Chronica de El-Rei D. Affonso V, Vol. I
Capitulo LXXII
Como a Rainha meteu de Castella gente d'armas n'estes reinos para se bastecer,
e do que fizeram
S a Rainha e o Priol atalhados para dos logares vizinhos nem
do reino já não haverem mantimentos, e assi sentindo já o engano que de seus alliados em seu movimento receberam, não ficou aberta outra porta d'esperança, de soccorro e provisão senão a de Castella. Pelo qual a peso de suas joias e baixellas, mandaram para soldo vir ao Crato um D. Affonso Anriquez, que estava em Castella na villa d'Alconchel, com até sessenta de cavallo e cento homens de pé, com os quaes, e com os do Crato antes de receberem mais impedimentos e affrontas, trabalharam de por força se bastecer de trigo, cevada, e gados pelos logares d'arredor, entre os quaes foi Cabeça da Vide, que D. Affonso foi barrejar e roubar com cento e LXXX de cavallo e duzentos de pé, e recolheu o despojo ao Crato, sem haver no logar nem no caminho outra resistencia, salvo a que os d'Alter do Chão lhe quizeram fazer, que por não serem cautelosos no auto da guerra foram tambem de D. Affonso desbaratados, e alguns de uma parte e da outra mortos e muitos feridos, com que todo o reino e principalmente os d'aquella comarca foram para os do Crato mui indinados, e da Rainha mui descontentes.
O Infante D. Pedro constrangido e nojado d'estas entradas e correduras que pelo reino assi soltamente se faziam, apressou por isso mais sua partida. E acompanhado de muita gente que o veiu servir, partiu de Santarem caminho d'Aviz, onde com o Infante D. João e condes d'Ourem e d'Arrayollos tinha concertado seu ajuntamento, para hi terem conselho sobre o que fariam; porque o Infante D. Anrique era na Beira para a defender, como se disse.