Diário das coincidências

João Anzanello Carrascoza · Capítulo 24 de 37

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Diário das coincidências

Mais um círculo

 

Quase sempre dois pontos se encontram, gerando uma coincidência, depois de percorrerem, cada um à sua maneira, itinerários em linha reta, em forma de espiral, ou fazendo um percurso sinuoso — não há um vetor padrão, o comando para que se cruzem, entre os milhares de chances improváveis, é regido por regras que ignoramos.

Mas, às vezes, o primeiro deles inicia uma jornada, sem trajetória prévia, e à sua revelia vai se projetando tal qual um circuito, unindo-se ao ponto final apenas ao completar seu movimento de rotação.

Assim se deu, de um modo raro, com Sara, que ele conheceu numa bienal do livro de Maceió. Jornalista, pediu-lhe uma entrevista. Ele concordou e sugeriu um café próximo ao hotel onde se hospedara.

Tudo bem, Sara disse.

Mas ele percebeu hesitação na voz dela, vinha aprendendo a ler as pessoas — que, tinha certeza, não eram senão textos que se faziam e se desfaziam, como a teia de Penélope, segundo as circunstâncias.

Seu radar estava bem calibrado: tão logo se cumprimentaram, sentaram-se à mesa e fizeram o pedido, percebeu que Sara não parecia à vontade.

Não foi preciso que ele, no fim da entrevista, se pusesse na posição dela, jornalista, e lhe fizesse a pergunta que o inquietava. Antes de pedirem a conta, Sara comentou que, naquele café, ocorrera um fato estranho com ela, início de uma história que, tempos depois, teria um desfecho triste. E, desde então, jamais retornara ali.

Ele permaneceu em silêncio — e o silêncio foi quem pediu a ela que continuasse o relato.

Anos antes, Sara entrara naquele café, acomodara-se numa mesa e, enquanto lia o jornal, percebeu, sobre a cadeira ao lado, um livro esquecido. Apanhou-o e começou a ler. Era o romance de uma escritora alagoana, e, fosse pela delicadeza da trama ou pelo estilo, a história a encantou, tanto que ela colocou o livro na bolsa e o tomou para si.

Quando terminou a leitura, dias depois, Sara descobriu que uma fotógrafa do jornal onde trabalhava era amiga da autora do romance — e as duas iriam se encontrar, à noite, num bar à beira da praia. Comentou seu apreço pela escritora, e a fotógrafa a convidou para se juntar ao grupo.

Naquela noite, Sara conheceu a escritora, e também o marido dela à época, com quem conversou longamente. Uma sincera afinidade nasceu entre ambos. Mas se manteve subterrânea, à espera de um encontro futuro ou de seu apagamento.

A vida de cada um foi girar por outros espaços, onde podiam ter se cruzado ocasionalmente. E, se alguma vez se roçaram sem querer, quando entravam ou saíam de um bar ou café, não se reconheceram.

Os anos se sucederam. Um dia, reencontraram-se numa rede social. Continuaram a conversa interrompida naquela noite, no bar à beira da praia, e Sara, que andava solitária depois de um namoro rompido, soube que ele e a escritora também haviam se separado.

Como o mar vem dar na areia, e a areia espera pelo mar, eles foram se aproximando, seguindo as marés do imprevisível.

O círculo ansiava por se fechar. Mas o ponto inicial ainda não se unira ao seu extremo: faltava um milímetro para completar a roda.

Uma noite, quando os dois já viviam juntos (longe do fim que, tempos depois, também se daria), Sara, ao chegar em casa, comentou que havia perdido o celular — a distração, seu defeito desde menina, continuava a lhe trazer prejuízos. Seu companheiro, ao contrário, jamais perdera um objeto. A não ser — confessou a ela — um livro da escritora (sua antiga namorada), que certo dia havia esquecido num café.