Diário das coincidências

João Anzanello Carrascoza · Capítulo 13 de 37

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Diário das coincidências

Bens

 

Se o nascer é um sair da terra e o morrer um retornar a ela, as duas pontas, embora em tempos distintos, igualam-se um dia. Ele está, agora, nesse entremeio — e, na noite anterior, antes de dormir, por acaso (acaso, de novo?), caiu-lhe nas mãos um livro sobre o antigo Egito.

Folheou-o sem um objetivo, e, quando ia fechá-lo, um cisco de interesse entrou em seus olhos, ao ver a foto de um sarcófago aberto, no qual jazia um faraó ladeado por objetos cintilantes de ouro. A legenda informava que os nobres daquele tempo eram enterrados com seus pertences — lembrava-se de ter lido algo sobre o assunto, em criança —, pois acreditavam que, havendo outro mundo, no qual viveriam após a morte, lá chegariam de posse de seus bens.

Leu algumas linhas desse livro, que contava a história de Seth, Psusennes I e Tutancâmon, e aos poucos se enterrou num sonho escuro. Saiu de suas malhas com a luz da manhã — e, depois do café, seguiu para um colégio, numa cidade vizinha, onde se encontrou com estudantes que haviam lido seu romance Aos 7 e aos 40.

Como noutras vezes, o roteiro pouco variou — ele contou alguns detalhes da elaboração do livro, respondeu a uma dezena de perguntas, recebeu das mãos da professora um brinde com o logotipo da escola e sentou-se, ao final, para autografar os exemplares dos alunos.

Foi aí que se deu o inesperado, quando o entremeio do encontro se deslocou para a segunda ponta, para selar o desfecho: os alunos, logo que ganhavam o autógrafo, pegavam seus materiais e iam embora. O último da fila, contudo, chegou até ele sem exemplar algum; certamente, era um daqueles estudantes que, tendo esquecido o livro em casa, pediriam o autógrafo numa folha qualquer de papel.

O garoto, tímido, disse que tinha algo para lhe contar. Ele fez um gesto com a cabeça, que significava pois conte, e se manteve em silêncio, à espera.

Então ouviu o menino contar que a avó era uma velha leitora de sua obra, a avó tinha na estante todos os seus livros de contos, a avó sabia parágrafos inteiros de muitas de suas histórias, a avó só não sabia que ele publicara aquele romance — senão quando o viu nas mãos do neto, num almoço de domingo.

Ele ouviu o menino contar que, por iniciativa da avó, os dois haviam lido juntos Aos 7 e aos 40 (embora ela tivesse 80 anos e o neto, 14). Ele ouviu o menino contar que a avó morrera um dia depois de terminarem a leitura do romance. E que depositara o livro no ataúde dela — por isso, ali estava de mãos vazias.

De mãos vazias, ele também estava. Mas com os olhos cheios, para sempre, do rosto daquele menino que, à sua frente, reluzia.