Diário das coincidências

João Anzanello Carrascoza · Capítulo 23 de 37

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Diário das coincidências

Bilhete

 

A vida, o tempo todo, deixa bilhetes, como pedaços de pão ou sementes, por onde ele passa. Mas poucas vezes os seus melhores olhos o notaram, e, se perceberam, aos desdobrá-los para ler o recado ali contido, não entenderam o seu texto. As palavras, se não eram de língua desconhecida, comportavam-se como aquela figura de retórica, que, marcada pela brevidade, deixa subentendido o sentido completo dos enunciados. Pelas suas elipses, dá-se o ocultamento de parte do significado, conquanto se desvele a outra parte.

Tantos anos ele ficou sem notícias dela, Márcia, amiga de seus tempos de faculdade. Eram jovens, nascidos em cidades próximas — ele, Cravinhos; ela, São Simão —, e, se tinham tantos sonhos em comum, nem sequer desconfiavam que muitos desses sonhos seriam movidos pela realidade, com sua correnteza violenta, rumo ao nada. Apenas um ou outro, não se sabe o motivo, se solta dessas águas e acaba por mover toda uma existência.

Daquela turma, ela foi uma das primeiras a se casar, logo que terminou o curso universitário. Não demorou para ter, dentro de si, uma semente de filho. Mas a gravidez, de alto risco, obrigou-a a viver meses deitada, em repouso, vendo o ventre crescer, lentamente — a nova vida se arvorando, em silêncio. Até que, por fim, o menino nasceu.

Daí em diante, no entanto, Márcia e ele perderam contato. As forças da separação agem como as da união, ambas seguem a agulha de uma bússola que dói na memória (às vezes mais do que na carne). Vai-se viver num dia os efeitos dos dias anteriores. O pão de cada hoje tem fatias de ontem.

Então, quando ela soube (não importa como) que ele estava escrevendo um livro sobre coincidências, enviou-lhe um bilhete. Um bilhete que não era senão um atalho, mas no qual cabia um caminho inteiro de lembranças. Um bilhete que relatava, em poucas linhas, um episódio que abria uma clareira na amizade deles, perdida, nos últimos anos, nas cerradas tramas do esquecimento.

Quando o menino cresceu, Márcia e o marido tentaram, outras vezes, plantar mais um filho. Mas o ventre dela secara para a concepção. Irrigado, só o desejo do casal de povoar a casa com uma menina.

Enveredaram pelo rumo da adoção, inscrevendo-se, certa tarde, em diversas varas de família. E, nessa tarde, o marido enviou flores a ela, escrevendo no cartão apenas a data e esta mensagem: Em algum lugar, hoje, uma menina está nascendo para nós. Logo a encontraremos.

Três anos depois foram chamados para conhecer, num educandário, uma criança com alguns meses de vida. Lá chegando, viram-se cercados por uma menina, que andava com um caderninho na mão e pediu para desenharem algo nele. Nos dez minutos em que estiveram com ela, Márcia e o marido se sentiram unidos intensamente à menina, como se os três estivessem, há muito, presos a um único e inquebrável cordão. A menina, solta no pátio do educandário, era um bilhete para eles, cujo enunciado dizia: Levem-me!

Assim, embora os dois tivessem ido buscar um bebê, decidiram àquela hora mudar os planos e adotar a garota, que ali os entretinha, à espera de pais que nunca haviam chegado.

A certeza de ambos foi imediata, mas o processo se alongou.

Por fim, um dia, o promotor lhes deu uma guarda provisória. E a menina foi passar alguns dias com eles.

Ao guardar as roupas da criança, Márcia encontrou, no fundo de uma gaveta, aquele bilhete do marido: Em algum lugar, hoje, uma menina está nascendo para nós. Logo a encontraremos. Verificou a data e a comparou com a do documento da menina: era exatamente o mesmo dia, mês e ano do nascimento dela.