Chronica de El-Rei D. Affonso V, Vol. I
Capitulo XXXII
Accordo que o povo de Lisboa fez ácerca do Regimento
E o Regimento do reino n'este balanço, mais com
mostranças de guerra que de paz, e com signaes mais de perigo que de segurança, os officiaes macanicos de Lisboa com outra gente popular se ajuntaram em S. Domingos da Cidade, onde fizeram escrever e assignaram um acordo, em que por algumas razões que apontaram, e em especial por o perigo e não bom Regimento do reino, declaravam e se affirmavam, «que o Infante D. Pedro fosse seu Regedor e defensor sómente; e que assi promettiam de o requerer nas côrtes; e que o contrairo não consentiriam ou morreriam sobr'isso, se o caso assi requeresse.»
A qual cousa sendo logo sabida, como quer que a alguns parecesse determinação de pouco peso e auctoridade, o contrairo pareceu a Pedro Annes Lobato, que por ser muito servidor da Rainha, se foi logo a Alanquer onde estava, e lhe notificou com tristeza aquelle acordo, havendo-o por principio mui contrairo a seu serviço, affirmando que não podia ser sem favor e consentimento dos principaes, e com aquelle acatamento que devia a reprendeu muito da segurança que n'estes feitos sempre tivera, e o pouco cuidado de os remediar nos começos ante d'alguma execução, especialmente estando tão ácerca e tão avisada cada dia dos movimentos que se faziam.
E perguntado pela Rainha e pelos do conselho que hi eram, que se faria ou que remedio se daria para o povo cessar de seu alvoroço, Pedro Annes respondeu «que já não sabia, salvo pedi-lo a Deus.»
E finalmente depois de sobre isso praticarem, acordaram que a Rainha escrevesse, como logo escreveu á cidade, e além das razões santas e virtuosas na sua carta logo declaradas, por que deveram ser bem seguros dos receios com que se alteravam, Pedro Annes que era o messegeiro, lhes disse outras muitas mais, a ellas conformes, em que não fallecia siso e prudencia; mas d'isto em fim se fez pouca estima, e responderam a tudo como já endurecidos em sua maginação e porfia.