Diário das coincidências
Águas
Não vemos o sal nas águas do mar porque mar e sal são, em si, a mesma matéria, o sal é feito do mar e faz o mar ser o que é. Assim também, na alva espuma do tempo, nós somos nós e os outros em nós, os outros são eles próprios e a parte que nele nos cabe.
As águas se renovaram, e uma outra tradutora, Ilze, surgiu, de súbito, no horizonte dele.
Ainda jovem, ela saiu de Poços de Caldas, onde vivia, e foi para os Estados Unidos fazer mestrado na Pensilvannia State University. Lá se doutorou, casou-se e, depois de atravessar anos e anos trabalhando como professora de português em colégios americanos, aposentou-se. Então decidiu se dedicar à tradução de escritores brasileiros para o inglês.
Procurou-os pelas redes sociais, os célebres e os desconhecidos, mas nenhum lhe deu resposta, senão ele — porque ele e Ilze talvez sejam sal das mesmas águas, ele e Ilze talvez sejam o sal que faz o mar e o mar que é feito de sal. Ela começou a misturar as histórias dele, escritas em português, com as americanas. Tentou, durante meses, publicar algumas dessas suas traduções em revistas literárias de língua inglesa — mas só recebeu negativas.
No entanto, a amizade com ele seguiu — e, na troca de mensagens entre os dois nos últimos meses, Ilze lhe contou um fato que unira duas margens aparentemente remotas de sua vida.
Ela fazia mestrado na Penn State quando conheceu uma moça da Califórnia. Aos poucos, como ocorre no encontro de certas águas, tornou-se sua amiga — não só para aqueles tempos de estudante, mas para sempre.
No fim do curso, a moça retornou à Califórnia, e Ilze continuou na universidade, onde iniciou seu doutorado — conheceu o rapaz com quem namorou, noivou e se casou. Antes do matrimônio, telefonou para a amiga e a convidou para ser sua madrinha. Contou-lhe que o noivo era de Stanford, o casamento seria na casa dos pais dele, na rua Tolman Drive.
Tolman Drive, a amiga disse. Eu morei nessa rua!
Ilze lhe deu o nome e o sobrenome do noivo, além da idade — a mesma da amiga. E a amiga, embora se lembrasse de muitos meninos com quem tinha passado a infância na Tolman Drive, não se recordava dele.
No dia da cerimônia, a amiga e o noivo de Ilze foram apresentados e se cumprimentaram, como dois desconhecidos. Mas, em seguida, a moça sussurrou, Espere um minuto. E, nesse minuto, o rosto de um menino, seu vizinho na infância, se sobrepôs, com perfeição, ao daquele homem à sua frente:
Agora me lembro, ela disse. Como esquecer aquelas orelhas de abano?
Sem querer, Ilze reunira, na Tolman Drive, vinte e cinco anos depois, sua amiga e seu futuro marido, que haviam crescido ali, naquela rua.
Ainda há pouco, Ilze avisou por e-mail, eufórica, sem saber como administrar a alegria, que o conto dele, “Mar”, traduzido por ela para o inglês, seria publicado na revista literária Your Impossible Voice.
O sal é feito do mar e faz o mar ser o que é. As mesmas águas, como ondas, se atraem. E a vida continua repetindo, para ele, essas improváveis (e silenciosas) possibilidades.