Hábitos Atômicos

James Clear · Capítulo 12 de 26

Páginas do PDF

Hábitos Atômicos

Caminhe Lentamente, mas Jamais Recue

A 3ª LEI

 

Torne-o Fácil

 

OceanofPDF.com

11

 

Caminhe Lentamente, mas Jamais Recue

 

N o PRIMEIRO DIA de aula, Jerry Uelsmann, professor da Universidade da Flórida, dividiu seus estudantes de fotografia em dois grupos.

Todos no lado esquerdo da sala de aula, ele explicou, estariam no grupo

“quantidade”. Eles seriam avaliados apenas pela quantidade de trabalho que

produzissem. No último dia de aula, ele registraria o número de fotos

enviadas por cada aluno. Cem fotos significariam nota A; 90 fotos, B; 80

fotos, C e assim por diante.

Enquanto isso, todos do lado direito da sala estariam no grupo de

“qualidade”. Eles seriam avaliados apenas pela excelência de seu trabalho.

Eles só precisariam produzir uma foto durante o semestre, mas, para obter

um A, ela deveria ser uma imagem quase perfeita.

No final do prazo, ele ficou surpreso ao descobrir que todas as melhores

fotos foram produzidas pelo grupo quantidade. Durante o semestre, esses

alunos estavam ocupados fazendo fotos, experimentando a composição e a

iluminação, testando vários métodos na câmara escura e aprendendo com

seus erros. No processo de criar centenas de fotos, eles aprimoraram suas

habilidades. Enquanto isso, o grupo qualidade se limitou a especular sobre

a perfeição. No final, eles tinham pouco a mostrar por seus esforços além de

teorias não comprovadas e uma foto medíocre.1

É fácil ficar preso tentando encontrar o plano ideal para a mudança: a

maneira mais rápida de perder peso, o melhor programa para ganhar

músculos, a ideia perfeita para um negócio. Estamos tão focados em

descobrir a melhor abordagem que nunca chegamos a agir. Como Voltaire

escreveu certa vez: “O melhor é o inimigo do bom.”

Refiro-me a isso como a diferença entre estar em movimento e agir. As

duas ideias parecem semelhantes, mas não são iguais. Quando você está em

movimento, está planejando, criando estratégias e aprendendo. São todas

coisas boas, mas não produzem um resultado.

A ação, por outro lado, é o tipo de comportamento que produzirá um

resultado. Se eu descrever 20 ideias para artigos que quero escrever, isso é

movimento. Se eu realmente me sentar e escrever um artigo, isso é ação. Se

eu procurar um plano de dieta melhor e ler alguns livros sobre o assunto,

isso é movimento. Se eu realmente comer uma refeição saudável, é ação.

Às vezes o movimento é útil, mas nunca produzirá um resultado por si

mesmo. Não importa quantas vezes você vá falar com o personal trainer,

esse movimento nunca o colocará em forma. Somente a ação de se exercitar

obterá o resultado desejado.

Se o movimento não leva a resultados, por que fazemos isso? Às vezes

fazemos porque realmente precisamos planejar ou aprender mais. Mas

muitas vezes o fazemos porque o movimento nos permite sentir que

estamos progredindo sem correr o risco de fracassar. A maioria de nós é

especialista em evitar críticas. Não é bom falhar ou ser julgado

publicamente, por isso tendemos a evitar situações em que isso possa

acontecer. E essa é a maior razão pela qual você entra em movimento em

vez de agir: quer protelar o fracasso.

É fácil estar em movimento e se convencer de que está progredindo. Você

pensa: Estou conversando com quatro potenciais clientes agora. Isso é bom. Estamos nos movendo na direção certa. Ou: Tive algumas ideias para

o livro que quero escrever. O projeto está caminhando.

O movimento faz você se sentir como se estivesse fazendo as coisas. Mas,

na verdade, está apenas se preparando para isso. Quando a preparação se

torna uma forma de procrastinação, é preciso implementar mudanças. Você

não quer apenas planejar. Quer praticar.

Se quer dominar um hábito, a chave é começar com a repetição, não a

perfeição. Você não precisa mapear todos os recursos de um novo hábito.

Só é preciso praticá-lo. Essa é a primeira conclusão da 3ª Lei: você só

precisa repetir.

 

QUANTO TEMPO REALMENTE LEVA PARA SE CRIAR UM

NOVO HÁBITO?

 

A formação do hábito é o processo pelo qual um comportamento se torna

progressivamente automático através da repetição. Quanto mais você repetir

uma atividade, mais a estrutura do seu cérebro muda para se tornar eficiente

nessa atividade. Neurocientistas chamam isso de potenciação de longa

duração, que se refere ao fortalecimento das conexões entre os neurônios

do cérebro com base nos padrões recentes de atividade. A cada repetição, a

sinalização entre as células melhora, e as conexões neurais se fortalecem.

Descrito pela primeira vez pelo neuropsicólogo Donald Hebb, em 1949,

esse fenômeno é comumente conhecido como Lei de Hebb: “Neurônios que

disparam juntos, permanecem conectados.”

Repetir um hábito leva a mudanças físicas evidentes no cérebro. Nos

músicos, o cerebelo — essencial para movimentos físicos como dedilhar a

corda de um violão ou mover o arco de um violino — é maior do que em

não músicos. Já os matemáticos têm mais massa cinzenta no lóbulo parietal

inferior, que desempenha um papel fundamental na computação e no cálculo. Seu tamanho está diretamente correlacionado com a quantidade de

tempo gasto no campo; quanto mais velho e mais experiente o matemático,

maior o aumento da massa cinzenta.

Quando cientistas analisaram os cérebros dos motoristas de táxi de

Londres, descobriram que o hipocampo — uma região do cérebro envolvida

na memória espacial — era significativamente maior em taxistas do que em

não taxistas. Ainda mais fascinante, o hipocampo diminuía de tamanho

quando o motorista se aposentava. Como os músculos do corpo que

respondem ao treinamento regular com pesos, determinadas regiões do

cérebro se adaptam à medida que são usadas e atrofiam à medida que são

abandonadas.

É claro que a importância da repetição no estabelecimento de hábitos foi

reconhecida muito antes de os neurocientistas começarem seus estudos. Em

1860, o filósofo britânico George H. Lewes observou: “Ao aprender a falar

um novo idioma, tocar um instrumento ou realizar movimentos não

familiares, sentimos uma grande dificuldade, porque os canais pelos quais

cada sensação tem que passar ainda não se estabeleceram; mas assim que a

repetição frequente criar o caminho, essa dificuldade desaparece; as ações

se tornam tão automáticas que podem ser realizadas enquanto a mente está

envolvida em outra atividade.” Tanto o senso comum quanto a evidência

científica concordam: a repetição é uma forma de mudança.

Cada vez que repete uma ação, você está ativando um determinado

circuito neural associado a esse hábito. Isso significa que a simples

repetição é uma das etapas mais importantes da codificação de um novo

hábito. É por isso que os estudantes que fizeram toneladas de fotos

melhoraram suas habilidades, enquanto aqueles que simplesmente

teorizaram sobre fotos perfeitas não obtiveram êxito. Um grupo estava engajado na prática ativa; o outro, na aprendizagem passiva. Um, em ação,

o outro, em movimento.

Todos os hábitos seguem uma trajetória similar da prática esforçada até o

comportamento automático, um processo conhecido como automaticidade.

A automaticidade é a capacidade de realizar um comportamento sem pensar

em cada passo, o que ocorre quando a mente não consciente assume o

controle.

É mais ou menos assim:

 

A LINHA DO HÁBITO

 

FIGURA 11: No começo (ponto A), um hábito exige muito esforço e concentração para ser executado. Depois de algumas repetições (ponto B), fica mais fácil, mas ainda requer alguma atenção consciente. Com prática suficiente (ponto C), o hábito se torna mais automático do que consciente. Além desse limiar — a linha do hábito — o comportamento pode ser feito mais ou menos sem pensar. Um novo hábito foi formado.

 

A seguir, mostro uma representação do que os pesquisadores encontraram

ao rastrear o nível de automaticidade de um hábito real, como caminhar por

dez minutos todos os dias. A forma desses gráficos, que os cientistas

chamam de curvas de aprendizado, revela uma verdade importante sobre a

mudança de comportamento: os hábitos se formam com base na frequência,

não no tempo.

 

CAMINHANDO 10 MINUTOS POR DIA

FIGURA 12: Esse gráfico mostra alguém que construiu o hábito de caminhar dez minutos após o café da manhã todos os dias. Observe que, à medida que as repetições aumentam, o mesmo acontece com a automaticidade, até que o comportamento seja tão fácil e automático quanto possível.

 

Uma das perguntas mais comuns que ouço é: “Quanto tempo é preciso

para construir um novo hábito?” Mas o que as pessoas realmente deveriam

estar perguntando é: “Quantas vezes são necessárias para formar um novo

hábito?” Ou seja, quantas repetições são necessárias para tornar um hábito

automático?

Não há nada mágico sobre o passar do tempo no que diz respeito à

formação de hábitos. Não importa se faz 21, 30 ou 300 dias. O que importa

é a taxa em que executa o comportamento. Você poderia fazer algo 2 vezes

em 30 dias ou 200 vezes. É a frequência que faz a diferença. Seus hábitos

atuais foram internalizados ao longo de centenas, senão milhares, de

repetições. Novos hábitos exigem o mesmo nível de frequência. Você

precisa agrupar tentativas bem-sucedidas até que o comportamento esteja

firmemente incorporado em sua mente e você cruze a linha do hábito.

Na prática, não importa realmente quanto tempo leva para um hábito se

tornar automático. O que importa é que você tome as ações necessárias para

progredir. Se a ação é totalmente automática ou não é de menor

importância.

Para construir um hábito, você precisa praticá-lo. E a maneira mais eficaz

de fazer a prática acontecer é aderir à 3ª Lei da Mudança de

Comportamento: torne-o fácil. Os capítulos seguintes mostram como fazer

exatamente isso.

 

Resumo do Capítulo

 

A 3ª Lei da Mudança de Comportamento é torne-o fácil.

A forma mais eficaz de aprender é praticar, não planejar.

Concentre-se em agir, não em estar em movimento.

A formação do hábito é o processo pelo qual um comportamento se

torna progressivamente mais automático através da repetição.

O período de tempo em que você está realizando um hábito não é

tão importante quanto o número de vezes que o executou.

 

1 Uma história semelhante é contada no livro Art & Fear, de David Bayles e Ted Orland. A história foi adaptada aqui com permissão. Veja as notas finais para uma explicação completa.

 

OceanofPDF.com