Chronica de El-Rei D. Affonso V, Vol. I
Capitulo LVIII
Como o conde de Barcellos desdisse muito á Rainha esta concordia com o
Infante, em caso que não fosse verdadeira
F o conde de Barcellos d'esta concordia por via geral certificado, mas não se alvoroçou nada; porque da secreta dessimulação com que se fizera, foi logo pela Rainha avisado: porém elle temendo-se da prudencia e saber do Infante D. Pedro, e não segurando n'isso da constancia da Rainha, accordou com os fidalgos da sua parte de lhe notificarem o erro e desfavor que para seus feitos em tal concordia fizera, em caso que fosse fingida, de que se seguira os que desejavam seu serviço, vendo-a em poder do Regente, não ousarem de a servir, e que para isso, porque mais em breve se executasse o que desejava, ella mui secretamente se devia vir ao Crato, onde tinha mui certo o Priol com suas fortalezas a seu serviço. E que d'alli poderia seguramente passar o Tejo e entrar na Beira, onde o Marechal por ser comarcão, com outros fidalgos e gentes se iriam para ella, e que o conde com todolos outros fidalgos outrosi lhe acudiriam e a recolheriam em suas terras, que logo começaria de reger, e que da execução e obra d'esta empresa os Infantes seus irmãos, e assi todolos outros seus servidores tomariam mais esforço e desejo de a proseguir.
Este recado foi assi secretamente trazido á Rainha, que o Regente não houve d'elle algum sentimento, e ella com os de seu conselho a quem o mostrou e louvou, e houve por bom, o fez logo saber ao Priol do Crato. O qual como era homem de muitos dias e grande experiencia e siso, houve o feito por sem fundamento e muito duvidoso. E assi lhe respondeu em muitas e boas palavras, e em fim que se de todo em todo sua vontade quizesse forçar as armadas de tão vivas razões, como lhe mandou para o ella não cometer, que elle estava prestes de a receber onde ella quizesse, e para isso lhe offerecia a perdição de sua vida, honra, e fazenda, que elle não podia escusar.