Hábitos Atômicos

James Clear · Capítulo 24 de 26

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Hábitos Atômicos

Pequenas Lições das Quatro Leis

 

N ESTE LIVRO, apresentei um modelo para o comportamento humano com quatro estágios: estímulo, desejo, resposta e recompensa. Essa

estrutura não apenas nos ensina a criar hábitos, mas também revela algumas

percepções interessantes sobre o comportamento humano.

 

Fase do Problema Fase da Solução

 

1. Estímulo 2. Desejo 3. Resposta 4. Recompensa

 

Nesta seção, compilei algumas lições (e um pouco de bom senso) que são

confirmadas pelo modelo. O propósito destes exemplos é esclarecer o

quanto é útil e abrangente esse quadro ao descrever o comportamento

humano. Depois de entender o modelo, você verá exemplos dele em todos

os lugares.

A consciência vem antes do desejo. Um desejo é criado quando você

atribui significado a um estímulo. Seu cérebro constrói uma emoção ou

sentimento para descrever sua situação atual, e isso significa que um desejo

só pode ocorrer depois que você perceba uma oportunidade.

Felicidade é simplesmente a ausência de desejo. Quando você observa

um estímulo, mas não deseja mudar seu estado, fica satisfeito com a

situação atual. Felicidade não é a realização do prazer (que é alegria ou

satisfação), mas a falta de desejo. Ela chega quando você não tem vontade de se sentir diferente. É o estado que você alcança quando não quer mais

mudar seu estado.

No entanto, a felicidade é fugaz porque sempre surge um novo desejo.

Como diz Caed Budris: “Felicidade é o espaço entre um desejo sendo

realizado e um novo se formando.” Da mesma forma, o sofrimento é o

espaço entre o desejo de uma mudança de estado e sua satisfação.

É a ideia de prazer que perseguimos. Buscamos a imagem de prazer que

criamos em nossas mentes. No momento da ação, não sabemos como será

atingir essa imagem (ou mesmo se ela nos satisfará). O sentimento de

satisfação só vem depois. É isso que o neurologista austríaco Victor Frankl

quis dizer quando declarou que a felicidade não pode ser perseguida, deve

acontecer. O desejo deve ser perseguido. O prazer decorre da ação.

A paz ocorre quando você não transforma suas observações em

problemas. O primeiro passo em qualquer comportamento é a observação.

Você percebe um estímulo, uma informação, um evento. Se não deseja agir

de acordo com o que observa, então está em paz.

O desejo é querer consertar tudo. Observação sem desejo é a percepção de

que você não precisa consertar nada. Seus desejos não estão descontrolados.

Você não almeja uma mudança no estado. Sua mente não gera um problema

para você resolver. Você está simplesmente observando e existindo.

Com um por que grande o bastantevocê pode superar qualquer como.

De acordo com a famosa frase de Friedrich Nietzsche, o filósofo e poeta

alemão: “Aquele que tem um porquê para viver pode suportar quase todos

os comos.” Essa frase abriga uma importante verdade sobre o

comportamento humano. Se a sua motivação e desejo forem grandes o

bastante (isto é, o porquê estiver agindo), você vai agir mesmo quando for

muito difícil. Um grande desejo potencializa uma grande ação — mesmo

quando há muita resistência.

Ser curioso é melhor do que ser inteligente. Ser motivado e curioso

conta mais do que ser inteligente porque leva à ação. Ser inteligente nunca

fornecerá resultados por si só, porque não o faz agir. É o desejo, não a

inteligência, que instiga o comportamento. Como diz Naval Ravikant: “O

segredo para fazer qualquer coisa é primeiro cultivar um desejo por ela.”

Emoções impulsionam o comportamento. Toda decisão é emocional em

algum nível. Quaisquer que sejam suas razões lógicas, você só se sente

obrigado a agir pela emoção. De fato, pessoas com danos nos centros

emocionais do cérebro conseguem listar muitas razões para agir, mas ainda

assim não agirão, porque falta a emoção para impulsioná-las. É por isso que

o desejo vem antes da resposta. O sentimento vem primeiro, depois, o

comportamento.

Só podemos ser racionais e lógicos depois determos sido emocionais.

O modo de ação principal do cérebro é sentir; o secundário é pensar. Nossa

primeira resposta — a parte rápida e não consciente do cérebro — é

otimizada para sentir e prever. Nossa segunda resposta — a porção lenta e

consciente do cérebro — é a parte que “pensa”.

Os psicólogos se referem a isso como Sistema 1 (sentimentos e

julgamentos rápidos) versus Sistema 2 (análise racional). Primeiro vem o

sentimento (Sistema 1); a racionalidade só intervém depois (Sistema 2).

Isso funciona muito bem quando os dois estão alinhados, mas resulta em

um pensamento ilógico e emocional quando não estão.

Sua resposta tende a seguir suas emoções. Nossos pensamentos e ações

estão enraizados no que achamos atraente, não necessariamente no que é

lógico. Duas pessoas podem perceber o mesmo conjunto de fatos e

responder de maneira muito diferente, porque executam esses fatos por

meio de seu filtro emocional único. Essa é uma razão pela qual apelar à

emoção é tipicamente mais poderoso do que à razão. Se um tópico desperta o lado emocional de uma pessoa, ela dificilmente se interessará pelos dados.

É por isso que as emoções são uma ameaça para a tomada de decisões

sábias.

Dito de outra forma: a maioria das pessoas acredita que a resposta

razoável é aquela que as beneficia, aquela que satisfaz seus desejos.

Abordar uma situação a partir de uma posição emocional mais neutra

permite basear sua resposta nos dados e não na emoção.

O sofrimento impulsiona o progresso. A fonte de todo sofrimento é o

desejo de uma mudança de estado. Essa é também a fonte de todo

progresso. O desejo de mudar seu estado é o que lhe dá poderes para agir. É

desejar mais que impulsiona a humanidade a buscar melhorias, desenvolver

novas tecnologias e alcançar um nível mais alto. Com o desejo, estamos

insatisfeitos, mas motivados. Sem desejo, estamos satisfeitos, mas sem

ambição.

Suas ações revelam o quanto você quer alguma coisa. Se continuar

dizendo que algo é uma prioridade, mas nunca age sobre isso, então você

não o quer realmente. É hora de ter uma conversa honesta consigo mesmo.

Suas ações revelam suas verdadeiras motivações.

A recompensa está do outro lado do sacrifício. A resposta (sacrifício de

energia) sempre precede a recompensa (a coleção de recursos). O “barato

do corredor” só vem depois de uma corrida difícil. A recompensa só vem

depois que a energia é gasta.

O autocontrole é difícil porque não é satisfatório. Uma recompensa é

um resultado que satisfaz seu desejo. Ela torna o autocontrole ineficaz

porque inibir nossos desejos não costuma resolvê-los. Resistir à tentação

não satisfaz seu desejo; apenas o ignora. Isso cria espaço para o desejo

passar. O autocontrole exige que você abandone o desejo em vez de

satisfazê-lo.

Nossas expectativas determinam nossa satisfação. A diferença entre

nossos desejos e nossas recompensas determina nosso grau de satisfação

depois de agirmos. Se o desequilíbrio entre expectativas e resultados for

positivo (surpresa e deleite), então é mais provável repetirmos um

comportamento no futuro. Se o desequilíbrio for negativo (decepção e

frustração), é menos provável que o façamos.

Por exemplo, se espera receber $10 e ganha $100, você se sente ótimo. Se

espera receber $100 e ganha $10, fica desapontado. Sua expectativa muda

sua satisfação. Uma experiência mediana precedida por altas expectativas é

uma decepção. Uma experiência mediana precedida por baixas expectativas

é um prazer. Quando o gosto e o desejo são aproximadamente iguais, você

se sente satisfeito.

 

Satisfação = Gostar – Desejar

 

Essa é a sabedoria por trás da famosa frase de Seneca: “Ser pobre não é

ter muito pouco, é querer mais.” Se seus desejos forem superiores ao que

gosta, você sempre ficará insatisfeito. Estará perpetuamente atribuindo mais

peso ao problema do que à solução.

A felicidade é relativa. Quando comecei a compartilhar minha escrita

publicamente, demorei três meses para conseguir mil inscritos. Quando

atingi esse marco, contei para meus pais e minha namorada. Nós

celebramos. Eu me senti animado e motivado. Alguns anos depois, notei

que mil pessoas se inscreviam por dia. E mesmo assim nem pensei em

contar a ninguém. Parecia normal. Meus resultados eram 90 vezes mais

rápidos do que antes, mas sentia pouco prazer com isso. Somente alguns dias depois percebi como era absurdo não estar comemorando algo que teria

parecido um sonho apenas alguns anos antes.

A dor do fracasso se correlaciona com o nível da expectativa. Quando

o desejo é grande, dói não gostar do resultado. Não conseguir algo que quer

dói mais do que não conseguir algo que não esperava. É por isso que as

pessoas dizem: “Não quero criar muitas expectativas.”

Sentimentos vêm antes e depois do comportamento. Antes de agir, há

um sentimento que o motiva a agir — o desejo. Depois de agir, há um

sentimento que o ensina a repetir a ação no futuro — a recompensa.

 

Estímulo > Desejo (Sentimento) > Resposta > Recompensa (Sentimento)

 

Como nos sentimos influencia o modo como agimos, que por sua vez

influencia como nos sentimos.

O desejo desperta. O prazer sustenta. Desejar e gostar são dois

impulsionadores do comportamento. Se algo não for desejável, você não

tem razão para fazê-lo. Anseio e desejo são o que iniciam um

comportamento. Mas se algo não for agradável, você não tem motivo para

repeti-lo. Prazer e satisfação são o que sustentam um comportamento.

Sentir-se motivado faz com que você aja. Sentir-se bem-sucedido faz com

que você repita a ação.

A esperança declina com a experiência e é substituída pela aceitação.

Na primeira vez que surge uma oportunidade, há esperança do que pode se

realizar. Sua expectativa (desejos) é baseada exclusivamente na promessa.

Na segunda vez, sua expectativa é fundamentada na realidade. Você começa

a entender como o processo funciona e sua esperança é gradualmente substituída por uma previsão mais precisa e pela aceitação do resultado

provável.

Essa é uma das razões pelas quais continuamos a nos agarrar à última

novidade para perder peso ou ficar rico rápido. Novos planos oferecem

esperança porque não temos experiências para fundamentar nossas

expectativas. Novas estratégias parecem mais atraentes do que as antigas,

porque elas podem ter esperanças ilimitadas. Como Aristóteles observou:

“A juventude é facilmente enganada porque é rápida em ter esperança.”

Talvez isso possa ser adaptado para: “A juventude é facilmente enganada

porque só tem esperança.” Não há experiência para fundamentar a

expectativa. No começo, a esperança é tudo que você tem.

 

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