Diário das coincidências
Tradução
Antes, para ele, o único leitor que poderia ir à raiz de um texto era o revisor. A esse profissional caberia não apenas corrigir erros, mas fazer coincidir, como ponto de interseção entre duas coordenadas, a expressão do autor e a sua verberação precisa na esfera da língua. A nuvem, e suas pontas difusas, espelhada na poça d’água. O revisor que trocou o sim pelo não, em História do cerco de Lisboa, exemplificava as consequências da sobreposição desigual, da colagem malfeita entre essas duas forças — o rio-autor e as suas margens (que premem ou alargam o curso).
Com o tempo, percebeu que o tradutor de um texto, visto como seu recriador em outra língua, realiza tarefa símile à do revisor, mas, inegavelmente, mais complexa: não só a de fazer coincidir a expressão do autor de um idioma com o outro, pele sobre pele, sem restar arestas, senão também a de igualar sua intricada rede de ossos e a posição de seus órgãos internos — incluindo, claro, o coração.
Assim, com respeito, foi que tomou conhecimento, certa noite, à mesa do jantar de sua primeira residência literária, do esmerado trabalho daquela tradutora italiana à sua frente. A Ledig House, no vale do rio Hudson, abrigava, naquela sessão de primavera, dez escritores de diversas nacionalidades. Ele era o último a chegar lá, por um atraso na emissão de seu visto consular.
Havia trocado apenas algumas palavras de conveniência com a tradutora; tanto ele quanto ela eram lentos para se soltar; da mesma cepa, escondiam-se atrás de sorrisos e silêncios. Mas, à medida que se adaptavam à dinâmica da casa, passaram a se mirar com mais atenção, tentando decifrar o texto que levavam às costas. E, sobretudo, descobrir que este não coincidia com a interpretação inicial feita por aquele.
No fim da residência, quando já haviam se tornado amigos, confessaram o que, nos primeiros dias, equivocamente, achavam um do outro. Ela — leitura apressada, restrita à superfície textual, porque ele se parecia com o homem que havia pouco a abandonara — não o lia como de fato ele era; se não chegava a ter antipatia por ele, fazia-se de arisca. Ele — porque a tradutora lhe recordava a mulher com quem havia rompido antes de sair do Brasil — queria se aproximar, rever a outra no espelho d’água dela. Sentimentos iguais, mas de sinais trocados.
Enfim, a história de ambos, ao menos naquele trecho, coincidia. E, quando descobriram as semelhanças, puseram-se a se ler, mutuamente, com deleite, e a traduzir com a maior fidelidade possível os seus instantes, este para aquele, e vice-versa.
Esse misto de desafio e prazer foi mais difícil para ele, que mal falava outro idioma senão o seu, enquanto ela, especialista, transitava tão bem no inglês como em seu italiano natal: traduzira, inclusive, obras de três vencedores do Prêmio Nobel de Literatura.
Ao voltar para São Paulo, ele lhe escreveu um conto — o único que alguém me dedicou até hoje, ela disse, por telefone —, no qual um homem, que nem sequer sabia se expressar bem na própria língua, por um dom incompreensível, traduzia com facilidade, quase como se fosse sua invenção, todo o silêncio de uma mulher à sua frente na mesa de jantar.
Talvez para coincidir (será o verbo correto?) com esse gesto dele, ela se pôs a aprender português. Pediu-lhe que enviasse alguns de seus contos. Escolheu um deles e, generosamente, traduziu-o para o italiano, publicando-o no jornal Il Manifesto.
Não foi surpresa para ele, quando recebeu o jornal pelo correio, que o conto eleito por ela se chamava Casais.
Sobre a poça d’água, a nuvem paira e se espelha, perfeita.