Diário das coincidências
Palavra
Aconteceu a ele, a primeira vez, quando menino. E daí em diante sempre, como se cada ocorrência fosse a conta de um colar que, uma vez completo, resultaria numa revelação: a secreta escrita do universo. Mas, embora tenham se reduzido nos últimos anos, tais eventos, ele sabe, nunca cessarão de ocorrer. Até o último momento a vida é vida, e podemos aprender algo — mesmo que, em seguida, a lição se apague inteiramente.
Os fatos se deram no âmbito das palavras, mas é inegável que esse tipo de “sinal” se dá em outras, para não dizer em todas, as esferas de sentido: paisagens, faces, perfumes.
Começou numa tarde em que, deitado na cama, ele lia O conde de Monte Cristo. Não se recorda qual era a palavra, mas surgiu-lhe em meio a um trecho que o impedia de entender as linhas seguintes se não soubesse seu significado. Correu ao dicionário e, então, o desconhecimento se desfez. Mas o espanto — desde então ele o aguarda com paciência — só se completou horas depois, quando ouviu a mãe, no jantar, pronunciar aquela palavra. Na sequência, deu com a mesma palavra, outra vez, nos lábios de uma personagem na novela Mulheres de areia. E, no outro dia, encontrou-a numa página do jornal.
As ocorrências se sucederam, daí para a frente, nas mais diversas circunstâncias, com outras palavras. Apareciam do nada, feito chama que se acende, e ele, cioso daquela sincronicidade, nelas queimava a sua atenção para assistir ao seu iminente rebrilho.
O bom senso o levou a concluir que era tão somente um estágio normal de qualquer aprendizado: é na soma, no reforço isotópico, na sobreposição de camadas que se sedimentam os sentidos.
Mas, numerosas vezes, as palavras — ignoradas num momento, logo decifradas e, em seguida, sistematicamente remanifestas — não apenas se incorporavam ao seu vocabulário, elas também reconfiguravam as anteriores, como se, em conjunto, estivessem o tempo todo a fazer e a refazer frases, sentenças, orações. Enfim, o texto de sua experiência.
Começou a observar essas ocorrências em outros campos. E convenceu-se de que obedeciam à mesma gramática. O que poderia significar tal sucessão de eventos? Algo maior ou nada?
Ao revisar este livro, ele se deu conta de que, à semelhança das palavras, estas histórias são (todas) reaparições de uma única, primeira. Um colar para oferecer aos olhos dos outros, ainda que incompleto, como a vida — a dele, a sua, a de todos nós.