Diário das coincidências

João Anzanello Carrascoza · Capítulo 30 de 37

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Diário das coincidências

Desacerto

 

Justo seria também incorporar, entre estas histórias, aquela do quase, do por um triz, do desfecho que não aconteceu mas poderia ter acontecido, se a escrita torta do destino não tivesse laborado, como das outras vezes, para a sedimentação da coincidência.

Tantas são as tramas que não dão certo — todas as outras! — que escolher uma delas é como ser um serviçal da injustiça. As escolhas revelam quem somos e quem ocultamos ser, mas ele sabe que é preciso fazê-las, minuto a minuto; essa é, aliás, uma condição inevitável da vida.

Que seja, então, uma que se deu logo após o retorno dele daquela peregrinação. Voltou de lá outro homem, graduado para ler e entender a verdade de seu texto (e a dos outros), como se tivesse não só assistido ao parto de uma nova língua, mas fosse capaz, empregando poucos recursos, de produzir poesia.

No entanto, é provável que assim tenha se passado, porque ainda restava a ele um fiapo de incredulidade a impedir a sua total ascensão, apesar de, a princípio, lhe parecer exatamente o contrário. Não era a prova derradeira, mas o prêmio por ele reproduzir, com os próprios pés, na terra, o caminho celeste da Via Láctea.

Havia se separado e vivia, longe do filho, num pequeno apartamento que comprara. A solidão o repovoara, e, feito uma bússola, corrigira a sua rota. Aos poucos, ele foi retirando de seu expediente as mulheres que o enfeitiçavam, ao menos era essa a sua percepção à época — logo desmentida, quando, no curso dos dias, descobriu que o feitiço emanava dele mesmo (ainda habituado a cozinhar velhas fórmulas).

Então, quando ele se esvaziara de todas as mulheres, ela apareceu. Silenciosa, com uma criança. Apresentou-a um amigo, e as circunstâncias, ele bem se lembra, nada tiveram de especiais que valha detalhá-las. Aqui, como em qualquer outra página deste livro, não é justo exagerar nem minimizar os fatos, para não lhes conferir medida falsa, em que pese a aura de originalidade sempre a cintilar (mais nos relatos do que) na vida dos amantes. No entanto, sabe-se, para os envolvidos, este é seu prazer secreto, há minúcias, desconhecidas dos outros, que lhes asseguram invariavelmente o diferencial mágico.

Nada de extraordinário se deu no percurso entre a apresentação de um ao outro, o interesse de se conhecerem pela história que levavam consigo e, etapa final e misteriosa, o desejo de misturá-las.

Mas ela, honesta e subjugada à verdade, antes mesmo de os corpos se conhecerem — o que não os impediu, ao contrário, só lhes trouxe mais febre —, avisou-o que, em seis meses, se mudaria para a Itália. Lá conseguiria o tratamento médico para o filho — com um problema congênito —, impossível de se garantir no Brasil. Assim, ela lhe oferecera a alternativa da renúncia. Mas ele não recuou. Ele reaprendera a não temer a dor.

Era uma relação com dia e hora para terminar. Dia e hora já sabidos, porque tudo tem dia e hora para terminar, só não o sabemos a priori, o que nos dá a ilusão, o provisório esquecimento, de que jamais findará. No entanto, ele a vivenciou intensamente, entregando-se sem freios à sua contagem regressiva.

Esta travessia — ele assim a considera — recordou-o, àquela altura, a resolução de James Wait, o negro marinheiro de Conrad, de se engajar gravemente doente num navio: “Tenho de viver até morrer, não tenho?”.

Até o instante final, o sentimento mútuo de ternura (e, abaixo dele, de aceitação ante o desfecho adverso) só se expandiu. Mas, como o amor não alcançara o tamanho de ser insuportável viver um sem o outro, nem de ambos se matarem por não o merecer, despediram-se, dignos e respeitosos, sem expor seu dilaceramento.

Houve ainda uma chance de driblarem o destino. E ele a aproveitou, viajando, meses depois, para visitá-la em Roma. O quase, o triz, por um quase nada, similar, foi vencido nesse reencontro e, se de fato o tivesse sido, este relato não teria justificativa de aqui constar entre os demais. Por um átimo acreditaram (ou se permitiram acreditar) que uma reviravolta ocorreria, mesmo se desafiassem o cosmos, porque a queriam e em sua causa agiriam.

Dois anos se passaram e ela retornou com o filho ao Brasil. Eles se viram duas ou três vezes, as mãos sobre a mesa, com legítimas saudades, mas sem coragem de se enganar: alguém já havia entrado na vida dela. Na dele, também.

Que ela e o menino estejam bem, ele deseja. E que venha a vida, com os seus desígnios, a trazer-lhes a merecida cota de resignação.