Diário das coincidências

João Anzanello Carrascoza · Capítulo 5 de 37

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Diário das coincidências

Cristais

 

Chegou aquela vez em Granada à noite, num trem proveniente de Madri. Achou que era tarde para procurar a tal tia, a quem ainda não conhecia, e nem imaginava que uma prima, no dia seguinte, seria a sua gentil cicerone — e que, para além de caminhar com ele sobre a pele da cidade, ela lhe deixaria um marco na memória.

Como tinha pouco dinheiro, precisava procurar um hostal nas proximidades. Mal saiu da estação ferroviária, uma abuelita veio lhe oferecer pernoite por algumas pesetas. O sol minguava além da Sierra Nevada. A velha senhora insistiu, morava a apenas uma quadra dali. Ele aceitou a oferta, até porque outros jovens, com suas mochilas às costas, afluíam das plataformas e, evidentemente, iriam buscar pouso nas hospedarias das imediações.

A casa, simples por fora, guardava internamente, em duas pequenas salas contíguas, uma infinita quantidade de peças de cristal — cálices, taças, copos, jarras, vasos, fruteiras — dispostas com esmero em cima de cômodas, mesas, nichos, bombés; não havia móveis ali sobre os quais não se acumulasse, a disputar o mesmo espaço, os mais diversos objetos de cristal. Os estilos, as cores e as espessuras também variavam, formando um conjunto atordoante, não só pela beleza, mas pela fragilidade. Um toque involuntário, e tudo se estilhaçaria.

A abuelita lhe mostrou a cozinha, o banheiro e os três quartos da casa — um ocupado por ela e os outros dois por mochileiros. Ensinou-o a ligar o aquecedor a gás para o banho — quando terminar, desligue, de acuerdo? —, deu-lhe uma cópia da chave da casa e, antes que a óbvia pergunta fosse feita, e eu, onde dormirei?, sinalizou para que ele a seguisse. Retornou a uma das salas, a menor, e apontou para o sofá sobre o qual se viam travesseiro e lençol. Antes de desaparecer, a abuelita disse, com naturalidade, como se tudo ali não fosse tão precioso quanto era: cuidado con los cristales, chico!

Ele se espantou com a coragem dela, não apenas por arrastar para sua casa desconhecidos — a necessidade supera o temor —, mas por deixá-los profanar seu santuário, correndo ainda o risco de vê-lo facilmente em cacos de uma hora para outra. Porque, para alcançar a porta da frente, era obrigatório a qualquer hóspede atravessar as duas salas minadas de cristal. E para ele havia o agravante de se estabelecer ali, com uma mesinha atulhada de bibelôs à sua cabeceira, e outra, de copos e jarras, de cristal casca de ovo, a seus pés. Um voleio mais forte no sofá, em meio ao sono, um passo errado ao voltar do banheiro na madrugada, um espreguiçar-se pela manhã, e uma baixa fatalmente se daria naquela coleção.

Talvez por isso, dali em diante, ele passou a ter mais cuidado ao entrar na vida dos outros, receoso de que pudesse, mesmo inadvertidamente, quebrar algo que lhes pertencesse. E, ao contrário do que ocorreu na casa da velha senhora, ele muitas vezes não conseguiu.

Anos depois, já casado, ele quis mostrar à esposa a terra do avô. Desembarcaram na estação de trem de Granada. Haviam reservado um hotel no bairro de San Matías, mas, ao ver a abuelita se arrastar pela plataforma em seu passo miúdo, à procura de viajantes, ele foi ao seu encontro.

Dormiu com a mulher naquele mesmo sofá da sala. E a certeza de que era só uma coincidência se quebrou, dentro dele, como um cristal.