Diário das coincidências

João Anzanello Carrascoza · Capítulo 1 de 37

Páginas do PDF

Diário das coincidências

Um extremo

 

Uma noite, durante o mês que passou no programa de escritores residentes no Château de Lavigny, ele se lembrou de umas histórias que vivera e cujos pontos extremos — o início e o fim — eram conectados por uma estranha (ou seria perfeita?) combinatória de fatos. Anotou a sinopse delas num caderno, com o intuito de desenvolvê-las no futuro.

Mas os anos se passaram, outros projetos subiram à sua mesa, e a ideia de escrevê-las ficou à sombra.

Nesse interregno, nas duas vezes em que mudou de residência, o caderno reapareceu em meio a outros objetos. Releu suas anotações e acrescentou a elas outros episódios dos quais havia se esquecido, ou que vivera recentemente. Em ambas as ocasiões, pressentiu que aquelas aparições obedeciam a uma mesma lógica, como se fosse um teste para conferir se ele estava apto a enfrentar a tarefa.

Meses atrás, organizando seus livros nas estantes, ele se deparou novamente com o caderno. Abriu-o, escolheu uma das histórias e a escreveu no mesmo dia. No dia seguinte, outra. E, depois, mais uma. E outra, em seguida. Assim, em três semanas, ele as moveu, todas, do emaranhado de suas lembranças para estas páginas.

Por que um fato jaz tanto tempo na memória, à espera de algo que o desperte e lhe dê uma segunda vida através das palavras?

Ele ignora a resposta, e se há algum ganho em obtê-la. Mas, ao escrever por último este texto de abertura, tem certeza de que se tornou a linha de sutura de dois extremos: a ponta da faca e a ferida que ela abriu.