Chronica de El-Rei D. Affonso V, Vol. I
Capitulo XXXVI
Declaração que Lisboa fez de o Infante D. Pedro só reger o Reino
Estando assi as cousas n'esta confusão, o doutor Diogo Affonso Mangancha em que havia letras e ardideza com pouco repouso, e um Lopo Fernandes, tanoeiro de Lisboa, homem velho afazendado, e de que o povo fazia grande cabeceira, estes ou por serem afeiçoados á parte do Infante D. Pedro, ou por lhes parecer razão elle só reger e não a Rainha, ordenaram e praticaram entre si que o doutor fizesse na camara uma publica falla sobre isso, affirmando que todavia era bom, antes das côrtes se fosse possivel, assi se declarar e requerer; e que ao menos no cabo da falla conheceriam nos rostos dos mais suas vontades para seu aviso: e era opinião que d'esto não desprazia ao Infante D. João, pelo favor que dava e gasalhado que fazia a este tanoeiro.
E junta a mór parte da cidade na camara, sem geralmente se saber a que fim, o doutor Diogo Affonso propoz sua falla, em que logo com muitas e vivas rasões tocou os erros que havia em o Regimento do reino ser repartido, como fôra em Torres Novas; e assi com determinações do Direito Canonico e Civil, e com auctoridades do Testamento Novo e Velho, e com exemplos d'historias antigas reprovou Regimento publico ser dado a mulher, porque excludio a Rainha; e com outras de não menos rasão e auctoridade provou que devia ser dado a homem barão, em que houvesse as virtudes e calidades que todas achou com verdade no Infante D. Pedro, para o qual concludio que devia ser requerido e forçado para isso, quando por sua vontade o não quizesse acceitar.
Acabando o doutor sua falla, foi-lhe por um vereador dadas graças por ella em nome de todos, os quaes encommendaram logo ao capitão que desse sobre o caso sua voz, que a deu com cautellas e fundamentos de homem prudente e mui avisado, em que concludiu mais além, que era grande perigo e aleijão, El-Rei ser mais criado em poder de mulheres; e não menos erro reger a Rainha, não sem muitos merecimentos e grandes louvores d'ella, que tambem apontou para ser sempre servida e acatada; e que o Infante D. Pedro devia reger.
Era alli Martim Alho, cidadão honrado, e por ser muito servidor da Rainha quizera dilatar esta conclusão para outro ajuntamento e mais pessoas, parecendo-lhe que se apertava muito em seu d'esserviço; mas Ruy Gomes da Grã, outro si cidadão, e de boa e antiga linhagem, que era presente, com palavras de grande auctoridade e rasão contradisse muito a dilação n'este caso, e louvou a breve conclusão; e depois de muitas praticas e largos apontamentos, elle com os mais approvaram e pozeram em escripto este accordo que se segue.