Diário das coincidências
Matéria
Enquanto escrevia este livro, acreditava que as coincidências ocorriam apenas na esfera do vivido. Talvez porque, sempre, haviam se apresentado assim: saltavam da vida, como um peixe do rio, para retornar, cintilantes, à correnteza de suas águas.
Mas então, oriunda do nada, igual a todas antes de se perceber os marcos de seu circuito, inclusive o que a inicia, esta se deu quando a irmã, viajando a Cuba, lhe trouxe de lá, como recuerdo, um livro de Pedro Juan Gutiérrez, ainda inédito no Brasil.
Conhecia outros romances desse escritor, além da Trilogia suja de Havana, e, no entanto, o livro que ganhara, El insaciable Hombre Araña, era uma coletânea de contos, gênero de sua preferência. Leu as primeiras histórias, reconhecendo o continente ficcional de Gutiérrez, sem imaginar que, num dos últimos (e mais belos) contos do conjunto, encontraria uma trama em consonância (e voltagem) com este diário.
A história, La proxima vez, principiava com sete acrobatas executando esplêndidos movimentos nos altos trapézios de um circo. A plateia estava excitada, pela habilidade que demonstravam e pelo perigo que corriam — o narrador, protagonista do conto, era um deles. O número seguia, admiráveis eram os saltos dos acrobatas, que, flutuando no ar um instante, se agarravam, em seguida, à barra do trapézio, ou às mãos de algum companheiro.
Então, repentinamente, dois palhaços se juntaram aos sete, e, disparatados, começaram a se atirar das cordas. Uma atmosfera de alucinação se inaugurou: os palhaços se jogavam sem parar — e os acrobatas se lançavam no espaço para salvá-los. Os espectadores, já de pé, eletrizados pelo terror, gritavam, pressentindo que a qualquer momento um dos palhaços, driblando no ar os acrobatas, cairia sobre suas cabeças ou se arrebentaria na arena. A orquestra se juntou àquela inesperada performance, puxando a música num crescendo.
De súbito, dois policiais invadiram o circo e, com megafone, ordenaram que se parasse imediatamente o espetáculo, não queriam mortos na arena. Naquele instante, os dois palhaços se atiraram das alturas, foram ganhando aceleração de torpedo, enquanto os acrobatas tentavam, um após outro, interceptá-los.
O narrador comentou: “Eles nos escaparam. Iam estatelar-se no centro do piso. Duas flechas incendiadas a uma velocidade vertiginosa. Estiquei a mão. Tentei pegar um. Não. Me escapou. Aconteceu alguma coisa com a interferência dos policiais. Todo o mecanismo de sincronização se rompeu com aqueles apitos. Eu também me precipitei para a terra”.
Em seguida, afirma que despertou horrorizado. Sentou-se na cama. Estava em pânico. Mal conseguia respirar. Ele era um dos palhaços. Tentou se tranquilizar. Então percebeu, ao lado, sua mulher, Julia, agitando-se num sonho convulso.
Despertou-a com delicadeza, sussurrando em seu ouvido que o pesadelo já passara. Julia acordou aterrada, “que alto, que medo!”, repetia, soluçando. Pediu que ela lhe contasse o que acontecia no sonho. Julia respondeu que não se recordava bem. Havia dois palhaços junto dela e os três caíram. Não sabia dizer onde, mas a queda se dera no momento em que dois policiais surgiram do nada.
Se somos feitos da mesma matéria dos sonhos, nos livros, os sonhos (os dele e os nossos) também devem ser feitos de igual matéria.