Hábitos Atômicos
O Segredo do Autocontrole
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E M 1971, QUANDO A Guerra do Vietnã se aproximava de seu 16º ano, os congressistas Robert Steele, de Connecticut, e Morgan Murphy, de
Illinois, fizeram uma descoberta que surpreendeu o público norte-
americano. Ao visitar as tropas, descobriram que mais de 15% dos soldados
dos EUA em serviço eram viciados em heroína. Pesquisas complementares
revelaram que 35% dos militares no Vietnã haviam experimentado heroína
e 20% estavam viciados — o problema era ainda pior do que se pensava
inicialmente.
A descoberta levou a um alvoroço em Washington, que, dentre outras
coisas, levou à criação do Escritório de Ação Especial de Prevenção ao
Abuso de Drogas, sob o comando do Presidente Nixon, para promover a
prevenção e a reabilitação e acompanhar os membros dependentes em sua
volta para casa.
Lee Robins era um dos pesquisadores responsáveis. Em uma descoberta
que lançou por terra todas as crenças até então aceitas sobre o vício, Robins
revelou que quando soldados que haviam sido usuários de heroína voltavam
para casa, apenas 5% retomava o vício dentro de 1 ano, e apenas 12%
recaía dentro de 3 anos. Em outras palavras, aproximadamente 9 entre 10
soldados que usavam heroína no Vietnã eliminaram o vício quase da noite
para o dia.
Essa descoberta contradizia a visão predominante na época, que
considerava a dependência de heroína uma condição permanente e
irreversível. Em vez disso, Robins revelou que os vícios poderiam
desaparecer espontaneamente se houvesse uma mudança radical no
ambiente. No Vietnã, os soldados passavam o dia todo cercados de
estímulos que acionavam o uso da heroína: a droga era de acesso fácil, eles
viviam mergulhados no estresse constante da guerra, criavam vínculos de
amizade com outros soldados que também eram usuários de heroína e
estavam a milhares de quilômetros de casa. No entanto, uma vez que o
soldado retornava aos Estados Unidos, ele se via em um ambiente livre
desses gatilhos. Quando o contexto mudava, o mesmo acontecia com o
hábito.
Compare essa situação com a de um usuário típico de drogas. Alguém se
torna viciado em casa ou com amigos, vai a uma clínica para ficar limpo —
um ambiente desprovido de todos os estímulos ambientais que induzem seu
hábito — e retorna ao antigo bairro com todos os gatilhos anteriores que o
levaram a se viciar. Não é de admirar que normalmente os números sejam
exatamente o oposto daqueles do estudo no Vietnã. Em geral, 90% dos
usuários de heroína sofrem recaídas quando saem da clínica de reabilitação
e voltam para casa.
Os estudos sobre o Vietnã contrariaram muitas de nossas crenças culturais
sobre maus hábitos porque desafiaram a associação convencional de
comportamento doentio com fraqueza moral. Se você tem excesso de peso,
é fumante ou viciado, deve ter ouvido durante toda a sua vida que isso é
falta de autocontrole — talvez até mesmo que você é uma pessoa ruim. A
ideia de que um pouco de disciplina resolveria todos os nossos problemas
está profundamente arraigada em nossa cultura.
No entanto, pesquisas recentes demostram algo diferente. Quando os
cientistas analisam pessoas que parecem ter um tremendo autocontrole,
verifica-se que os indivíduos não são tão diferentes daqueles que têm
dificuldade em se controlar. O que acontece na verdade é que pessoas
“disciplinadas” são melhores em estruturar suas vidas de uma forma que
não exija força de vontade ou autocontrole hercúleos. Em outras palavras,
eles passam menos tempo em situações tentadoras.
As pessoas com mais autocontrole são tipicamente aquelas que precisam
exercê-lo minimamente. É mais fácil praticar o autocontrole quando você
não tem que usá-lo com muita frequência. Então, sim, perseverança, garra e
força de vontade são essenciais para o sucesso, mas a maneira de melhorar
essas qualidades não é desejar que você seja uma pessoa mais disciplinada,
mas criar um ambiente mais disciplinado.
Essa ideia que desafia o senso comum faz ainda mais sentido quando você
entende o que acontece quando um hábito é formado no cérebro. Um hábito
que foi codificado na mente está pronto para ser usado sempre que a
situação pertinente surge. Quando Patty Olwell, uma terapeuta de Austin,
Texas, começou a fumar, costumava fumar enquanto andava a cavalo com
um amigo. Em determinado momento, ela parou de fumar e conseguiu se
manter longe do vício por anos. Ela também parou de andar a cavalo.
Décadas mais tarde, ao retomar os passeios a cavalo, viu-se novamente
desejando um cigarro pela primeira vez em anos. Os estímulos ainda
estavam internalizados; ela só não se expunha a eles há muito tempo.
Uma vez que um hábito tenha sido codificado, o desejo de agir surge
sempre que os estímulos ambientais reaparecem. Essa é uma das razões
pelas quais as técnicas de mudança de comportamento podem sair pela
culatra. Envergonhar as pessoas obesas com apresentações sobre perda de
peso pode fazer com que se sintam estressadas e, como resultado, muitas pessoas retornam à sua estratégia preferida de enfrentamento: comer
demais. Mostrar fotos de pulmões enegrecidos para fumantes leva a níveis
mais altos de ansiedade, o que leva muitas pessoas a procurar um cigarro.
Se você não prestar atenção nos estímulos, poderá provocar o exato
comportamento que deseja interromper.
Os maus hábitos são autocatalíticos: o processo se retroalimenta. Eles
provocam os sentimentos que tentam entorpecer. Você se sente mal, então
come junk food. Porque comeu junk food, você se sente mal. Assistir à
televisão faz você se sentir preguiçoso, então você assiste a mais televisão,
porque não tem energia para fazer qualquer outra coisa. Preocupar-se com
sua saúde faz com que fique ansioso, o que faz com que fume para aliviar a
ansiedade, o que piora ainda mais sua saúde e logo se sentirá mais ansioso.
É uma espiral descendente, um trem desgovernado de maus hábitos.
Pesquisadores referem-se a esse fenômeno como “desejo induzido por
estímulo”: um gatilho externo cria um desejo compulsivo de repetir um mau
hábito. Uma vez que você percebe uma coisa, começa a desejá-la. Esse
processo está acontecendo o tempo todo — muitas vezes sem nos darmos
conta. Cientistas descobriram que mostrar aos viciados uma foto de cocaína
por apenas 33 milissegundos estimula o caminho da recompensa no cérebro
e provoca o desejo. Essa velocidade é rápida demais para ser registrada
conscientemente pelo cérebro — os viciados não conseguiam nem mesmo
identificar o que tinham visto —, mas ansiavam pela droga da mesma
forma.
Moral da história: você pode quebrar um hábito, mas é improvável que o
esqueça. Uma vez que os sulcos mentais do hábito tenham sido criados em
seu cérebro, são quase impossíveis de serem removidos completamente —
mesmo que não sejam usados por um bom tempo. E isso significa que
simplesmente resistir à tentação é uma estratégia ineficaz. É difícil manter uma atitude zen em uma vida cheia de interrupções. É preciso muita
energia. No curto prazo, você pode escolher dominar a tentação. Em longo
prazo, nos tornamos um produto do ambiente em que vivemos. Para ser
franco, nunca vi alguém manter hábitos positivos de forma consistente em
um ambiente negativo.
Uma abordagem mais confiável é eliminar os maus hábitos pela raiz. Uma
das maneiras mais práticas de acabar com eles é reduzir a exposição aos
estímulos que os desencadeiam.
Se não consegue trabalhar, deixe o telefone em outro cômodo por
algumas horas.
Se está continuamente sentindo que não é bom o suficiente, pare de
seguir as contas de mídia social que provocam ciúme e inveja.
Se está perdendo muito tempo assistindo à televisão, remova-a do
quarto.
Se está gastando muito dinheiro com produtos eletrônicos, pare de
ler as resenhas dos últimos equipamentos de tecnologia.
Se estiver jogando videogame em excesso, desconecte o console e
coloque-o em um armário após cada uso.
Essa prática é uma inversão da 1ª Lei da Mudança de Comportamento. Ao
invés de torná-lo claro, você pode torná-lo invisível. Muitas vezes me
surpreendo com o quanto essas mudanças simples são eficazes. Remova um
único estímulo, e todo o hábito desaparece.
O autocontrole é uma estratégia de curto, não de longo, prazo. Você pode
ser capaz de resistir à tentação uma ou duas vezes, mas é improvável que
consiga reunir a força de vontade para vencer seus desejos todas as vezes.
Em vez de convocar uma nova dose de força de vontade sempre que quiser fazer a coisa certa, sua energia seria melhor aproveitada para otimizar seu
ambiente. Esse é o segredo do autocontrole. Torne os estímulos de seus
bons hábitos claros e os dos maus, invisíveis.
Resumo do Capítulo
A inversão da 1ª Lei da Mudança de Comportamento é torná-lo
invisível.
Uma vez que um hábito é formado, é improvável que seja
esquecido.
Pessoas com autocontrole elevado tendem a gastar menos tempo
em situações tentadoras. É mais fácil evitar do que resistir à
tentação.
Uma das maneiras mais práticas de eliminar um mau hábito é
reduzir a exposição ao estímulo que o desencadeia.
O autocontrole é uma estratégia de curto, não de longo, prazo.
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COMO CRIAR UM BOM HÁBITO
A 1ª Torne-o Claro
Lei
1.1 Preencha a Avaliação dos Hábitos. Anote seus hábitos atuais para se conscientizar
deles.
1.2 Use as intenções de implementação: “Eu irei [COMPORTAMENTO] às [HORA] em
[LOCAL].”
1.3 Use o empilhamento de hábitos: “Depois de [HÁBITO ATUAL], eu irei [NOVO
HÁBITO].”
1.4 Redesenhe seu ambiente. Torne os estímulos dos bons hábitos claros e visíveis.
A 2ª Torne-o Atraente
Lei
A 3ª Torne-o Fácil
Lei
A 4ª Torne-o Satisfatório
Lei
COMO SE LIVRAR DE UM MAU HÁBITO
Inversão da 1ª
Torne-o Invisível
Lei
Reduza a exposição. Remova os estímulos de seus maus hábitos do
1.5
ambiente.
Inversão da 2ª
Torne-o Desinteressante
Lei
Inversão da 3ª
Torne-o Difícil
Lei
Inversão da 4ª Torne-o Insatisfatório
Lei
Você pode imprimir uma versão completa deste roteiro de hábitos
em www.altabooks.com.br — procure pelo nome do livro ou ISBN.
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