Diário das coincidências
Paralelas
Quando viajou a primeira vez com ela — essa, que é hoje a sua companheira —, foram passar o fim de semana numa pequena cidade na serra da Mantiqueira.
Deu-se que, depois de sete anos, eles retornaram a essa cidade, e lá estão nesse dia de hoje. Chegaram há algumas horas, e, não obstante se lembrem de alguns passeios da outra viagem — a vista grandiosa do pico Agudo, a cachoeira do Lajeado, o mirante do Cruzeiro —, ao passear a pé pelo centro, não reconheceram a Igreja de Santo Antônio, nem se recordavam daquele restaurante onde haviam jantado à luz de velas.
As reminiscências não batiam com o estado atual das coisas, e, por algum motivo, ele desejava que a felicidade dos primeiros tempos coincidisse com a daquele instante — partilha-se o momento, para fortalecer os laços; mas os laços só se fortalecem se, depois, o mesmo momento for partilhado na lembrança.
Queria que o fiapo de linha do tempo vivido naquela cidade, quando o amor começara, tivesse a mesma consistência do cordame de aço no qual, então, havia se tornado.
Mas — ele estava aprendendo — os dias já passados são paralelos aos que estão em vigor e aos futuros; assim, jamais vão se juntar numa dimensão contínua do ser. O máximo possível é o destino, num ato sublime, fazer o sentimento, experimentado numa época, atualizar-se por meio de uma recordação.
Caminhando com sua mulher pela cidade cercada de eucaliptos e araucárias, ele desejava que ambos trouxessem à superfície da memória uma alegria similar (a mesma?) sentida na primeira viagem. Mas quem pode fazer esse milagre?
No chalé, onde agora ele escreve, veio-lhe uma suspeita: e quando, ao contrário, desejamos que o destino jamais coincida com os nossos temores?
Nesse caso, também, nada se pode fazer senão deixar o medo à sombra e seguir, humilde, sentindo a existência operando nele e nela — e na menina que vem vindo. Sim, há cinco meses eles souberam que ela estava grávida. A nova vida inflava, devagarzinho, o ventre de sua mulher.
Dois anos antes, ele publicou aquele romance sobre um homem de cinquenta anos que ganhou uma filha, e para ela se pôs a contar a história da família num caderno — o Caderno de um ausente. Seu personagem receava que tivesse pouco tempo de convivência com a menina. Enganara-se: ela viveria muito ainda com o pai. Mas não com a mãe.
Enquanto escreve no chalé, atrás da mesinha, ele observa sua companheira deitada na rede, fabricando silenciosamente a filha. Os ramos de um eucalipto se movem com a brisa.
Deseja intensamente que seus temores não correspondam à realidade futura. Mas se, num ato sublime (e piedoso) do destino, assim suceder, o seu querer e do universo vão se encontrar num mesmo ponto — resultando numa (sonhada) coincidência em outro plano.