Diário das coincidências
Flores
Tanto já se disse dos sonhos — e a única coisa de que ele tinha certeza sobre esse tema era que os sonhos nunca coincidiam com a realidade. Podiam se aproximar ao máximo, como a Lua e a Terra no perigeu, mas nunca se tocavam, havia sempre nuances na matéria sonhada (ou nas malhas do real) que, à semelhança de arestas, jamais permitiam o encaixe perfeito. Ao menos até aquele dia, quando a carta de Amanda, sua amiga, mencionando um sonho com flores, perfurou, como um espinho, a certeza que ele tinha dessa impossibilidade.
Sempre gostou de flores, e não apenas das delicadas orquídeas, ou dos perfumados lírios à beira das terras alagadas. Os cactos, com suas flores rústicas, também o encantavam, assim como as rosas do deserto — colhera duas no Saara e ali estavam, à sua vista, sobre a estante —, embora, de rosas, elas só tivessem o nome: eram formações rochosas. Shakespeare teria apreciado o tuaregue que deu àquelas pedras o nome de rosa — não foi ele, afinal, quem disse “o que chamamos rosa teria outro cheiro com outro nome?”.
Simples era o sonho que a amiga lhe contava na carta: talvez porque, nos últimos tempos, vira repetidas vezes aparecer um buquê de flores (num filme hollywoodiano, num comercial de tevê, nas mãos de um vendedor diante do farol vermelho, na capa do livro de Mario Bellatin), ela sonhara que a presenteavam com um ramalhete de gérberas.
E eis que, uma semana depois, sem que comentasse com ninguém seu sonho, recebeu no trabalho, sem um cartão que identificasse seu autor, um ramalhete de gérberas!
Ao ler a carta da amiga, ele sorriu com mais aquele fenômeno inexplicável — o sonho dela se derramara no plano da realidade.
E mais: minutos antes, folheando o Livro dos sonhos, de Borges, ele se deparara com o “episódio” narrado pelo poeta Coleridge: “Se um homem atravessasse o Paraíso em um sonho e lhe dessem uma flor como prova de que havia estado ali, e se ao despertar encontrasse essa flor em sua mão… então o quê?”.
Então Amanda nunca descobriu quem lhe enviou as flores. E ele passou a considerar que a realidade, mesmo fato raro, pode se dar também sob a forma idêntica de um sonho.