Hábitos Atômicos

James Clear · Capítulo 5 de 26

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Hábitos Atômicos

O Homem que Não Parecia Bem

A 1ª LEI

 

Torne-o Claro

 

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O Homem que Não Parecia Bem

 

O PSICÓLOGO GARY Klein certa vez me contou a história de uma mulher que, depois de trabalhar anos como paramédica, surpreendeu a todos

em uma reunião de família. Assim que chegou, olhou para o sogro e

disparou:

“Não gostei da sua aparência.”

O sogro, que estava se sentindo perfeitamente bem, respondeu em tom de

brincadeira: “Bem, eu também não gostei da sua.”

“Não”, insistiu ela. “Você precisa ir para o hospital agora.”

Poucas horas depois, o homem enfrentava uma cirurgia salvadora após um

exame revelar que ele tinha um bloqueio em uma artéria importante e corria

risco imediato de sofrer um ataque cardíaco. Sem a intuição de sua nora, ele

poderia ter morrido.

O que a paramédica viu? Como previu o iminente ataque cardíaco do

sogro?

Quando as principais artérias estão obstruídas, o corpo se concentra em

enviar sangue para órgãos essenciais em detrimento das áreas periféricas e

próximas da superfície da pele. O resultado é uma mudança no padrão de

distribuição de sangue na face. Depois de muitos anos trabalhando com

pessoas com insuficiência cardíaca, a mulher havia, sem saber,

desenvolvido a capacidade de reconhecer esse padrão de imediato. Ela não conseguia explicar o que percebera no rosto do sogro, mas sabia que algo

estava errado.

Há histórias semelhantes em outras áreas. Por exemplo, analistas militares

capazes de identificar qual bipe em uma tela de radar é um míssil inimigo e

qual é um avião da própria frota, embora ambos viagem na mesma

velocidade e altitude, e pareçam idênticos ao radar em quase tudo. Durante

a Guerra do Golfo, o tenente-comandante Michael Riley salvou um porta-

aviões de guerra ao ordenar que um míssil fosse abatido — apesar de o

míssil ser exatamente igual aos aviões do próprio navio no radar. Ele tomou

a decisão correta, mas nem os oficiais superiores conseguiram explicar

como ele fez isso.

Sabe-se que curadores de museus são capazes de distinguir entre uma

obra de arte autêntica e uma excelente falsificação, mesmo que não lhe

digam com exatidão quais detalhes os fizeram chegar a essa conclusão.

Radiologistas experientes conseguem analisar uma tomografia cerebral e

prever a área em que ocorrerá um derrame antes que quaisquer sinais

óbvios sejam visíveis para o olho destreinado. Já ouvi falar de cabeleireiros

que percebem se uma cliente está grávida com base apenas na textura de

seu cabelo.

O cérebro humano é uma máquina preditiva. Ele absorve continuamente o

entorno e analisa as informações que encontra. Sempre que você

experimenta algo repetidamente — como um paramédico observando

pacientes com ataque cardíaco ou um militar que visualiza mísseis — seu

cérebro começa a perceber o que é importante, classificando os detalhes,

identificando os estímulos relevantes e catalogando as informações para uso

futuro.

Com prática suficiente, você consegue captar os estímulos que predizem

certos resultados sem pensar conscientemente nisso. Automaticamente, seu cérebro codifica as lições aprendidas através da experiência. Nem sempre

conseguimos explicar o que estamos aprendendo, mas o aprendizado

acontece ao longo do caminho, e sua capacidade de perceber os estímulos

relevantes em uma determinada situação é a base de todos os seus hábitos.

Subestimamos o quanto nossos cérebros e corpos fazem sem pensar. Você

não diz a seu cabelo para crescer, coração para bater, pulmões para respirar

ou a seu estômago para digerir. E, no entanto, seu corpo lida com tudo isso

e muito mais no piloto automático. Você é muito mais do que seu eu

consciente.

Analisemos a fome. Como sabe quando está com fome? Você não precisa

ver um cookie na bancada da cozinha para perceber que é hora de comer. O

apetite e a fome são governados de forma não consciente. Seu corpo tem

uma variedade de ciclos de feedback que gradualmente o alertam quando é

hora de comer e que acompanham tudo o que acontece a seu redor e dentro

de você. Os desejos surgem graças às substâncias químicas que circulam

pelo corpo. De repente, você está com fome, mesmo sem saber o que

estimulou.

Esse é o insight mais surpreendente sobre nossos hábitos: você não

precisa estar ciente do estímulo para o hábito começar. Você pode perceber

uma oportunidade e agir sem se conscientizar dela. É isso que torna os

hábitos úteis.

É também o que os torna perigosos. À medida que os hábitos se formam,

suas ações emergem sob o comando de sua mente automática e não

consciente. Você repete velhos padrões antes de perceber o que está

acontecendo. A menos que alguém lhe mostre, você não consegue notar que

cobre a boca com a mão sempre que ri, pede desculpas antes de fazer uma

pergunta ou tem o hábito de terminar as frases de outras pessoas. E, quanto mais repetir esses padrões, é menos provável questionar o que está fazendo

e por que está fazendo.

Certa vez, ouvi falar de um balconista que foi instruído a cortar ao meio

cartões-presente vazios depois que os clientes gastassem todo o saldo. Um

dia, vários clientes pagaram com cartões-presente em sequência e, quando a

pessoa seguinte se aproximou, o funcionário passou o cartão de crédito do

cliente, pegou a tesoura e o cortou ao meio — totalmente no piloto

automático — e só depois viu o cliente atônito e percebeu o que acabara de

acontecer.

Outra mulher que conheci em minha pesquisa foi uma ex-professora de

pré-escola que havia mudado para um emprego corporativo. Mesmo

trabalhando com adultos, seus velhos hábitos não a abandonaram, e ela

perguntava aos colegas de trabalho se tinham lavado as mãos depois de ir

ao banheiro. Também soube da história de um homem que passou anos

trabalhando como salva-vidas e sempre que via uma criança correndo,

gritava: “Caminhe!”

Com o tempo, os estímulos que acionam nossos hábitos se tornam tão

comuns que ficam invisíveis: as guloseimas no balcão da cozinha, o

controle remoto ao lado do sofá, o telefone em seu bolso. Nossas respostas

a essas sugestões são tão arraigadas que parece que a vontade de agir vem

do nada. Por isso, devemos iniciar a mudança de comportamento com

consciência.

Antes de construirmos novos hábitos de forma efetiva, precisamos

entender os atuais. Isso é mais desafiador do que parece, porque, uma vez

que um hábito esteja enraizado, é, na maior parte, não consciente e

automático. Se um hábito permanece sem sentido, você não pode esperar

para melhorá-lo. Como o psicólogo Carl Jung disse: “Até que transforme o inconsciente em consciente, ele direcionará sua vida, e você o chamará de

destino.”

 

AVALIAÇÃO DE HÁBITOS

 

O sistema ferroviário japonês é considerado um dos melhores do mundo. Se

pegar um trem em Tóquio, notará que os condutores têm um hábito

peculiar.

Enquanto cada operador percorre o trem, executa um ritual de apontar

para diferentes objetos e dizer comandos. Quando o trem se aproxima de

um semáforo, o operador aponta para ele e diz: “O sinal está verde.”

Quando o trem entra e sai de cada estação, o operador aponta para o

velocímetro e fala a velocidade exata. Na hora da partida, o operador aponta

para o cronograma e declara a hora. Na plataforma, outros funcionários

realizam ações semelhantes. Antes de cada trem partir, os membros da

equipe apontam para a borda da plataforma e dizem: “Livre!” Cada detalhe

é identificado, apontado e declarado em voz alta.1

Esse processo, conhecido como Apontar e Falar, é um sistema de

segurança projetado para reduzir erros. Parece bobo, mas funciona

incrivelmente bem. Apontar e Falar reduz os erros em até 85%, e os

acidentes em 30%. O sistema de metrô MTA em Nova York adotou uma

versão modificada, que é “apenas apontar” e “no período de dois anos de

implementação, os incidentes de paradas incorretas de metrô caíram 57%”.

Apontar e Falar é tão eficaz porque leva um hábito não consciente para

um nível mais consciente. Como os operadores do trem devem usar os

olhos, mãos, boca e ouvidos, é mais provável que notem problemas antes

que algo dê errado. Minha esposa faz algo parecido. Sempre que estamos

nos preparando para sair para uma viagem, ela declara em voz alta os itens mais essenciais em sua lista. “Estou com minhas chaves. Estou com minha

carteira. Estou com meus óculos. Estou com meu marido.”

Quanto mais automático se torna um comportamento, é menos provável

que pensemos conscientemente nele. E, quando fizemos algo mil vezes

antes, começamos a ignorar as coisas. Assumimos que a próxima vez será

como a última. Estamos tão acostumados a fazer o que sempre fizemos que

não paramos para questionar se é a coisa certa a fazer. Muitos dos nossos

fracassos de desempenho são em grande parte atribuíveis à falta de

autoconsciência.

Um dos nossos maiores desafios na mudança de hábitos é manter a

consciência do que estamos realmente fazendo. Isso ajuda a explicar por

que as consequências dos maus hábitos podem nos surpreender. Precisamos

de um sistema “Apontar e Falar” em nossas vidas pessoais. Essa é a origem

da Avaliação de Hábitos, um exercício simples que você pode utilizar para

se tornar mais consciente do seu comportamento. Para criar uma avaliação

só sua, faça uma lista dos seus hábitos diários.

Aqui está uma amostra de como sua lista pode começar:

 

Acordar

Desligar o alarme

Checar seu celular

Ir ao banheiro

Pesar-se

Tomar banho

Escovar os dentes

Passar fio dental

Passar desodorante

Pendurar a toalha para secar

Vestir-se

Fazer uma xícara de chá

 

… e assim por diante.

Depois de concluir sua lista, observe cada comportamento e pergunte a si

mesmo: “Esse é um bom, mau ou hábito neutro?” Se for um bom hábito,

escreva “+” ao lado dele. Se for mau, escreva “-”. Se for neutro, “=”.

Por exemplo, a lista anterior poderia ficar assim:

 

Acordar

Desligar o alarme =

Checar seu celular -

Ir ao banheiro

Pesar-se +

Tomar um banho +

Escovar os dentes +

Passar fio dental +

Passar desodorante +

Pendurar a toalha para secar =

Vestir-se =

Fazer uma xícara de chá +

 

As pontuações que atribui a um determinado hábito dependem de sua

situação e objetivos. Para alguém tentando perder peso, comer um pãozinho

com manteiga de amendoim toda manhã pode ser um mau hábito. Para alguém que está tentando ganhar peso e criar músculos, o mesmo

comportamento pode ser um bom hábito. Tudo depende de seus objetivos.2

Avaliar seus hábitos é um pouco complexo por outro motivo também. Os

rótulos “bom hábito” e “mau hábito” são ligeiramente imprecisos. Não há

bons ou maus hábitos. Existem apenas hábitos eficazes. Ou seja, eficaz na

resolução de problemas. Todos os hábitos lhe servem de alguma forma —

até mesmo os maus —, e é por isso que você os repete. Para esse exercício,

classifique seus hábitos de acordo com a forma como serão benéficos em

longo prazo. De modo geral, bons hábitos terão resultados positivos

líquidos; os maus, negativos. Fumar um cigarro pode reduzir o estresse

momentâneo (essa é sua função), mas não é um comportamento saudável

em longo prazo.

Se ainda tiver problemas para avaliar certo hábito, aqui está uma pergunta

que gosto de usar: “Esse comportamento ajuda a me tornar o tipo de pessoa

que desejo ser? Esse hábito é um voto a favor ou contra minha identidade

desejada?” Os hábitos que reforçam sua identidade desejada geralmente são

bons; os que entram em conflito com ela, ruins.

À medida que você cria sua avaliação de hábitos, não há necessidade de

alterar nada no início. O objetivo é simplesmente perceber o que realmente

está acontecendo. Observe seus pensamentos e ações sem julgamento ou

críticas internas. Não se culpe por suas falhas. Não se elogie por seus

sucessos.

Se você come uma barra de chocolate todas as manhãs, reconheça isso,

quase como se estivesse observando outra pessoa. Ah, que interessante que

ele faça algo assim. Se come compulsivamente, simplesmente observe que

está ingerindo mais calorias do que deveria. Se perde muito tempo online,

perceba que está passando sua vida de uma forma que não deseja.

O primeiro passo para mudar os maus hábitos é estar atento a eles. Se

você sente que precisa de ajuda extra, experimente o sistema Apontar e

Falar em sua vida. Diga em voz alta a ação que está pensando em tomar e

qual será o resultado. Se quiser reduzir o consumo de junk food, mas

percebe que está prestes a pegar outro biscoito, diga em voz alta: “Estou

prestes a comer este biscoito, mas não preciso dele. Comê-lo vai me fazer

ganhar peso e prejudicar minha saúde.”

Ouvir seus maus hábitos falados em voz alta faz com que as

consequências pareçam mais reais. Isso aumenta o peso da ação, em vez de

apenas se deixar levar pela antiga rotina. Essa abordagem é útil mesmo

quando você está simplesmente tentando se lembrar de uma tarefa na sua

lista de afazeres. Basta dizer em voz alta: “Amanhã preciso ir ao correio

depois do almoço”, isso aumenta as chances de que realmente o faça. Você

está começando a reconhecer a necessidade de ação — e isso pode fazer

toda a diferença.

O processo de mudança de comportamento sempre começa com a

consciência. O foco de estratégias como Apontar e Falar e a Avaliação de

Hábitos é fazer com que você reconheça seus hábitos e os estímulos que os

acionam, o que possibilita responder de uma maneira benéfica.

 

Resumo do Capítulo

 

Com prática suficiente, seu cérebro vai captar os estímulos que

predizem certos resultados sem pensar conscientemente nisso.

Uma vez que nossos hábitos se tornam automáticos, deixamos de

prestar atenção ao que estamos fazendo.

O processo de mudança de comportamento sempre começa com a

consciência. Você precisa estar ciente de seus hábitos antes de

poder mudá-los.

Apontar e Falar leva um hábito não consciente para um nível mais

consciente através da verbalização das ações.

A Avaliação de Hábitos é um exercício simples que você pode usar

para se tornar mais consciente do seu comportamento.

 

1 Quando visitei o Japão, vi essa estratégia salvar a vida de uma mulher. Seu filho entrou no Shinkansen, um dos famosos trens-bala que viajam a mais de 300km/h, no momento em que as portas se fechavam. Ela ficou na plataforma e enfiou o braço pela porta para agarrá-lo. Com o braço preso na porta, o trem estava prestes a partir, mas, segundos antes da partida, um funcionário fez um teste de segurança Apontar e Falar. Em menos de 5 segundos, ele notou a mulher e conseguiu impedir que o trem partisse. A porta se abriu, a mulher — então em lágrimas — correu para o filho e, 1 minuto depois, o trem partiu em segurança.

2 Você pode baixar um modelo de Avaliação de Hábitos para criar a própria avaliação em www.altabooks.com.br — procure pelo nome do livro ou ISBN.

 

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