Diário das coincidências

João Anzanello Carrascoza · Capítulo 2 de 37

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Diário das coincidências

Costura

 

Um dia, alguém disse a ele, a pele, apesar de suas três camadas, não prima pela profundidade, a pele é rasteira. Ele não concordou, nem discordou, era jovem para se apegar às próprias convicções, mas o comentário ficou preso em sua mente, como o anzol na boca de um peixe.

Havia comprado uma passagem para Madri, seria sua primeira viagem de avião, encontro inaugural com o país de onde emigrara seu avô. Estava ansioso e, talvez por isso, à noite, na véspera do embarque, ao escavar com a faca uma peça de carne grudada no congelador, cortou um dos dedos. Não compreendia como podia jorrar tanto sangue dali — abaixo da pele só havia osso —, enquanto se admirava com o vermelho vivo que ganhava tons de rosa ao se infiltrar no gelo.

Por sorte, a irmã estava na cozinha e arrancou-o daquela imobilidade. Estancou o ferimento com pano de prato e o levou, às pressas, a um pronto-socorro. Atendeu-o um estudante de medicina. Foi um corte fundo, vou dar dois pontos, disse, e acrescentou: daqui a uma semana, volte para retirá-los.

No dia seguinte, ele seguiu para Madri. Levou o endereço de uma tia distante, que vivia em Granada, de quem o avô falava com carinho antes de morrer. Quando se cansou de passear pelos museus, praças e calles da capital espanhola, pegou um trem e foi para a Andaluzia visitá-la.

A tia o recebeu com festa, junto a uma das filhas, que tinha a mesma idade dele. A prima o levou para conhecer a cidade, e não seria exagero dizer que a moça o encantou tanto quanto o Alhambra, com seus jardins, El Generalife, e as casas brancas do bairro de Albaicín, onde o avô dele nascera.

O encanto aumentou (e também a sua desconfiança ante os desígnios da providência) quando ele comentou com a prima que precisava tirar os pontos. Sou estudante de medicina, disse ela, posso tirar os pontos pra você! E assim o fez, ali mesmo, na varanda, depois de pegar uma caixa de primeiros socorros. Dói?, perguntou ela, ao puxar a linha de sutura já esfarelada. Não, ele respondeu, e de fato não doía nada ali; mas era seu último dia em Granada e, num outro ponto de seu ser, ele sentiu uma fisgada, quase uma dor.

Talvez pela inabilidade do estudante de medicina que o costurou, ficou naquele dedo uma cicatriz, nítida, em forma de cruz. E, coincidentemente, uma outra surgiu (quando a prima tirou os pontos), invisível para os outros, mas não para ele.

Dali em diante, sem motivo explicável, uma das cicatrizes às vezes lhe beliscava, repuxando lá do fundo, como se quisesse chamar-lhe a atenção para algum fato, alguma linha (torta) da escrita do universo.

Embora tenha viajado outras vezes para a Espanha, em duas delas inclusive passara por Granada, ele nunca mais viu a prima. Nem trocou com ela uma carta, um telefonema, um e-mail.

Trinta anos depois, recebeu uma mensagem dela pelo Facebook, informando que vinha ao Brasil, a passeio, e gostaria de vê-lo. Jantaram juntos e celebraram o reencontro. Pelo efeito do álcool, ou pela verdade da hora, estavam ambos felizes e gratos com a vida e os filhos que tinham (ele, um menino — ela, duas meninas). Fizeram um último brinde. E aí ele sentiu, inesperadamente, um repuxão no dedo.

Mostrou à prima a cicatriz e a lembrou dos pontos que ela havia retirado. Tinha tudo tão vivo na memória, o sangue vermelho se tornando rosa no gelo. Naquele instante, os jardins do Generalife eram tão verdes como os olhos dele. Mas, embora se recordasse do fato, ela não o registrara na camada mais funda, como se dera com ele. E eu fiz um bom trabalho?, a prima perguntou. Ele respondeu: sim, fez! E acariciou a pele em relevo, onde a cruz latejava.