Diário das coincidências
Versão
Entre a reescrita, no plano da linguagem verbal, destas histórias de coincidências, já gravadas a fogo nas linhas de sua mão, ocorreu a ele um comentário sobre a sintaxe de seus pormenores — se sob o jugo do aleatório ou do divino — e uma certa correlação com o ato de escrever e reescrever seus livros.
Nunca lhe acontecera o que muitas vezes se dera com seus amigos escritores: um deles encontrara, num sebo, exemplar da própria obra, com o autógrafo que fizera para uma namorada. Outro flagrara, num banco de aeroporto, uma senhora lendo um de seus livros. Abordara-a, sem resistir à perigosa pergunta, está gostando?, e recebeu a imediata resposta, não!
O mais inusitado, todavia, ocorrera com um romancista que ele conhecia desde jovem, incapaz, em seu julgamento, de mentir ante um assunto daquela natureza. O amigo, no saguão de um cinema, à espera da próxima sessão, foi reconhecido por uma fã, que se pôs a conversar com ele. Acadêmica, ela conhecia toda a obra do romancista e, inclusive, defendera uma tese sobre a produção dele. Em certo momento, perguntou-lhe a quantas andava o romance que ele vinha escrevendo, se tal e qual personagem (e os nomeou com precisão!) teriam este ou aquele fim, se ele resolvera a questão do tom dos diálogos, ainda um tanto vacilante. O amigo não teria se espantado se não estivesse escrevendo justamente um livro com exatos personagens, enredo e problemas (ainda não resolvidos). E maior o seu espanto quando associou o fato com o nome do filme a que ambos iam assistir: Mente invasora.
Para ele, o conhecimento próprio (real e sensitivo) de qualquer um de seus livros jamais coincidiria com o de seus leitores. Não por incapacidade destes de mergulhar nos meandros de seu enredo e dele retirar, gota a gota, todo o seu sumo. Mas sim porque a história, na sua última versão, está, para seu criador, impregnada de todas as outras versões (abandonadas na sua escrita), que só ele detém. Mesmo que releia um volume de sua autoria, depois de publicado, qualquer escritor, em algum trecho, haverá de dizer, aqui cortei umas linhas. Ou, o personagem dizia outra coisa!
Para ele, jamais a história editada (a única que o leitor conhecerá) espelha as várias histórias (preteridas) que seguem dependuradas em suas entrepáginas. Ele é o único que as vê. Em sua percepção estão, junto com a trama-raiz, todas as demais possibilidades descartadas — ramas, galhos e cipós. Nenhuma mão, senão a dele, pode apanhar as linhas, virtuais e tracejadas, das outras histórias que dela vazam. Ele é o supremo conhecedor dessas (suas) deficiências.
A metáfora, então, se fecha com a pergunta: cada um de nós não se leva à rua — para a leitura alheia — apenas na versão assumida como a última?
O juízo final não haverá de ser isso? Entregar aos outros todas essas mil e uma histórias hachuradas que, em consórcio, revelam quem de fato somos? Só assim, talvez, céu e terra haverão de coincidir, milimetricamente.