Hábitos Atômicos
A Motivação É Superestimada; o Ambiente É Mais Relevante
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A Motivação É Superestimada; o Ambiente
É Mais Relevante
A NNE THORNDIKE, médica de atenção primária no Massachusetts General Hospital, em Boston, teve uma ideia maluca. Ela acreditava
que poderia melhorar os hábitos alimentares de milhares de funcionários e
visitantes do hospital sem alterar em nada sua força de vontade ou
motivação. Na verdade, ela não planejava sequer falar com eles.
Thorndike e seus colegas projetaram um estudo de seis meses para alterar
a “arquitetura de escolha” na lanchonete do hospital. Eles começaram
mudando a arrumação das bebidas no local. Originalmente, os
refrigeradores localizados ao lado das caixas registradoras no refeitório
eram abastecidos apenas com refrigerantes. Os pesquisadores adicionaram
água em todos os refrigeradores. Além disso, colocaram cestas com
garrafas de água ao lado das estações de alimentos em toda a sala. Os
refrigerantes ainda estavam disponíveis nas geladeiras principais, mas a
água estava agora disponível em todos os locais com bebidas.
Nos três meses seguintes, o número de vendas de refrigerantes no hospital
caiu 11,4%, enquanto as vendas de água aumentaram 25,8%. Eles fizeram
ajustes semelhantes — e viram resultados semelhantes — com a comida no
refeitório. Ninguém disse uma palavra para os clientes da lanchonete.
FIGURA 8: Aqui está uma representação de como era a lanchonete antes que as mudanças no layout interno fossem feitas (à esquerda) e depois (à direita). As caixas
sombreadas indicam áreas em que a água engarrafada estava disponível em cada situação. Como a quantidade de água no ambiente aumentou, o comportamento mudou naturalmente e sem motivação adicional.
As pessoas geralmente escolhem produtos não pelo que são, mas por
causa de onde estão. Se eu entrasse na cozinha e visse um prato de biscoitos
no balcão, pegaria meia dúzia e começaria a comer, mesmo sem ter pensado
nisso antes e sem necessariamente estar com fome. Se a mesa comunitária
do escritório estiver sempre cheia de donuts e biscoitos, será difícil não
beliscar uma vez ou outra. Seus hábitos mudam dependendo do ambiente
em que está e dos sinais à sua frente.
O ambiente é a mão invisível que molda o comportamento humano.
Apesar de nossas personalidades únicas, certos comportamentos tendem a
surgir e se repetir sob certas condições ambientais. Na igreja, as pessoas
tendem a falar em sussurros. Em uma rua escura, as pessoas andam atentas
e cautelosas. Sendo assim, a forma mais comum de mudança não é interna,
mas externa: somos transformados pelo mundo ao nosso redor. Todo hábito
depende do contexto.
Em 1936, o psicólogo Kurt Lewin escreveu uma equação simples, que faz
uma afirmação poderosa: o comportamento (B) é uma função da pessoa (P)
e seu ambiente (E), ou B = f (P,E).
Não demorou muito para que a Equação de Lewin fosse testada nos
negócios. Em 1952, o economista Hawkins Stern descreveu um fenômeno
que chamou de Sugestão de Compra por Impulso, que “é acionada quando
um comprador vê um produto pela primeira vez e vislumbra uma
necessidade do produto”. Em outras palavras, os clientes ocasionalmente
compram um item não porque querem, mas por causa de como é
apresentado a eles.
Por exemplo, itens no nível dos olhos tendem a ser comprados mais do
que os que estão perto do chão. Por esse motivo, você encontrará itens de
marcas caras em locais de fácil acesso nas prateleiras das lojas, pois geram
mais lucro, enquanto as alternativas mais baratas são escondidas em locais
mais difíceis de alcançar. O mesmo vale para as extremidades, as unidades
no final dos corredores. Essas prateleiras são máquinas de ganhar dinheiro
para os varejistas, porque são locais óbvios expostos a um alto tráfego de
pessoas. Por exemplo, 45% das vendas de Coca-Cola vêm especificamente
de prateleiras nas extremidades de corredores.
Quanto mais evidente a exposição de um produto ou serviço, maior é a
probabilidade de você experimentá-lo. As pessoas bebem Bud Light porque
ela está em todos os bares e visitam a Starbucks porque há uma loja em
cada esquina. Nós gostamos de pensar que estamos no controle. Se
escolhermos a água em vez de refrigerante, presumimos que foi uma opção
consciente. A verdade, no entanto, é que muitas das atitudes que tomamos a
cada dia não são moldadas por propósito e escolha, mas pela opção mais
óbvia.
Todo ser vivo tem os próprios métodos para perceber e entender o mundo.
Águias têm uma impressionante visão à longa distância. Cobras sentem
cheiros “degustando o ar” com suas línguas altamente sensíveis. Os
tubarões são capazes de detectar pequenas quantidades de eletricidade e
vibrações na água causadas por peixes nas proximidades. Até mesmo as
bactérias têm quimiorreceptores — minúsculas células sensoriais que lhes
permitem detectar substâncias químicas tóxicas em seu ambiente.
Nos seres humanos, a percepção é dirigida pelo sistema nervoso sensorial.
Percebemos o mundo através de visão, audição, olfato, tato e paladar. Mas
também temos outras maneiras de sentir estímulos. Alguns são conscientes,
mas muitos são não conscientes. Por exemplo, você consegue “perceber”
quando a temperatura cai antes de uma tempestade, quando a dor de
estômago aumenta ou quando perde o equilíbrio enquanto caminha em solo
rochoso. Os receptores de seu corpo captam uma ampla gama de estímulos
internos, como a quantidade de sal no sangue ou a necessidade de beber
algo quando você está com sede.
A mais poderosa de todas as habilidades sensoriais humanas, no entanto, é
a visão. O corpo humano tem cerca de 11 milhões de receptores sensoriais.
Aproximadamente 10 milhões deles são dedicados à visão. Alguns
especialistas estimam que metade dos recursos do cérebro são usados na
visão. Dado que somos mais dependentes da visão do que de qualquer outro
sentido, não é de surpreender que os estímulos visuais sejam o maior
catalisador de nosso comportamento. Por essa razão, uma pequena mudança
no que você vê leva a uma grande mudança no que faz. Como resultado,
você pode imaginar como é importante viver e trabalhar em ambientes
cheios de estímulos produtivos e livre dos improdutivos.
Felizmente, há boas notícias a esse respeito. Você não precisa ser vítima
do ambiente. Também pode ser o arquiteto.
COMO PROJETAR SEU AMBIENTE PARA O SUCESSO
Durante a crise energética e o embargo de petróleo nos anos 1970, os
pesquisadores holandeses começaram a prestar muita atenção ao uso de
energia do país. Em um subúrbio perto de Amsterdã, eles descobriram que
alguns proprietários de casas consumiam 30% menos energia do que seus
vizinhos — apesar de as casas serem de tamanho similar e do preço da
eletricidade ser o mesmo.
Acontece que as casas nesse bairro eram quase idênticas, exceto por um
detalhe: a localização do medidor de luz. Em algumas casas, ficava no
porão. Em outras, no andar superior, no corredor principal. Como você pode
imaginar, as casas com medidores localizados no corredor principal
consumiam menos eletricidade. Quando o consumo de energia era óbvio e
fácil de rastrear, as pessoas mudavam seu comportamento.
Todo hábito é iniciado por um estímulo, e é mais provável que
percebamos aqueles que se destacam. Infelizmente, os ambientes em que
vivemos e trabalhamos muitas vezes favorecem não praticar certas ações
porque não há qualquer estímulo óbvio para acionar o comportamento. É
fácil não praticar violão quando ele está escondido no armário. É fácil não
ler um livro quando a estante está em um canto do quarto de hóspedes. É
fácil não tomar suas vitaminas quando elas estão fora de vista na despensa.
Quando os estímulos que desencadeiam um hábito são sutis ou ocultos, são
fáceis de ignorar.
Por comparação, criar estímulos visuais óbvios chama sua atenção para
um hábito desejado. No início dos anos 1990, a equipe de limpeza do
aeroporto de Schiphol, em Amsterdã, instalou um pequeno adesivo que
parecia uma mosca no centro de cada mictório. Aparentemente, quando os
homens se aproximavam dos mictórios, eles apontavam para o que
pensavam ser um inseto. Os adesivos melhoraram sua pontaria e reduziram significativamente o “escape” ao redor dos mictórios. Análises posteriores
determinaram que os adesivos reduziram os custos de limpeza do banheiro
em 8% ao ano.
Experimentei o poder dos estímulos óbvios em minha própria vida. Eu
costumava comprar maçãs, colocá-las na gaveta de vegetais na parte
inferior da geladeira e esquecê-las. No momento em que me lembrava, elas
já haviam estragado. Eu não as via, então não as comia.
Finalmente, aceitei meu próprio conselho e redesenhei meu ambiente.
Comprei uma tigela grande e coloquei no meio da bancada da cozinha. Da
próxima vez que comprei maçãs, foi lá que as coloquei — bem no meio da
cozinha, onde eu podia vê-las. Quase como mágica, comecei a comer
algumas maçãs todos os dias simplesmente porque estavam à vista e não
escondidas.
Eis algumas maneiras de redesenhar seu ambiente e tornar os estímulos
para seus hábitos preferidos mais óbvios:
Se quiser se lembrar de tomar sua medicação toda noite, coloque o
frasco de comprimidos bem ao lado da pia do banheiro.
Se quiser praticar violão com mais frequência, coloque-o em um
suporte no meio da sala de estar.
Se quiser se lembrar de enviar mais cartões de agradecimento,
mantenha uma pilha de papel de carta na sua mesa.
Se quiser beber mais água, encha algumas garrafas de água todas as
manhãs e as espalhe pelas áreas mais frequentadas da casa.
Se quiser transformar o hábito em uma grande parte de sua vida, torne o
estímulo grande parte de seu ambiente. Os comportamentos mais
persistentes geralmente têm vários estímulos. Pense em quantas maneiras diferentes um fumante pode ser levado a pegar um cigarro: dirigindo o
carro, vendo um amigo fumar, sentindo-se estressado no trabalho e assim
por diante.
A mesma estratégia pode ser empregada para criar bons hábitos. Ao
espalhar estímulos a seu redor, você aumenta as chances de se lembrar de
seu hábito ao longo do dia. Certifique-se de que a melhor escolha seja
sempre a mais óbvia. Tomar uma decisão melhor é fácil e natural quando os
gatilhos dos bons hábitos estão bem à sua frente.
A reconfiguração do ambiente é poderosa não apenas porque influencia o
modo como nos envolvemos com o mundo, mas também porque raramente
é uma criação nossa. A maioria das pessoas vive em um mundo que os
outros criaram para elas. Mas você pode modificar os espaços em que vive
e trabalha para aumentar sua exposição a estímulos positivos e reduzir os
negativos. O planejamento do ambiente permite retomar o controle e se
tornar o arquiteto da sua vida. Seja o criador do seu mundo e não apenas
seu consumidor.
O CONTEXTO É O ESTÍMULO
Os estímulos, ou gatilhos, que desencadeiam um hábito podem começar de
maneira muito específica, mas, com o passar do tempo, seus hábitos se
associam não apenas a um único gatilho, mas a todo o contexto que cerca o
comportamento.
Por exemplo, muitas pessoas bebem mais em situações sociais do que
jamais beberiam sozinhas. O gatilho raramente é um estímulo único, mas
sim toda a situação: ver seus amigos pedindo bebidas, ouvir a música no
bar, ver as cervejas sendo servidas.
Mentalmente atribuímos nossos hábitos aos locais em que ocorrem: a
casa, o escritório, a academia. Cada local desenvolve uma conexão com certos hábitos e rotinas. Você estabelece um relacionamento particular com
os objetos em sua mesa, os itens na bancada de sua cozinha, as coisas em
seu quarto.
Nosso comportamento não é definido pelos objetos no ambiente, mas pelo
nosso relacionamento com eles. Na verdade, essa é uma maneira útil de
pensar sobre a influência do ambiente em seu comportamento. Pare de
pensar no ambiente como um conjunto de objetos. Comece a pensar nele
com base nos relacionamentos. Pense em como interage com os espaços a
seu redor. Para uma pessoa, o sofá é o lugar onde ela lê por uma hora toda
noite. Para outra, o mesmo sofá é o local em que assiste à televisão e toma
sorvete depois do trabalho. Pessoas diferentes podem ter diferentes
memórias — e, portanto, hábitos diferentes — associadas ao mesmo lugar.
A boa notícia? Você pode se treinar para associar um hábito específico a
um determinado contexto.
Em um estudo, cientistas instruíram insones a irem para a cama apenas
quando estivessem cansados. Se não conseguissem adormecer, deveriam se
sentar em um cômodo diferente até que sentissem sono. Com o tempo, eles
começaram a associar o contexto de sua cama com a ação de dormir, e ficou
mais fácil adormecer rapidamente quando iam para a cama. Seus cérebros
aprenderam que dormir — não mexer em seus telefones, assistir à televisão,
olhar para o relógio — era a única ação que acontecia naquele ambiente.
O poder do contexto também revela uma estratégia importante: é mais
fácil mudar os hábitos em um novo ambiente. Ajuda a fugir de estímulos e
gatilhos sutis que o levam a seus hábitos atuais. Vá para um lugar novo —
um café diferente, um banco no parque, um canto do seu quarto que
raramente usa — e crie uma nova rotina.
É mais fácil associar um novo hábito a um novo contexto do que construir
um novo hábito na presença de estímulos concorrentes. Pode ser difícil ir para a cama cedo se costuma assistir à televisão no seu quarto todas as
noites. Pode ser difícil estudar na sala de estar sem se distrair se é lá que
sempre joga videogame. Mas quando você sai do seu ambiente normal,
deixa suas tendências comportamentais para trás. Não estará mais lutando
contra antigos estímulos ambientais, o que permite que novos hábitos se
formem sem interrupção.
Quer pensar de forma mais criativa? Vá para uma sala maior, um pátio na
cobertura ou um prédio com arquitetura ampla. Tire uma folga do espaço
onde trabalha diariamente, que também está ligado a seus padrões de
pensamento atuais.
Está tentando se alimentar de forma mais saudável? É provável que você
faça compras no piloto automático no supermercado de costume.
Experimente um novo mercado. Você pode achar mais fácil evitar alimentos
não saudáveis quando seu cérebro não sabe automaticamente onde eles
estão na loja.
Quando não conseguir ir para um ambiente totalmente novo, redefina ou
reorganize o atual. Crie um espaço separado para trabalho, estudo,
exercício, entretenimento e cocção. Um mantra que considero muito útil é:
“Um espaço, um uso.”
Quando comecei minha carreira como empreendedor, costumava trabalhar
no meu sofá ou na mesa da cozinha. À noite, eu tinha muita dificuldade em
parar de trabalhar. Não havia divisão clara entre o final do “expediente” e o
início do tempo pessoal. A mesa da cozinha era meu escritório ou o local
em que fazia minhas refeições? O sofá era para relaxar ou para enviar e-
mails? Tudo acontecia no mesmo lugar.
Alguns anos depois, finalmente consegui me mudar para uma casa com
uma sala separada para o meu escritório. De repente, o trabalho era algo que
acontecia “aqui”, e a vida pessoal era algo que acontecia “lá fora”. Foi mais fácil desligar o lado profissional do meu cérebro quando havia uma linha
divisória clara entre a vida profissional e a doméstica. Cada ambiente tinha
um uso principal. A cozinha era para cozinhar. O escritório, para trabalhar.
Sempre que possível, evite misturar o contexto de um hábito com outro.
Quando começa a misturar contextos, você começa a misturar hábitos — e
os mais fáceis geralmente vencem. Essa é uma das razões pelas quais a
versatilidade da tecnologia moderna é tanto um ponto positivo quanto
negativo. Você pode usar seu telefone para todos os tipos de tarefas, o que o
torna um dispositivo poderoso. Mas quando é possível usar seu telefone
para fazer praticamente tudo, fica difícil associá-lo a uma só tarefa. Você
quer ser produtivo, mas também está condicionado a navegar nas redes
sociais, verificar e-mails e jogar sempre que pega o telefone. É uma
confusão de estímulos.
Você pode estar pensando: “Você não entende. Moro em São Paulo, meu
apartamento é do tamanho de um smartphone. Preciso que cada cômodo
desempenhe vários papéis.” Bastante justo. Se seu espaço é limitado,
divida-o em zonas de atividade: uma cadeira para ler, uma mesa para
escrever, uma mesa para comer. Faça o mesmo com seus espaços digitais.
Conheço um escritor que usa seu computador apenas para escrever, seu
tablet apenas para leitura e seu telefone apenas para usar mídias sociais e
enviar mensagens de texto. Todo hábito deveria ter um lar.
Se conseguir manter essa estratégia, cada contexto ficará associado a um
hábito e a um modo de pensamento específicos. Os hábitos prosperam sob
circunstâncias previsíveis como essas. O foco surge automaticamente
quando você se senta em sua mesa de trabalho. O relaxamento é mais fácil
se estiver em um espaço projetado para essa finalidade. O sono vem
rapidamente quando é a única coisa que acontece no seu quarto. Se quer ter comportamentos estáveis e previsíveis, você precisa de um ambiente estável
e previsível.
Um ambiente estável, em que tudo tem um lugar e um propósito, é um
ambiente em que os hábitos se formam facilmente.
Resumo do Capítulo
Pequenas mudanças no contexto levam a grandes mudanças no
comportamento ao longo do tempo.
Todo hábito é iniciado por um estímulo ou gatilho. É mais provável
que notemos os estímulos que se destacam.
Torne os estímulos de bons hábitos óbvios em seu ambiente.
Gradualmente, seus hábitos acabam associados não a um único
gatilho, mas a todo o contexto que envolve o comportamento. O
contexto se torna o estímulo.
É mais fácil construir novos hábitos em um novo ambiente, porque
você não precisa lutar contra os velhos estímulos.
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