Diário das coincidências

João Anzanello Carrascoza · Capítulo 36 de 37

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Diário das coincidências

Outro extremo

 

Ao terminar este livro, que no Château de Lavigny, pela primeira vez, sentiu o chamado para escrever, ele assegura que tudo é verdade, descontados, evidentemente, o que a memória costuma suprimir e o que a fabulação, própria dos escritores, teima em deformar, pelo desejo de que os fatos assim tivessem sido.

Estas vivências, e outras silenciadas, o fizeram ser o que ele foi, porque ele não é mais aquele que esteve no centro delas. Tem ainda, claro, as cicatrizes vivas, as lições incorporadas, as recordações espetadas no corpo. Mas se fez outro homem e, por isso, se viu obrigado a se referir a si mesmo como “ele”.

Sem premeditação — no caminho é que tudo se revela —, quem ele foi e quem ele é se encontram neste diário de coincidências.

Por isso, a precisão de escrevê-lo, antes que a noite, insinuante, se torne total e o atire, para sempre, num fosso. Que o espírito de Borges não se aborreça com essa variante de uma das dez metáforas que iluminam a escrita do mundo.

Aliás, confirmando a tatwa — a hora exata, para os hinduístas — de estes episódios emergirem, eis que, ao terminar de relatá-los, ele viu seus “personagens” invadirem, novamente, a realidade: o filho do mestre iogue lhe telefonou um dia desses; o amigo italiano enviou-lhe uma mensagem pelo Facebook, depois de um comprido silêncio; a prima de Granada retornou ao Brasil e os dois se reencontraram semana passada; do amigo infartado, soube que estava treinando para fazer a peregrinação da Via Láctea; no jornal, leu sobre o roteiro de uma minissérie escrita por seu homônimo; uma jovem escritora lhe pediu uma carta de recomendação para o Château de Lavigny; o presidente daquela agência de publicidade, agora diretor de um instituto cultural, chamou-o para organizar um livro sobre um escritor-publicitário; numa festa na pequena cidade, ele encontrou as primas, filhas daquele tio querido; enfim, misteriosamente, como se imantados às suas palavras, de alguma forma, todos deram sinal de vida nos últimos dias.

O que será que significa esta corrente? Ele já não se inquieta em responder. Talvez seja um novo idioma que deveria aprender.