Diário das coincidências
Vagão
Tinha seus trinta anos quando aprendeu com um escritor mais velho, cuja obra admira — e de quem, dádiva jamais cobiçada, acabou por se tornar amigo —, que as metáforas só deveriam ser chamadas ao texto se fossem capazes de expressar, com mais rapidez e brilho, aquilo que substituíam. A essa lição acrescentou outra, captada num dos ensaios de Borges reunidos em Esse ofício do verso: existem apenas dez metáforas. Todas as demais são variantes dessas poucas.
Mas entre o sabido (mesmo se na carne) e o aplicável à vida (ainda que no papel) está a distância entre o efeito do real e a verdade, a habilidade com a faca e o golpe mortal. E, apesar de se policiar, as metáforas continuaram, e continuam, a vazar de sua mão.
O tema lhe veio a propósito de uma noite, vivida num trem, no fim daquela primeira viagem a Madri. A mesma em que conhecera, em Granada, a prima e a abuelita. A cicatriz e os cristais. Não se recordava de onde partira — é provável que fosse Lisboa —, mas apenas que seu destino era a capital espanhola, e lá só chegou no dia seguinte, para pisotear a luz da manhã, como um dos milhares de passageiros que desembarcaram em Atocha.
Acomodara-se numa cabine de segunda classe com sete outras pessoas — e um cão que, fiel ao dono, viajou oculto sob sua poltrona. Com a lotação completa ali e as luzes ainda acesas, foi obrigado a se enturmar. Havia três uruguaios, duas italianas, um alemão (e seu cachorro) e, para sua surpresa, uma brasileira, que se sentara entre ele e a janela.
Tornaram-se íntimos, como podem se tornar, de repente, dois jovens desconhecidos, do mesmo país, que se aventuram pelo mundo, sentindo-se invulneráveis ao massacre do tempo. Ao contrário, a ele se entregavam com espontaneidade. Ela era gaúcha, estudava na Alemanha, viera passar o verão na Espanha. Conversaram longamente, alegres por estarem ali, a partilhar aquele instante.
A certa hora, os passageiros, já cansados, começaram a se ajeitar para dormir. Alguém apagou a luz da cabine. A madrugada esfriou. A jovem retirou uma manta que trouxera na mochila e se cobriu, dividindo-a com ele. Foi difícil se aquietar, ele recorda. O sono foi cortado por lampejos de vigília, nos quais sentia o corpo dela imantado ao seu, e agradecia pela comunhão que aquela presença lhe proporcionava.
Antes que amanhecesse, percebeu que ela saíra da cabine e levara a mochila consigo. O vazio o atirou à realidade e ele experimentou uma súbita sensação de perda. Sem saber o motivo, veio-lhe uma metáfora: o mundo ali, sempre no seu curso, sobre trilhos. E nele havia quem viajava há mais tempo, quem desceria na próxima estação e quem subiria. Algumas paisagens só os velhos passageiros conheceriam; outras, de trechos vindouros, apenas os recém-embarcados contemplariam. E, assim, naquele entra e sai desordenado e infinito, um consenso de pontos de vista era impossível.
A gaúcha retornou à cabine, ajeitou-se ao seu lado e adormeceu. Mas ele continuou com a impressão de que ela saltaria do trem antes de seu destino. A verdade o desmentiu: chegaram a Madri, saíram juntos do trem e trocaram endereços, embora no fundo ele soubesse que jamais se reencontrariam.
Anos depois, ele estava se mudando para um novo apartamento. Remexia umas caixas, onde guardava mapas de viagem, quando achou o tíquete do trem em que ela anotara o endereço. Delicada era a letra e bonito o sobrenome germânico. Por onde a gaúcha andaria? Vieram-lhe, num golfão, as conversas naquela cabine, o alemão com seu cachorro, as mãos entrelaçadas debaixo da manta.
Mais tarde, pegou o jornal para ler: a matéria principal era o acidente aéreo ocorrido no aeroporto de Congonhas, em São Paulo. O avião, vindo de Porto Alegre, derrapara na pista e se espatifara contra um depósito de cargas, incendiando-se em seguida.
Folheou os cadernos do jornal e, numa página da reportagem, deu com a lista de mortos. Sem muito interesse, correu os olhos pelas primeiras linhas. E lá, lá estava o nome dela, que havia pouco ele vira no tíquete do trem. Poderia ser uma homônima, cogitou, com alguma esperança. Mas ele sabia que não era uma metáfora do universo. Ela saltara da vida mais cedo.