Chronica de El-Rei D. Affonso V, Vol. I

Rui de Pina · Capítulo 77 de 84

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Chronica de El-Rei D. Affonso V, Vol. I

Capitulo LXXIII

 

Da resposta que o Regente houve d'algumas cousas que com sua embaixada

enviou a Roma requerer

 

E se o Regente alongando em uns casaes, que se dizem o Couto, entre Santarem e Aviz, chegaram a elle Ruy da Cunha, Priol de Santa Maria de Guimarães, e o Provincial do Carmo D. João, Bispo que depois foi de Ceuta e da Guarda, que vinham de Roma, onde foram enviados por embaixadores ao Papa Eugenio; os quaes entre as outras cousas que requereram e trouxeram concedidas, foi vivae vocis oraculo a despensação para El-Rei poder casar com D. Isabel, filha maior do Infante D. Pedro. E não veiu em escripto; porque a Rainha D. Lianor sentindo que não podia fazer maior nojo, que em lhe estorvar este casamento, trabalhou com El-Rei e Rainha de Castella, e com El-Rei d'Aragão e de Napoles, e com El-Rei de Navarra, todos seus irmãos, que por algumas razões que sem muito fundamento allegaram, fizessem com o Papa que por alguma maneira não outorgasse a despensação para o dito casamento necessaria. O que elles todos fizeram por seus embaixadores com muita instancia, e por tanto o Papa por não desprezar a tantos e taes Reis, houve então por bom expediente não outorgar a despensação em escripto por não ser publica, e a concedeu aos embaixadores em secreto, vivæ vocis oraculo, como disse, para o casamento se poder logo fazer, e depois lh'a mandar por Bula patente, como mandou por Fernão Lopez d'Azevedo, Commendador Mór de Christo, que lá tornou por embaixador.

E assi trouxeram mais por Bulla expedida, em como o Papa isentou para sempre as administrações de Tuy e d'Olivença dos Bispados de Tuy e de Badalhouce, a que eram em Castella d'antigamente sobgeitas, e assi houve o Mestrado d'Aviz d'estes reinos por isento do Mestrado de Calatrava, e o Mestrado de Santiago por isento da Ordem d'Ucrés, que são em Castella, a cuja obediencia de primeiro fundamento eram obrigados. E poz aos Reis de Castella silencio perpetuo, com estreitas censuras e graves excommunhões, se mais o contrairo requeressem, como até então sempre requereram. E certo esta graça estimou muito o Regente; porque sabia que em vida d'El-Rei D. João seu padre, e d'El-Rei D. Duarte seu irmão, com quanto isto sempre desejaram e requereram com rasões e causas mui evidentes e sustanciaes, nunca os Papas que n'aquelles tempos foram, em caso que lhes parecesse razão, com receios d'agravos e importunações dos Reis de Castella o ousaram outorgar, e depois até agora sempre isso esteve e está em pacifico effeito.