Diário das coincidências
Dois caminhantes
Era, então, uma outra vez. E ele se tornara, também, outro caminhante. Quando retornou de Santiago de Compostela, em sua primeira peregrinação, prometeu a si e ao filho — na época com oito anos — que haveriam de fazer juntos o caminho.
Quando?, o menino perguntou, curioso.
Daqui dez anos, ele respondeu.
Pacto feito, foram dar corda em suas vidas, entregando-se aos gravetos do dia a dia, até que o dia a dia formasse o feixe de um ano, e o feixe dos anos acumulasse neles uma década.
Certa noite, enquanto jantava, solitário, ele sentiu o empuxo do tempo estremecer seus ombros e, ao fazer os cálculos, deu-se conta de que faltava menos de um ano para o prazo combinado. Àquela altura, o filho era um pós-menino; ele, pai, um pré-velho.
Começaram os preparativos — as curtas caminhadas pelo bairro ao entardecer, sem nada às costas; depois, as longas, nos fins de semana, com a carga nas mochilas.
Como desconfiara, naqueles treinos, entre as conversas de ocasião e os silêncios de propósito, ele passou a descobrir coisas de seu filho que nunca imaginara — e o filho, claro, também ia pondo o pé num território dele a que jamais tivera acesso.
Caminhando lado a lado, um fazia o outro falar coisas de si por meio dos próprios passos — algo que jamais havia ocorrido, por maior que fosse a intimidade entre ambos. Iam mudando um ao outro, enquanto, ao redor, as coisas também iam mudando — porque as coisas, o tempo todo, mudam as coisas (as próprias, e as outras), como ele iria escrever, adiante, num conto.
As coisas mudam, embora se acredite que algumas permaneçam, enganadoramente, as mesmas. E, de repente, lá estavam ambos embarcando para Pamplona. Esquecido da mudança veloz das coisas, tão veloz que tudo parecia se conservar igual, ele se lembrou de sua primeira viagem: ali, no aeroporto de Cumbica, o menino acenava-lhe um adeus; daquela vez, transpunha, com ele, o portão rumo ao controle de passaportes.
Era a primeira descoincidência. O primeiro sinal de que nada corresponderia, na segunda peregrinação, ao que fora a anterior. Mas ele ainda não percebera. Tardou muitos dias — as comparações que fazia o tempo todo, entre as duas, resultavam sempre vazias — para se dar conta da impossibilidade de repetir a primeira jornada.
Chegaram a Pamplona e havia sol. Em seu caminho solitário, dez anos antes, nevava. Em Roncesvalles, hospedaram-se no novo albergue. Antes, ele se alojara no velho, anexo à Colegiata. No primeiro dia, pararam para dormir em Larrasoaña. Antes, ele pernoitara em Zubiri. No dia seguinte, avançaram até Zariquiegui, seis quilômetros a mais do que ele na outra vez, quando se abrigara em Cizur Menor.
E assim se deu com todas as coisas. Se pousavam na mesma cidade, como em León, jantavam noutro restaurante. Se, por um instante, tudo pareceu a ele idêntico em Molinaseca, outra era a posição do sol atrás da ponte românica, outro o aroma do vento naquele povoado medieval. Nem mesmo os sentimentos — a paz e a alegria —, sobrepostos em seu espírito, se igualavam, em intensidade, aos experimentados na primeira viagem. Havia microdiferenças que impediam o encaixe. Porque, claro, era outra a vez, apesar de ser o mesmo — o caminho.
Apenas se repetiam as grandiosas mesetas, os campos de trigo infinitos, o céu com seu azul ostensivo. Tudo, portanto, descoincidia. Havia flores e mais flores comuns nos canteiros, mas ele procurava a flor rara, com suas pétalas tão iguais quanto perfeitas.
Muito embora, ao avistar Compostela, vinte e seis dias depois, ele tenha sido tomado por uma gratidão indizível, em nada a realidade coincidira, mesmo sem querer, com a sua aspiração.
E, sem que soubessem, ao chegar à cidade, era 24 de julho, véspera do Dia de Santiago. À meia-noite, haveria o show de fogos na Plaza del Obradoiro, a festa mais esperada do ano pelos habitantes da cidade e pelos peregrinos — muitos, depois ele descobriu, haviam se programado para terminar a caminhada na data da celebração.
Viveram aquele dia entre duas margens: ora contentes, como duas crianças, sem antes nem depois, imersos nas raízes do tempo presente; ora tristes, pois não havia mais caminho a palmilhar, a vida pedia tão somente que flanassem, que se deixassem à deriva, como galhos no chão, soltos para o arrasto do vento.
Haviam se hospedado na periferia, numa pequena pensão que se alcançava depois de atravessar um labirinto de becos e ruelas. Quando o sol se pôs, subiram até o centro histórico para encontrar a noite que, então, descia pela cidade ruidosa. Era impossível chegar à catedral, ou ao Hostal de los Reyes Catolicos, as ruas de acesso estavam tomadas pela multidão. Ele consultou o mapa e sugeriu que fossem à Plaza de Espada, de onde poderiam ver, de longe, o show pirotécnico.
Uma atmosfera feérica se espraiava pelos espaços e pelas pessoas que lotavam as ruas ou se debruçavam nas janelas das casas, como se o universo ordenasse que aquela ode à vida fosse unânime. Caminhando ao lado do filho, ele se sentiu num degrau acima da realidade em que costumava pisar, aceitando uma felicidade isenta de culpas, impossível de ser anulada, de imediato, por uma dor futura.
Os dois permaneceram lá, na Plaza de Mazarelos, vivendo o mesmo instante, um instante irrecuperável como todos os outros, mas plenamente entregues, as almas em comunhão. Tanto que só viam o que era para ser visto no céu, as girândolas coloridas, as serpentes faiscantes, as chuvas de centelhas irisadas. Apenas assistiam ao espetáculo, sem uma palavra, um gesto. Era unicamente o tempo de ser silêncio, e eles, obedientes, eram e eram e eram silêncio.
Mas nem esse silêncio, igual nos dois em todas as suas fímbrias, consistia ainda numa coincidência, senão numa ordem.
Quando o espetáculo terminou, meteram-se entre a turba que se dispersava lentamente, refluindo pelas ruas de pedra. O filho, num certo momento, ficou para trás, impedido de segui-lo por um grupo de jovens que formavam uma corrente. Ambos ainda conseguiam se ver, acenavam-se, buscavam com meneios combinar uma estratégia de reaproximação. Ele parou, tentou se manter naquela posição, ou mesmo retroceder, até que o filho conseguisse se acercar, mas uma onda de gente o varreu para o outro lado.
De repente, tudo se tornou um rastro de feições que se renovavam, e ele já não reconhecia, entre tantos rostos, o de seu filho. A certeza da perda não só o alarmou como lhe trouxe uma sensação de fraqueza — sempre acreditara que estavam unidos por um cordame invisível, bastava um puxá-lo para o outro vir ao seu encontro. Mas não era o que ali, àquela hora, se sucedia.
Virou-se e se atirou na direção contrária, enfiando-se entre o golfo de gente que se movia, fazendo uma barreira que oscilava de lá para cá, impedindo-o de avançar. Tentou transpô-la, primeiro com educação, dizendo talvez para si mesmo, já que ninguém o ouvia, con permiso, con permiso, e, depois às pressas, tropeçando nas pessoas e se desculpando, enquanto sentia a aflição ganhar o terreno que antes fora de calmaria.
Se haviam passado tantos dias juntos, lado a lado, ele e o filho, agora a distância se abismava entre os dois. Haviam se descoincidido, inteiramente, um do outro.
Percebeu que a dispersão era maior rumo à Plaza de Galicia, e não em direção à Porta do Camiño. Voltou-se, então, e seguiu para lá, deixando que seus passos, sem mapa algum, o guiassem dali em diante.
Andou até a Plaza de Galicia, atravessou-a, fiel ao comando de seus pés que, de repente, frearam e o obrigaram a parar no Campo de Estrela, onde viu um banco vazio no qual sentou.
Ficou a observar um grupo de jovens, que retornava para casa, com garrafas de cerveja na mão, cantarolando. Um casal ainda passou por ali, antes que o lugar se tornasse ermo e silencioso.
Fechou os olhos e permaneceu quieto. Sentia que cada segundo de sua vida (inteira) corria novamente pelas suas artérias. Tudo o que ele havia vivido (tantos desenganos, tantas aprendizagens) se concentrava naquele instante na matéria de carne e sangue que o mantinha imóvel, sentado num banco no Campo de Estrela.
Então, sentiu como se um fio repuxasse seu corpo, um fio que não era unicamente seu. Demorou para abrir os olhos, prolongando aquela inesperada alegria a um milímetro de se tornar uma dor: sabia que alguém vinha vindo pela mesma rua — conhecia-lhe os passos; depois daquela peregrinação, poderia distingui-los de mil outros. Sabia que seu filho se aproximava e estaria à sua frente, como um espelho, tão logo abrisse os olhos.