Diário das coincidências

João Anzanello Carrascoza · Capítulo 4 de 37

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Diário das coincidências

Mensageiro

 

Quando era estudante de comunicação em São Paulo, viu-se, de súbito, na condição de mensageiro. Morava com a irmã de seu pai, que morrera aos quarenta e poucos anos. Nunca se curou dessa perda, e pela vida inteira haveria de se sentir desamparado — um desamparo que o ensinou a enfrentar todo tipo de ausência sem medo. E ele não foi o único: o tio, irmão do pai, seu sócio no comércio de cereais, se viu igualmente desorientado.

Mas, se o fato o fortaleceu, embora só ele saiba quantas vezes, sentindo-se solitário, desejou o reencontro com o pai; o tio se abateu tanto que acabou se perdendo. Fez dívidas. Seu casamento malogrou, obrigando-o a se mudar para São Paulo e a deixar as duas filhas com a ex-mulher. Na capital, foi viver na zona cerealista. Meteu-se numa pensão e abriu as portas só para a bebida, o fumo e as prostitutas. Com sofreguidão, foi se dedicando a ser a ruína que pouco a pouco se tornou.

Foi nesse estado que ele encontrou o tio na primeira vez em que o visitou. E isso se repetiu em todas as outras visitas, a não ser quando a tia, cozinheira diletante, fez uma paella e pediu que levasse um prato ao irmão. No quarto da pensão, reconheceu o tio, a muito custo, atrás do rosto deformado, no centro do qual uma tromba, não o nariz, avultava. Esguio e bonito ontem, exibia um ventre bojudo sob o qual as pernas-palito se afinavam. Os cabelos haviam se engrisalhado prematuramente, os dentes enegrecidos pela nicotina.

Ambos tinham uma lança atravessada no peito — hoje, ele sabe, não era a única a dilacerar o tio —, e de imediato se tornaram cúmplices. Ainda que fossem tímidos, juntos se destravavam, expulsando continuamente o silêncio. Em todas as conversas, a mesma lembrança saltava, ora vazando dos olhos de um, ora dos lábios do outro: saudades de seu pai! Você se parece muito com ele. E isso é bom ou ruim, tio? Você poderia ser meu filho. O senhor já bebeu muito hoje! Assim seguiam, até que certa tarde o tio mudou de dor e comentou que sonhava em rever as filhas. Não tinha notícias delas há anos. Será que estavam bem? Será que o perdoariam?

Ele entendeu o recado. Mas, inexperiente, ignorava como um emissário deveria agir em tal situação. Sondou alguns parentes, sem conseguir apurar se a mãe impedira o tio de ver as filhas — fora um desquite litigioso —, se o tio havia se afastado delas por constrangimento (era incapaz de pagar a pensão judicial), se era a soma desses dois motivos e outros mais. Enfim, ele ignorava por que o tio perdera contato com as filhas. Só tinha certeza de que desejava, visceralmente, reencontrá-las.

Então o acaso (o acaso?) concluiu, num lance rápido e imprevisível, a sua formação como aprendiz de mensageiro: a Semana Santa chegou e ele foi passá-la com a mãe em Cravinhos, de onde saíra para estudar na capital. Lá, ao atravessar o largo da matriz, encontrou as filhas do tio, com quem quase não tinha contato. A mais velha regulava de idade com ele e foi ela quem, depois de umas palavras rotineiras, revelou que os desejos coincidiam. Queria, tanto quanto a irmã, e à revelia da mãe, encontrar-se com o pai. E, como se soubesse que ele andava próximo do tio — as engrenagens do universo têm a sua lógica —, a prima disse, resoluta: Marque uma data e nos avise. A gente dá um jeito. Pegamos um ônibus e vamos!

Ele compreendeu, resignadamente, que lhe cabia atar as duas pontas do circuito. E, de volta a São Paulo, procurou o tio e lhe comunicou a boa-nova. Se no primeiro momento o tio se alegrou, em seguida escureceu. Devia, vez por outra, se mirar no espelho e, com o fiapo de consciência que lhe restava, perceber como seria decepcionante para as filhas encontrá-lo naquela condição — um ser (fisicamente, mas não só) desfigurado.

No entanto, o susto lançou o tio na rota da redenção. Instado a se apresentar com uma aparência ao menos aceitável diante das filhas, iniciou a metamorfose: reduziu a bebida, cortou o fumo, fechou a porta para as prostitutas.

Quatro meses depois, quando foi levar a roupa nova que a tia comprara para o irmão usar no encontro com as filhas, ficou admirado ao vê-lo: o tio perdera a barriga, o azul dos olhos havia retornado, a tromba se encolhera em nariz. Desenvelhecera.

Naquela tarde, o tio lhe contou muitas anedotas, falou do irmão (não da falta que lhe fazia, mas de episódios felizes, vividos juntos) e o levou a conhecer uns amigos pela zona cerealista. Foram horas divertidas, e ele não soube ler, nas entrelinhas, a mensagem que se anunciava.

Cumpriu a sua palavra e avisou as primas: já podiam marcar o encontro. Combinaram para o sábado seguinte, data ideal para todos. Mas, dois dias antes — e aí é que ele se pergunta, o que esta dor me ensinou? —, dois dias antes, acharam o tio morto no quarto da pensão.