Diário das coincidências

João Anzanello Carrascoza · Capítulo 18 de 37

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Diário das coincidências

Homônimo

 

O nome é o nosso rosto na multidão de palavras. Delineia os traços da imagem que fazem de nós, embora não do que somos (no íntimo). Alguns escondem seu dono, outros lhe põem nos olhos um azul que não possuem. Raramente coincidem, nome e pessoa. Para certos esotéricos, o nome demarca nossa identidade — como uma tatuagem, ou, ele prefere, uma ferida. Também há rostos quase idênticos, e o nome de quem os leva (pela vida afora) é completamente díspar, nenhuma letra se iguala a outra.

O dele, um nome simples, apostólico, advindo do avô. Mas o sobrenome, pelo qual passou a ser reconhecido, é incomum. Sonoro, hispânico. Com uma combinação incomum de nome e sobrenome, difícil seria encontrar um homônimo. Mas eis que um surgiu, quando ele andava pelos vinte anos. E continua, ao seu lado, até agora — sombras amigas. O outro tem no sobrenome um “s” no lugar de seu “z”. Para ambos, uma diferença e tanto: cabelos curtos vistos como longos, lábios grossos vistos como finos. Para os outros, no entanto, são detalhes irrelevantes.

Impossível que não houvesse aqui ou ali alguma confusão entre eles, um episódio obscuro que, logo, viria às claras com a real justificativa: este não sou eu.

No entanto, ele e o outro possuem outras semelhanças, que lhes foram sendo apresentadas aos poucos: a idade próxima, o ofício com a palavra (este escrevia artigos sobre propaganda para uma revista especializada e um grande jornal; aquele, sobre arquitetura para uma revista e para o mesmo jornal) e até amigos comuns (que o homônimo conheceu no grupo escolar, e ele, na universidade).

Houve o caso da mulher que telefonou para ele, esmagando-o de impropérios por uma crítica feita no jornal pelo outro, sobre um célebre arquiteto, de quem ela era secretária.

Houve o caso com o diretor de criação de uma agência de publicidade que atendia à conta publicitária da Audi e lhe disse, quando ele foi apresentar o portfólio: não posso contratar quem falou tão mal do meu trabalho. É que, dias antes, o homônimo, estranhamente, já que propaganda não era sua especialidade, escrevera um texto, em sua coluna no jornal, agulhando um outdoor da Audi.

Houve também a época em que muitos conhecidos deram para bajulá-lo, alguns até lhe pediram emprego, depois de ler seu nome (na verdade, de seu homônimo) nos créditos de um programa da Rede Globo.

Durante esses trinta anos, sempre que o confundiam com o outro, não se irritava, nem se aborrecia. Apenas, pacientemente, refletia sobre o rosto, tão parecido, que as palavras haviam dado para ambos. O nome liberta, o nome aprisiona, ele pensava.

E teve aquele episódio da moça, mexicana, que ligou para sua casa, rememorando o caso que, supostamente, haviam tido em Cancún. Por sorte ele, e não sua mulher — a do primeiro casamento —, foi quem atendeu o telefonema. A ligação o inquietou: coincidentemente, ele retornara, havia poucos dias, do México, de viagem à pensínsula de Yucatán.

Depois de desfazer o equívoco ao telefone, ficou em devaneio. Tentava desenhar, a partir do nome da jovem mexicana, como seria o rosto dela. E, então, o seu corpo. E, então, tudo o mais… O roteiro — jamais soube se coincidia com a realidade! — lhe agradou tanto que teve dúvida se não fora com ele mesmo, e não com o homônimo, que se dera aquela aventura. Até hoje não sabe.