus sabe que eu o fazia por seu bem; se lhes d'isso sobrevier algum mal pesar-me-ha; mas eu sem cargo. E quanto das outras cousas que da parte da Senhora Rainha me dissestes, dizei a sua Senhoria que nunca Deus queira nem quererá que entre os filhos d'El-Rei D. João, que nas mocidades em tanto amor e concordia se criaram, seja agora semeada tal cizania, porque se desamem e desconcertem; eu haveria temor de Deus e vergonha do mundo, não digo acceitar, mas sómente lembrar-me d'acceitar o Regimento do reino, em que tivesse dois irmãos mais velhos, e taes para isso, como são o
Infante D. Pedro, e o Infante D. Anrique. E quanto ao casamento d'El-Rei meu Senhor com minha filha não sendo o caso como é, certo seria a maior honra e o mór acrecentamento que eu poderia desejar. De uma cousa sede bem certa, que com melhor vontade e menos sentimento meu soffreria ve-la no mundo em uma publica dissolução, que Deus não queira, que casa-la por tal maneira,
contra a honra e vontade do Infante meu irmão, que me tem e eu lhe tenho mui verdadeiro amor. Cá não sómente erraria a elle, por ter já n'isso entendido e ser cousa mui razoada, mas ainda desobedeceria á alma e mandado d'El-Rei meu Senhor e irmão que Deus haja. Cuja vontade, assi na vida como na morte, sabeis que foi este casamento d'El-Rei nosso Senhor seu filho, com a filha do Infante meu irmão se fazer em toda maneira. E por isso esta é a razão que se faça, e não se deve contrariar. Mas vós dizei á Senhora Rainha, que sem isto que me por vós manda cometer, me tem sua mercê por fiel e certo seu servidor, e lhe peço por mercê que queira viver como é razão, e não curar de cousas que a ella nem ao reino não cumprem. E vós por seu bem e assessego, e com vossa discrição assi lh'o deveis d'aconselhar».
E com isto a despediu.
Os da cidade vendo a contumacia e ousadia de D. Affonso, receosos de poder ser com algum fundamento que a elles podesse ao diante trazer damno e perigo, por accordo geral que sobr'isso houveram, foram cercar o castello e o vallaram d'arredor, e lhe pozeram estancias e guardas para que de noite nem de dia não entrasse nem sahisse d'elle alguma pessoa, nem os de dentro
podessem receber soccorro, aviso, nem mantimentos.
E porque D. Affonso e seu filho com sua gente entráram no castello de subito, sem percebimento de mantimentos, vendo se apertados da necessidade e perigo, e frouxos de esperança de remedio, leixou o castello ao Infante D. João com algumas seguranças que requereu, e se foi para a Rainha.