Hábitos Atômicos

James Clear · Capítulo 15 de 26

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Hábitos Atômicos

Como Tornar os Bons Hábitos Inevitáveis e os Maus, Impossíveis

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Como Tornar os Bons Hábitos Inevitáveis e

 

os Maus, Impossíveis

 

N o VERÃO DE 1830, Victor Hugo enfrentava um prazo impossível. Doze meses antes, o autor francês prometera à editora um novo livro. Mas,

em vez de escrever, ele passara o ano buscando outros projetos, entretendo

convidados e adiando seu trabalho. Frustrada, a editora de Hugo respondeu

estabelecendo um prazo de menos de seis meses. O livro teria que ser

concluído em fevereiro de 1831.

Hugo elaborou um estranho plano para vencer sua procrastinação. Ele

recolheu todas as suas roupas e pediu a um assistente para trancá-las em um

grande baú. Ficou sem nada para vestir, exceto um grande xale. Sem roupas

adequadas para sair, ele permaneceu em seu escritório e escreveu

diligentemente durante o outono e o inverno de 1830. O Corcunda de Notre

Dame foi publicado duas semanas antes do dia 14 de janeiro de 1831.1

 

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Às vezes, o sucesso envolve menos facilitar os bons hábitos e mais

dificultar os maus. Essa é uma inversão da 3ª Lei da Mudança de

Comportamento: torne-o difícil. Se você se vê continuamente com

dificuldades em seguir seus planos, siga o exemplo de Victor Hugo e

dificulte seus maus hábitos criando o que os psicólogos chamam de

dispositivo de compromisso.

Um dispositivo de compromisso é uma escolha que você faz no presente

que controla suas ações no futuro. É uma forma de amarrar

comportamentos futuros, vinculando você aos bons hábitos e impedindo os

maus. Quando Victor Hugo trancou suas roupas para que pudesse se

concentrar em escrever, ele estava criando um dispositivo de compromisso.2

Existem várias maneiras de criar um dispositivo de compromisso. Você

pode reduzir o excesso de alimentos comprando alimentos em embalagens

individuais, em vez de em grandes quantidades. Pode pedir para ser

adicionado à lista de banidos em cassinos e sites de pôquer online para

evitar futuras apostas. Já ouvi falar de atletas que têm que “atingir o peso”

para uma competição deixarem suas carteiras em casa durante a semana

antes da pesagem, para não ficarem tentados a comprar fast-food.

Como outro exemplo, meu amigo e especialista em hábitos, Nir Eyal,

comprou um temporizador de tomada, um adaptador que conecta seu

roteador de internet e a tomada. Às 22h, todas as noites, o temporizador de

tomada corta a energia do roteador. Quando a internet se desliga, todo

mundo sabe que é hora de ir para a cama.

Os dispositivos de compromisso são úteis porque permitem desfrutar das

boas intenções antes de ser vítima da tentação. Sempre que estou tentando

cortar calorias, por exemplo, peço ao garçom para dividir minha refeição e

colocar metade em uma embalagem para viagem antes que a refeição seja servida. Se eu esperasse até que a refeição chegasse e dissesse a mim

mesmo: “Eu só comerei metade”, isso nunca funcionaria.

A chave é mudar a tarefa de tal forma que desviar do hábito exija mais

trabalho do que iniciá-lo. Se está se sentindo motivado para entrar em

forma, agende uma sessão de yoga e pague antecipadamente. Se está

animado com o negócio que deseja iniciar, envie um e-mail para um

empresário que respeita e agende uma consultoria. Quando chega a hora de

agir, a única maneira de fugir é cancelar a reunião, o que requer esforço e

pode custar dinheiro.

Dispositivos de compromisso aumentam as chances de você fazer a coisa

certa no futuro, dificultando os maus hábitos no presente. No entanto,

podemos fazer ainda melhor. Podemos tornar os bons hábitos inevitáveis e

os maus, impossíveis.

 

COMO AUTOMATIZAR UM HÁBITO E NUNCA PENSAR NELE

NOVAMENTE

 

John Henry Patterson nasceu em Dayton, Ohio, em 1844. Ele passou a

infância ajudando nos afazeres da fazenda da família e trabalhando em

turnos na serraria de seu pai. Depois de frequentar a faculdade em

Dartmouth, Patterson retornou a Ohio e abriu uma pequena loja de

suprimentos para os mineiros de carvão.

Parecia uma boa oportunidade. A loja enfrentava pouca concorrência e

desfrutava de um fluxo constante de clientes, mas ainda lutava para ter

lucro. Foi quando Patterson descobriu que seus empregados furtavam seu

dinheiro.

No século XIX, o furto por funcionários era um problema comum. Os

recibos eram mantidos em uma gaveta aberta e podiam ser facilmente

alterados ou descartados. Não havia câmeras de vídeo para rever o comportamento e nenhum software para rastrear as transações. A menos

que você estivesse disposto a supervisionar seus funcionários a cada minuto

do dia ou a gerenciar todas as transações sozinho, era difícil evitar o furto.

Enquanto Patterson refletia sobre sua situação, encontrou um anúncio de

uma nova invenção chamada de Caixa Incorruptível de Ritty. Projetada por

seu colega James Ritty, residente em Dayton, foi a primeira caixa

registradora. A máquina automaticamente bloqueia o dinheiro e os recibos

depois de cada transação. Patterson comprou duas por US$50 cada.

O furto por funcionários em sua loja acabou da noite para o dia. Nos seis

meses seguintes, os negócios de Patterson saíram do prejuízo para gerar um

lucro de US$5 mil — o equivalente a mais de US$100 mil nos dias de hoje.

Patterson ficou tão impressionado com a máquina que mudou de empresa.

Ele comprou os direitos da invenção de Ritty e abriu a National Cash

Register Company. Dez anos depois, a National Cash Register tinha mais de

mil funcionários e estava a caminho de se tornar um dos negócios mais

bem-sucedidos de sua época.

A melhor maneira de quebrar um mau hábito é torná-lo impraticável.

Aumente a resistência até que não tenha a opção de agir. A genialidade da

caixa registradora era automatizar o comportamento ético, tornando o furto

praticamente impossível. Em vez de tentar mudar os empregados,

automatizou o comportamento preferível.

Algumas ações, como a adoção de uma caixa registradora, funcionam

sempre. Esse tipo de solução exige um pouco de esforço inicial, mas criam

um valor crescente ao longo do tempo. Sou fascinado pela ideia de que uma

única escolha gere retornos repetidas vezes, e inquiri meus leitores sobre

suas soluções favoritas de ação única que levaram a melhores hábitos de

longo prazo. A tabela a seguir compartilha algumas das respostas mais

populares.

Eu aposto que, se as pessoas fizessem simplesmente metade das ações da

lista — mesmo que não pensassem mais em seus hábitos —, a maioria

estaria vivendo melhor dentro de um ano. Essas ações únicas são uma

maneira direta de empregar a 3ª Lei da Mudança de Comportamento. Elas

facilitam o bom sono, a alimentação saudável, a produtividade, a economia

e o bem-estar geral.

AÇÕES ÚNICAS QUE VINCULAM BONS HÁBITOS

Nutrição Felicidade

 

Compre um filtro para limpar sua água Tenha um cachorro.

potável.

 

Use pratos menores para reduzir a ingestão de Mude para uma vizinhança amigável e

calorias. sociável.

 

Sono Saúde Geral

 

Compre um bom colchão. Tome vacinas.

 

Instale cortinas blackout. Compre bons sapatos para evitar dores nas

costas.

 

Remova a televisão do quarto. Compre uma cadeira e mesa de trabalho

confortáveis.

 

Produtividade Finanças

 

Cancele assinaturas de e-mails. Inscreva-se em um plano de investimento

automático.

 

Desligue as notificações e silencie grupos de Configure o pagamento automático de contas.

conversa.

 

Coloque o celular no modo silencioso. Cancele a TV a cabo.

 

Use filtros de e-mail para limpar sua caixa de Peça redução de tarifas de seus prestadores de

entrada. serviços.

 

Delete apps de jogos e de mídia social de seu

celular.

 

Naturalmente, existem muitas maneiras de automatizar bons hábitos e se

livrar dos maus. Em geral, eles envolvem colocar a tecnologia para

trabalhar para você. A tecnologia pode transformar ações que antes eram

difíceis, irritantes e complicadas em comportamentos fáceis, indolores e

simples. É a maneira mais confiável e eficaz de garantir o comportamento

ideal.

Isso é particularmente útil para comportamentos raros se tornarem

habituais. As coisas que você tem que fazer mensal ou anualmente — como

reequilibrar seu portfólio de investimentos — nunca são repetidas com

frequência suficiente para se tornar um hábito, então elas se beneficiam

particularmente de que a tecnologia se “lembre” de fazê-las por você.

Outros exemplos incluem:

 

Medicina: Compras de medicamentos podem ser automaticamente

refeitas.

Finanças pessoais: Funcionários podem poupar para a

aposentadoria com uma dedução salarial automática.

Cozinha: Serviços de entrega de alimentos podem fazer suas

compras de supermercado.

Produtividade: A navegação na mídia social pode ser cortada com

um bloqueador de sites.

 

Quando automatiza a maior parte possível de sua vida, você pode

empregar seus esforços em tarefas que as máquinas ainda não podem executar. Cada hábito que delegamos à tecnologia libera tempo e energia

para passarmos ao próximo estágio de crescimento. Como escreveu o

matemático e filósofo Alfred North Whitehead: “A civilização avança

estendendo o número de operações que podemos realizar sem pensar.”

Naturalmente, o poder da tecnologia também pode funcionar contra nós.

Assistir à TV compulsivamente se torna um hábito porque você precisa

empregar mais esforço para parar de olhar para a tela do que continuar

fazendo isso. Em vez de pressionar um botão para avançar para o próximo

episódio, a Netflix ou o YouTube o reproduz automaticamente. Tudo o que

você precisa fazer é manter os olhos abertos.

A tecnologia cria um nível de conveniência que permite a você agir de

acordo com seus menores caprichos e desejos. Na mera sugestão de fome, é

possível ter comida entregue à sua porta. Ao menor sinal de tédio, você

pode se perder na vasta extensão das mídias sociais. Quando o esforço

necessário para agir de acordo com seus desejos se torna efetivamente zero,

é possível acabar cedendo a qualquer impulso que surja no momento. A

desvantagem da automação é que podemos nos ver pulando de tarefa fácil

para tarefa fácil sem ter tempo para um trabalho mais difícil, mas, no final

das contas, mais recompensador.

Muitas vezes me vejo atraído pelas mídias sociais durante qualquer

período de inatividade. Se me sinto entediado por apenas uma fração de

segundo, pego meu telefone. É fácil amortizar essas pequenas distrações

como “apenas fazer uma pausa”, mas com o tempo elas podem se acumular

em um problema sério. A constante atração de “apenas mais um minuto”

pode me impedir de fazer algo relevante. E não sou o único. Em média as

pessoas passam mais de duas horas por dia nas redes sociais. O que você

poderia fazer com 600 horas adicionais por ano?

Durante o ano em que escrevi este livro, experimentei uma nova estratégia

de gerenciamento de tempo. Toda segunda-feira, minha assistente redefinia

as senhas de todas as minhas contas de mídia social, me desconectando em

todos os dispositivos. Ao longo de toda a semana eu trabalhava sem

distrações. Na sexta-feira, ela me enviava as novas senhas. Eu tinha o fim

de semana inteiro para aproveitar o que as mídias sociais têm a oferecer até

segunda-feira de manhã, quando ela faria isso de novo. (Se você não tiver

uma assistente, junte-se a um amigo ou familiar e redefina as senhas um do

outro a cada semana.)

Uma das maiores surpresas foi a rapidez com que me adaptei. Na primeira

semana de isolamento das mídias sociais, percebi que não precisava checá-

las com tanta frequência com que estava acostumado, e certamente não

precisava acessá-las todos os dias. Simplesmente foi tão fácil que se tornou

o padrão. Uma vez que meu mau hábito se tornou impossível, descobri que,

na verdade, eu tinha a motivação para trabalhar em tarefas mais

significativas. Depois que removi a distração mental do meu ambiente,

ficou muito mais fácil prestar atenção no que realmente importa.

Ao trabalhar a seu favor, a automação pode tornar seus bons hábitos

inevitáveis e os maus, impossíveis. É uma forma mais eficaz de bloquear o

comportamento futuro do que confiar na força de vontade no momento. Ao

utilizar dispositivos de compromisso, decisões estratégicas no passado e

tecnologia, você cria um ambiente de inevitabilidade — um espaço onde

bons hábitos não são apenas um resultado esperado, mas um resultado

praticamente garantido.

 

Resumo do Capítulo

 

A inversão da 3ª Lei da Mudança de Comportamento é torne-o

difícil.

Um dispositivo de compromisso é uma escolha que você faz no

presente que amarra um comportamento melhor no futuro.

A melhor maneira de bloquear comportamentos futuros é

automatizar seus hábitos.

Opções únicas — como comprar um colchão melhor ou inscrever-

se em um plano de poupança automático — são ações únicas que

automatizam seus hábitos futuros e proporcionam retornos

crescentes ao longo do tempo.

Usar a tecnologia para automatizar seus hábitos é a maneira mais

confiável e eficaz de garantir o comportamento correto.

 

1 A ironia da semelhança dessa história ao meu processo de escrever este livro não passou despercebida. Embora minha editora fosse muito mais complacente, e meu armário permanecesse cheio, senti como se tivesse que me colocar em prisão domiciliar para terminar o manuscrito.

2 Isso também é chamado de “pacto de Ulisses” ou “contrato de Ulisses”. Nomeado em homenagem a Ulisses, o herói de A Odisseia, que disse a seus marinheiros para amarrá-lo ao mastro do navio, para que pudesse ouvir a canção encantadora das sereias, mas não conseguisse conduzir o navio na direção delas e bater nas rochas. Ulysses percebeu os benefícios de bloquear suas ações futuras enquanto sua mente está no lugar certo, em vez de esperar para ver onde seus desejos o levam no momento.

 

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COMO CRIAR UM BOM HÁBITO

A 1ª Torne-o Claro

Lei

1.1 Preencha a Avaliação dos Hábitos. Anote seus hábitos atuais para se conscientizar deles.

1.2 Use as intenções de implementação: “Eu irei [COMPORTAMENTO] às [HORA] em

[LOCAL].”

 

1.3 Use o empilhamento de hábitos: “Depois de [HÁBITO ATUAL], eu irei [NOVO

HÁBITO].”

 

1.4 Redesenhe seu ambiente. Torne os estímulos dos bons hábitos óbvios e visíveis.

A 2ª Torne-o Atraente

Lei

2.1 Use o empacotamento de tentações. Pareie uma ação que quer fazer com uma que

precisa ser feita.

 

2.2 Junte-se a uma cultura em que seu comportamento desejado seja o padrão.

2.3 Crie um ritual de motivação. Faça algo de que goste imediatamente antes de um hábito

difícil.

A 3ª Torne-o Fácil

Lei

3.1 Reduza a resistência. Diminua o número de passos entre você e seus bons hábitos.

3.2 Adéque o ambiente. Prepare seu ambiente para facilitar as ações futuras.

3.3 Domine o momento decisivo. Otimize as pequenas escolhas que produzem um impacto

descomunal.

 

3.4 Use a Regra dos Dois Minutos. Reduza a dimensão de seus hábitos até que possam ser

feitos em dois minutos ou menos.

 

3.5 Automatize seus hábitos. Invista em tecnologia e compras únicas que fixem

comportamentos futuros.

A 4ª Torne-o Satisfatório

Lei

 

COMO SE LIVRAR DE UM MAU HÁBITO

Inversão da 1ª

Torne-o Invisível

Lei

1.5 Reduza a exposição. Remova os estímulos de seus maus hábitos do ambiente.

Inversão da 2ª

Torne-o Desinteressante

Lei

Reestruture sua atitude mental. Ressalte os benefícios de evitar seus maus

2.4

hábitos.

Inversão da 3ª

Torne-o Difícil

Lei

Aumente a resistência. Aumente o número de passos entre você e seus maus

3.6

hábitos.

 

Use um dispositivo de compromisso. Restrinja suas escolhas futuras àquelas

3.7

que o beneficiam.

Inversão da 4ª

Torne-o Insatisfatório

Lei

 

Você pode imprimir uma versão completa deste roteiro de hábitos

em www.altabooks.com.br — procure pelo nome do livro ou ISBN.

 

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