Diário das coincidências
Amigo
Esta coincidência se deu entre ele e um amigo; a singularidade do episódio talvez tenha uma explicação plausível (um caso de telepatia) ou mística (uma epifania), pouco importa.
Conheceram-se em criança: ele, nascido na pequena cidade, terra fofa nas mãos; o outro, migrado da capital para lá, tijolos no olhar. Árvore e poste. Flor e fumaça.
Talvez a vida jamais incluísse naquele o que faltava nesse, e vice-versa, se não fosse o futebol. Atuavam em posições contrárias; ele, lateral esquerdo, o outro, ponta direita. Defesa, ataque. Empatavam nos lances de dividida. Provocavam-se, discutiam, não se davam trégua. Mas eram leais. Reconheciam, por reciprocidade e lisura, as virtudes um do outro. Por isso, aos poucos, e para sempre, se tornaram amigos. Desses para os quais não é preciso estar próximo para estar junto.
Assim, o que o exime de arrolar fatos que dão provas da sinceridade dessa comunhão — qualquer um há de encontrar em sua experiência vínculo semelhante —, os dois se afastaram. Ele foi estudar em São Paulo, onde vive até hoje. O amigo, egresso da capital, na via oposta, se manteve na pequena cidade.
A cada reencontro — raro, é verdade —, o contentamento, a cumplicidade e a certeza, ao avaliar o outro, de suas faltas e de seus acertos. Ama-se pelos defeitos (que percebemos nos outros e, compassivos, perdoamos) mais do que pelas qualidades (que podem saltar aos olhos, mas, a um deslize, nos desmascaram).
Durante anos, ficaram sem se ver. Nesse período, casaram-se, tiveram filhos, envelheceram.
Certa ocasião, a irmã, que vivia na pequena cidade, fez uma visita a ele, em São Paulo, e comentou que o amigo sofrera um infarto. Aturdido, ele lhe pediu mais notícias, mas ela só sabia que o amigo estava na UTI de um hospital em Ribeirão Preto. Procurou o telefone do hospital, planejando ligar para lá. Mas nunca o fez. Nunca o fez e, como todos nós, culpou as urgências da vida pelo seu esquecimento.
Então, tempos depois, foi convidado para um evento literário em Fortaleza. Cumpriu seu compromisso numa sexta-feira à noite. Como tinha o sábado livre, pegou um ônibus cedinho e foi passar o dia em Canoa Quebrada. Passeou pelo povoado, ondeou pelo mar num saveiro e, depois, como o sol incendiava os espaços, procurou a sombra de uma barraca, onde também pudesse beber algo.
Ao lado de sua mesa, um homem falava ao celular e, pelo que pôde entender, informavam-lhe que um amigo infartara. O homem, abalado, fazia seguidas perguntas, em voz baixa, e sua expressão revelava que o amigo seguia para o fim. Desligou o telefone e ficou a mirar, em silêncio, o céu esplêndido, a paisagem marítima estalando de vida, talvez indignado que a morte pudesse governar, com indiferença, num dia tão lindo.
Mas, para ele, as dores nos surpreendem justamente diante das maravilhas, para empatar as perdas e os ganhos. E, então, como se a tristeza do homem o contaminasse, veio-lhe a imagem do amigo de infância, que meses atrás também infartara e de quem não tivera mais notícias. Ignorava se havia se recuperado, ou se morrera. E a incerteza o arrastou a um sentimento, para si mesmo condenável, de egoísmo, de ingratidão. Como podia ter se esquecido de alguém tão querido? Por mais que estivesse na areia movediça dos compromissos profissionais, nada justificava a amnésia. Convencido de que só venceria sua inquietação e se perdoaria caso soubesse o que se passara com o amigo, resolveu ligar para a irmã. Talvez ela soubesse.
Mas nem foi preciso. Resposta à sua dúvida, um homem, em calção de banho, deixando para trás a areia ensolarada, adentrou a sombra da barraca e, vindo em sua direção, pronunciou seu nome. O amigo, vivo e sorridente, se materializara diante dele.
Depois, o esclarecimento, se bem que dispensável: o amigo se recuperara do infarto e pedira transferência para Fortaleza. Mudara-se com a família havia alguns meses. Era a sua primeira vez em Canoa Quebrada, onde planejara vir havia semanas, mas, até aquele sábado, sempre adiara.
Por onde andará esse amigo agora? Ele fecha os olhos e vê o seu rosto, como naquela tarde em Canoa Quebrada, a praia resplandecente ao fundo, a chamá-lo: João!