Diário das coincidências

João Anzanello Carrascoza · Capítulo 19 de 37

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Diário das coincidências

Pai

 

O pai. A pessoa que ele mais amou. Nunca se perguntou o porquê, como se existisse uma resposta. Morreu num acidente de carro, aos quarenta e poucos anos. Para ele, menino, foi a iniciação às perdas. Já adulto, apaixonou-se pelos mitos gregos, e, então, reconheceu em Prometeu, exposto à sanha do abutre, a natureza daquela sua dor: não cicatrizaria nunca. Num dia, o bálsamo do esquecimento; no outro, a lâmina da lembrança.

Certa noite — já se tornara pai também —, contava histórias para o filho quando lhe ocorreu outra pergunta: e se o pai não tivesse morrido tão cedo, ele o teria amado com a mesma intensidade?

Antes de dormir, retomando a leitura de O sonâmbulo amador, romance de seu amigo José Luiz Passos, ele deu com estas linhas: “Amor não é mistério, é gosto continuado na rotina, e tornado ainda mais vivo pela história dessa mesma rotina”.

O melhor da rotina (enquanto existiu) era, para ele, ouvir as histórias contadas pelo pai antes de dormir. Não teria vindo dali a necessidade de inventar, também, as suas histórias? O relato de uma dor a potencializa, mas não é também uma forma (a única) de anestesiá-la?

Perguntas, perguntas, perguntas.

Quando chegou à idade em que o pai morrera, resolveu investigar a autoria das histórias que ele lhe contava. Pesquisou, a princípio de forma caótica, mas depois com espírito detetivesco, ansioso por descobri-las em alguma coleção de livros clássicos para crianças ou em obras avulsas.

Estranhamente, não encontrou nenhuma daquelas histórias que o pai lhe narrava ao pé da cama. (Estão espetadas até hoje em sua memória. Certo: a memória envelhece. Mas não, dentro dela, as pessoas que amamos e se foram.) A conclusão não poderia ser outra: o pai as inventara para ele.

Nessa época, começou a ler para o filho, em voz alta, seus próprios livros, junto aos de outros autores. Então descobriu que quase todas as suas histórias, no fundo, ele as tinha escrito para contar ao pai.

Continua a não se perguntar por que o amava tanto, se o pai tinha algumas virtudes, mas incontáveis defeitos. Defeitos que, é provável, ele os tenha herdado, todos.

Outra pergunta:

O que seu filho, no futuro, ao ler estas páginas, pensará sobre isso?

Melhor lhe dizer logo: amamos porque nós, e os outros, morremos.

Neste preciso instante, ele e o filho, como qualquer ser vivo, estão morrendo.

Seu maior desejo?

Igual ao seu amor pelo pai, que seja intensa (e mais longa) a história que ele e o filho estão escrevendo agora.