Diário das coincidências
Sala de espera
Depois daquela primeira viagem de avião, outras vieram, para todos os cantos do planeta, muitas a passeio, a maioria a trabalho. Às vezes, mal desfazia uma mala, já começava a arrumar outra. Assim, ele ia se desfazendo do menino que fora, sujando-se inteiramente de mundo. Sentia-se exilado desde que se mudara da pequena Cravinhos para São Paulo, e esse sentimento, de que não vivia na terra onde suas raízes haviam crescido, jamais o abandonou.
Não raro acordava sem saber onde estava: os quartos de hotel sempre se parecem, embora alguns sejam mais impessoais que outros. Parecem-se, ele pensava, porque não há, nem nunca haverá, algo seu ali, fincado à parede, ou disposto com cuidado sobre um móvel, senão suas roupas, que logo seriam recolhidas e não deixariam rastro nenhum de que um dia ele lá havia estado. Exceto para quem sabe ler as linhas, e as entrelinhas, de uma história.
Talvez tenha vindo daí o hábito, haveria quem dissesse mania, de, sempre ao abrir a porta de um quarto, permanecer alguns instantes lendo — cada objeto uma palavra — o que teria se passado lá dentro, não apenas com o último hóspede, mas com todos os anteriores, as muitas camadas de sonhos e pesadelos impregnadas no vazio daquele espaço. Obviamente ele não sabia decifrar com exatidão o que lia — não há quem, diante de um palimpsesto, não se livre de confundir os traços de uma superfície com os de outra. No entanto, ele continua tentando.
Um dia descobriu que a leitura fora desde sempre, e continuava a ser, a sua obsessão, como se ele tivesse sido fabricado com esse defeito de buscar um sentido oculto atrás de toda e qualquer escrita.
Nas salas de espera de aeroportos, em incontáveis ocasiões, se pegara no ato de traduzir os passageiros que se sentavam à sua frente. Não se punha a imaginar — como um amigo, também escritor — quem seriam, qual o seu segredo, ou o resumo de sua vida. Não: ele não operava com hipóteses, nem se divertia supondo este é um médico, e a moça, ao lado, sua amante; aquele, um ator decadente; o velho ali talvez seja um usineiro; a senhora observando um avião decolando, uma viúva. Ele perseguia a verdade. Tinha certeza de que o rosto, a postura, a mala de um homem o revelavam inteiramente. Bastava saber interpretá-los.
O assunto irrigou sua obra literária em vários momentos, ora apreendido em relatos curtos — num deles, uma mulher, entrando num bar, lia as pessoas à mesa como cartas de tarô, e assim percebera que lá, em questão de minutos, aconteceria um assalto —, ora como linha de força de um de seus romances, cujo enredo se centrava no pai do narrador, homem que se aperfeiçoara em ler as pessoas.
Em uma dessas viagens, ele não lembra se no aeroporto de Nova Delhi ou Johannesburgo — a memória deforma as reminiscências —, notou, na sala de embarque, que uma trama se escrevia ante seus olhos: um casal com uma criança se sentara num banco à sua frente e acomodara, junto aos pés, as muitas bolsas e sacolas que carregavam.
Até aí, nada incomum. Mas o incomum não tardou a apresentar seu passaporte: pais e filho não se moveram um centímetro, nem com o passar dos minutos. Permaneceram estátuas, em completo silêncio.
Ele imaginou que logo o homem e a mulher trocariam alguma palavra. A criança pediria algo, ou um deles se levantaria para ir ao banheiro. E, assim, a normalidade retornaria. Mas não. Nada aconteceu durante quase uma hora. Então a chave desse “texto” se revelou para ele no semblante dos três. Ali se instalara a tristeza. A tristeza da partida, quando não queremos ir. E tão imensa era que lhes igualava os traços, dando a todos um único rosto.
Achou que estava fabulando, como fazia com seus personagens, e não assistindo de fato àquela cena. Contudo, era mesmo a leitura e não a escritura do momento que o absorvia. Algo estava se rompendo entre os três, para sempre. Ele podia sentir o cheiro do fim. Era como se flagrasse a flor no instante em que suas pétalas se fecham. A verdade nas entrelinhas do destino.
Tanto estava certo dessa interpretação que fixou seu olhar, por longo tempo, na mulher. E viu, só ele viu, a lágrima, quase imperceptível, que desceu pelo rosto dela.
Àquela hora, uma dor também começou nele.