Diário das coincidências
Perdas
Um dia, o jornal trouxe uma entrevista com aquele escritor que ele admirava e de quem, no futuro, se tornaria amigo. Naquela época, acreditava — porque vivia um período de alumbramento com a palavra — que não havia nada insubstituível em seu espírito senão a literatura. E qual não foi o seu desconcerto ao ler que, questionado sobre a relevância dela, o escritor afirmara: “A literatura não é tão importante assim”.
A resposta lhe pareceu esnobe — claro, é comum, uma vez nas alturas, minimizar, com pseudomodéstia, a dimensão de um grande feito. Naquele então, se o escritor não decresceu em seu afeto, plantou-lhe uma desconfiança ante o ato de escrever, que, se a princípio lhe pareceu maléfica, com o tempo só lhe trouxe benefícios.
Na avidez dos vinte anos, sobrevalorizava seus experimentos literários, como se por meio deles pudesse alcançar um grau de consciência superior, e, assim, “iluminado”, compreender a autêntica escrita da vida, reservada apenas aos iniciados.
Mas, num processo vagaroso, ainda que lhe parecesse de alta velocidade, ele envelheceu. Já havia publicado suas primeiras obras, e começara a dar razão ao velho escritor. Estava escrevendo um romance, no qual progredia com rapidez, o que era raro em sua trajetória: as tramas costumavam lhe sair à miúda, lentas e gotejantes. Então, de súbito, deu-se uma pane em seu computador e ele perdeu todas as páginas escritas. Teria ficado abatido, como qualquer pessoa, feita com a fímbria de inconformismo, se o enredo do livro não fosse precisamente sobre o desaparecimento das palavras no mundo.
Aquilo lhe pareceu uma punição do universo, como se ele estivesse enveredando por um território ao qual não lhe era, e a ninguém, permitido o acesso. Buscou outras explicações, mas nenhuma o convenceu. Até porque não sabia como reduzir a espessura de sua tristeza, nem arrefecer a sua revolta contra aquela perda.
Acreditava, contudo — e decantou obsessivamente essa ideia em vários de seus contos —, que só se pode dar a outra pessoa algo que, de certa forma, já lhe pertence. E, se assim era, no outro extremo era correto pensar que se perde sempre o que nunca foi inteiramente nosso.
Como não podia recuperar o trabalho, teve de refazer tudo, e, assim, a versão definitiva de Ladrões de histórias jamais coincidiu com aquela perdida.
Esse acontecimento jazia nas gretas de sua memória, e veio à tona, semanas atrás, quando ele se pôs a fazer esta compilação de episódios. Estava na metade do caminho quando a chuva danificou seu laptop — esquecido à beira da janela —, e ele perdeu tudo o que havia escrito até então.
O mesmo sentimento o sacudiu. Explicações semelhantes retornaram. Mas, agora, ele sabe com quantas perdas somos feitos. E, como não havia o que fazer, apesar de sua indignação, lançou-se à reescritura.
Ele não crê, nem descrê nas coincidências. Pensa, tão somente, que escrever é tocar, acariciar, abraçar, por meio das palavras, aqueles que perdemos. Ou que nunca tivemos. Nada tão importante assim: agora ele entende a posição daquele escritor ante a literatura. E pede perdão a quem o lê, aqui, por ter trazido à luz estas histórias duplamente perdidas.