Hábitos Atômicos

James Clear · Capítulo 13 de 26

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Hábitos Atômicos

A Lei do Mínimo Esforço

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E M SEU PREMIADO LIVRO, Armas, Germes e Aço, o antropólogo e biólogo Jared Diamond aponta um fato simples: diferentes continentes têm

formas diferentes. À primeira vista, essa afirmação parece bastante óbvia e

sem importância, mas acaba tendo um profundo impacto no comportamento

humano.

O eixo primário das Américas vai de norte a sul. Ou seja, a massa de terra

da América do Norte e do Sul tende a ser alta e magra, em vez de larga e

gorda. O mesmo se aplica, de modo geral, à África. Enquanto isso, o

território que compõe a Europa, a Ásia e o Oriente Médio é o oposto. Esse

enorme trecho de terra tende a ser mais a leste-oeste no formato. De acordo

com Diamond, essa diferença de formato desempenhou um papel

significativo na disseminação da agricultura ao longo dos séculos.

Quando a agricultura começou a se espalhar pelo mundo, os agricultores

tiveram mais facilidade de se expandir ao longo das rotas leste-oeste do que

em rotas norte-sul. Isso ocorre porque locais ao longo da mesma latitude

geralmente compartilham climas semelhantes, quantidade de luz solar e

chuva e mudanças na estação. Esses fatores permitiram que os agricultores

da Europa e da Ásia domesticassem algumas culturas e as cultivassem ao

longo de todo o território da França à China.

 

O FORMATO DO COMPORTAMENTO HUMANO

FIGURA 13: O eixo primário da Europa e da Ásia é o leste-oeste. O eixo primário das Américas e da África é norte-sul. Isso leva a uma maior variedade de climas no eixo vertical das Américas do que em toda a Europa e Ásia. Como resultado, a agricultura se espalhou quase duas vezes mais rápido em toda a Europa e Ásia do que em outros lugares. O comportamento dos agricultores — mesmo ao longo de centenas ou milhares de anos — foi limitado pelo grau de dificuldade encontrado no ambiente.

 

 

Em comparação, o clima varia muito quando viajamos de norte a sul.

Imagine o quão diferente é o clima na Flórida em comparação com o

Canadá. Você pode ser o agricultor mais talentoso do mundo, mas isso não

o ajudará a cultivar as laranjas da Flórida no inverno canadense. A neve não

é uma boa alternativa como solo. Para espalhar as colheitas ao longo das

rotas norte-sul, os agricultores precisariam encontrar e domesticar novas

plantas sempre que o clima mudasse.

Como resultado, a agricultura se espalhou de duas a três vezes mais

rápido na Ásia e na Europa do que nas Américas. Ao longo dos séculos,

essa pequena diferença teve um impacto muito grande. O aumento da

produção de alimentos permitiu um crescimento populacional mais rápido.

Com mais pessoas, essas culturas foram capazes de construir exércitos mais

fortes e foram mais bem equipadas para desenvolver novas tecnologias. As

mudanças começaram pequenas — uma cultura que se espalhou um pouco mais, uma população que cresceu um pouco mais rápido —, mas agravou-

se em diferenças substanciais ao longo do tempo.

A disseminação da agricultura fornece um exemplo da 3ª Lei da Mudança

de Comportamento em escala global. A sabedoria convencional afirma que

a motivação é a chave para a mudança de hábitos. Talvez se você realmente

quisesse, conseguiria. Mas a verdade é que nossa verdadeira motivação é

sermos preguiçosos e fazer o que é conveniente. E, apesar do que o mais

recente best-seller de produtividade lhe dirá, essa é uma estratégia

inteligente, não estúpida.

A energia é preciosa, e o cérebro está preparado para economizá-la

sempre que possível. É da natureza humana seguir a Lei do Mínimo

Esforço, que afirma que, ao decidir entre duas opções semelhantes, as

pessoas naturalmente serão atraídas pela opção que requer o mínimo de

trabalho.1 Por exemplo, expandir sua fazenda para o leste, onde você pode

cultivar as mesmas culturas em vez de se dirigir para o norte, onde o clima

é diferente. De todas as ações possíveis que podemos realizar, a que é

realizada é aquela que oferece o maior valor pelo menor esforço. Estamos

motivados a fazer o que é fácil.

Toda ação requer uma certa quantidade de energia. Quanto mais energia

for necessária, menor a probabilidade de ocorrer. Se o seu objetivo é fazer

uma centena de flexões por dia, isso despende muita energia! No começo,

quando você está motivado e animado, pode reunir forças para começar.

Mas, depois de alguns dias, um esforço tão grande parece exaustivo.

Enquanto isso, manter o hábito de fazer uma flexão por dia quase não

requer energia para começar. E, quanto menos energia um hábito requerer,

maior é a probabilidade de ocorrer.

Analise qualquer comportamento que preencha grande parte da sua vida e

verá que pode ser realizado com níveis muito baixos de motivação. Hábitos como navegar no celular, verificar e-mails e assistir à televisão roubam

muito do nosso tempo, porque podem ser executados quase sem esforço.

Eles são incrivelmente convenientes.

De certo modo, todo hábito é apenas um obstáculo para conseguir o que

você realmente quer. A dieta é um obstáculo para entrar em forma. A

meditação é um obstáculo para se sentir calmo. O registro no diário é um

obstáculo para pensar com clareza. Você não quer o hábito em si. O que

realmente quer é o resultado que ele proporciona. Quanto maior o obstáculo

— isto é, quanto mais difícil for o hábito —, mais resistência haverá entre

você e seu estado final desejado. É por isso que é crucial tornar seus hábitos

tão fáceis que possam ser feitos mesmo sem vontade. Se puder tornar seus

bons hábitos mais convenientes, será mais provável que os siga.

Mas e quanto a todos os momentos em que parecemos fazer o oposto? Se

somos todos tão preguiçosos, como você explica as pessoas que realizam

coisas difíceis como criar um filho, começar um negócio ou escalar o

Everest?

Certamente, você é capaz de fazer coisas muito difíceis. O problema é

que, em alguns dias, você sente vontade de fazer o trabalho pesado e, em

outros, sente vontade de desistir. Nos dias difíceis, é crucial ter tantas coisas

trabalhando a seu favor quanto possível, para que possa superar os desafios

que a vida naturalmente coloca em seu caminho. Quanto menos resistência

enfrentar, mais fácil será para seu eu mais forte emergir. A ideia por trás de

torne-o fácil não é apenas fazer coisas fáceis. A ideia é tornar o mais fácil

possível no momento de fazer as coisas que compensam em longo prazo.

 

COMO CONSEGUIR MAIS COM MENOS ESFORÇO

 

Imagine que você está segurando uma mangueira de jardim dobrada no

meio. Um pouco de água pode fluir, mas não muito. Se quiser aumentar a quantidade de água que passa pela mangueira, você tem duas opções. A

primeira é abrir mais a torneira e forçar mais água a sair. A segunda é

simplesmente remover a dobra na mangueira e deixar a água fluir

naturalmente.

Tentar aumentar sua motivação para criar um hábito difícil é como tentar

forçar a água através de uma mangueira dobrada. É possível, mas requer

muito esforço e aumenta a tensão em sua vida. Enquanto isso, tornar seus

hábitos simples e fáceis é como remover a dobra da mangueira. Em vez de

tentar superar a resistência em sua vida, você a reduz.

Uma das maneiras mais eficazes de reduzir a resistência associada a seus

hábitos é praticar a reconfiguração do ambiente. No Capítulo 6, discutimos

o design de ambiente como um método para tornar as sugestões mais

óbvias, mas você também pode otimizar seu ambiente para facilitar as

ações. Por exemplo, ao decidir onde praticar um novo hábito, é melhor

escolher um lugar que já esteja no caminho da sua rotina. Os hábitos são

mais fáceis de criar quando se encaixam no fluxo de sua vida. É mais

provável que você não falte à academia se ela estiver no seu caminho para o

trabalho, porque parar não entra em grande conflito com seu estilo de vida.

Em comparação, se a academia estiver fora de seu trajeto normal — mesmo

que seja por apenas alguns quarteirões —, você precisará “sair do seu

caminho” para chegar lá.

Talvez ainda mais eficaz seja reduzir a resistência em sua casa ou

escritório. Muitas vezes, tentamos começar hábitos em ambientes de alta

resistência. Tentamos seguir uma dieta rigorosa enquanto saímos para jantar

com amigos. Nós tentamos escrever um livro em uma casa caótica.

Tentamos nos concentrar usando um smartphone cheio de distrações. Mas

não precisa ser assim. Podemos remover os pontos de atrito que nos impedem. É exatamente isso que os fabricantes de eletrônicos do Japão

começaram a fazer nos anos 1970.

Em um artigo publicado no New Yorker, intitulado “Better All the Time”,

James Suroweicki escreve:

“As empresas japonesas enfatizaram o que veio a ser conhecido como

‘produção enxuta’, buscando implacavelmente remover resíduos de todos

os tipos de processos de produção, redesenhando espaços de trabalho, para

que os trabalhadores não precisassem perder tempo se virando e se

contorcendo para alcançar suas ferramentas. O resultado foi que as fábricas

japonesas eram mais eficientes, e os produtos, mais confiáveis do que os

norte-americanos. Em 1974, as chamadas para assistência técnica de

televisores coloridos de fabricação norte-americana eram cinco vezes mais

comuns que as de televisores japoneses. Em 1979, os trabalhadores norte-

americanos levavam três vezes mais tempo para montar seus produtos.”

Gosto de me referir a essa estratégia como adição por subtração.2 As

empresas japonesas procuraram todos os pontos de resistência no processo

de fabricação e os eliminaram. Ao subtrair o esforço desperdiçado, elas

adicionaram clientes e receita. Da mesma forma, quando removemos os

pontos de atrito que minam nosso tempo e energia, podemos conquistar

mais com menos esforço. (Essa é uma das razões pelas quais arrumar tudo

pode ser tão bom: estamos simultaneamente avançando e aliviando a carga

cognitiva que nosso meio nos impõe.)

Se você analisar os produtos mais formadores de hábitos, notará que uma

das coisas que esses produtos e serviços fazem melhor é remover pequenas

resistências de sua vida. Os serviços de entrega de refeições reduzem a

resistência de se comprar mantimentos. Os aplicativos de namoro, de se

fazer apresentações sociais. Os serviços de carona, de se deslocar até o outro lado da cidade. As mensagens de texto reduzem a resistência de se

enviar uma carta pelo correio.

Como um fabricante de televisores japoneses redesenhando seu espaço de

trabalho para reduzir o desperdício de movimento, as empresas de sucesso

projetam seus produtos para automatizar, eliminar ou simplificar o maior

número de etapas possível. Elas reduzem o número de campos em cada

formulário. Diminuem o número de cliques necessários para se criar uma

conta. Entregam seus produtos com instruções fáceis de entender ou exigem

menos escolhas de seus clientes.

Quando os primeiros assistentes virtuais ativados por voz foram lançados

— produtos como o Google Home, o Amazon Echo e o Apple HomePod

—, perguntei a um amigo do que ele gostava no produto que havia

comprado. Ele disse que era mais fácil dizer “tocar música country” do que

pegar o telefone, abrir o aplicativo de música e escolher uma lista de

reprodução. É claro que, apenas alguns anos antes, ter acesso ilimitado à

música no seu bolso era um comportamento muito menos trabalhoso em

comparação a dirigir até a loja e comprar um CD. O mundo dos negócios é

uma eterna busca para entregar o mesmo resultado de uma forma mais fácil.

Estratégias similares têm sido usadas efetivamente pelos governos.

Quando o governo britânico quis aumentar as taxas de arrecadação de

impostos, eles mudaram a abordagem de direcionar cidadãos a uma página

da web onde o formulário de imposto poderia ser baixado para um link que

os levava diretamente ao formulário. Reduzir essa etapa no processo

aumentou a taxa de resposta de 19,2% para 23,4%. Para um país como o

Reino Unido, esses pontos percentuais representam milhões em receita

tributária.

A ideia central é criar um ambiente em que fazer a coisa certa é o mais

fácil possível. Grande parte da batalha de construir hábitos melhores se resume a encontrar maneiras de reduzir a resistência associada aos nossos

bons hábitos e aumentar a resistência associada aos maus.

 

PREPARE O AMBIENTE PARA USO FUTURO

 

Oswald Nuckols é um desenvolvedor de TI de Natchez, Mississippi. Ele

também é alguém que entende o poder de preparar seu ambiente.

Nuckols discorreu sobre seus hábitos de limpeza, seguindo uma estratégia

que ele chama de “reinicializar o ambiente”. Por exemplo, quando termina

de assistir à televisão, ele coloca o controle remoto de volta no suporte,

arruma as almofadas no sofá e dobra o cobertor. Quando sai do carro, ele

joga fora todo o lixo. Sempre que toma banho, limpa o vaso sanitário

enquanto o chuveiro está se aquecendo. (Como ele observa, o “momento

perfeito para limpar o vaso é imediatamente antes de você se lavar no

chuveiro”.) O propósito de reinicializar cada ambiente não é simplesmente

limpá-lo depois da última ação, mas prepará-lo para a ação futura.

“Quando entro em um ambiente, tudo está no lugar certo”, escreveu

Nuckols. “Como faço isso todos os dias em todos os cômodos, as coisas

sempre estão no lugar… As pessoas pensam que trabalho muito, mas na

verdade sou muito preguiçoso. Sou apenas preguiçosamente proativo. Isso

proporciona muito tempo extra.”

Sempre que organiza um espaço para um propósito específico, você o

prepara para facilitar a próxima ação. Por exemplo, minha esposa guarda

uma caixa de cartões comemorativos por ocasião — aniversário,

condolência, casamento, formatura e outros. Sempre que necessário, ela

pega um cartão apropriado e o envia. Ela é incrivelmente boa em se lembrar

de enviar cartões porque reduziu a resistência de fazê-lo. Durante anos, fui

o oposto. Alguém tinha um bebê, e eu pensava: “Eu deveria mandar um cartão.” Mas as semanas se passavam e, quando me lembrava de comprar

um, já era tarde demais. O hábito não era fácil.

Há muitas maneiras de preparar seu ambiente para que ele esteja pronto

para o uso imediato. Se quiser preparar um café da manhã saudável,

coloque a frigideira no fogão e arrume os pratos e utensílios necessários na

noite anterior. Quando acordar, fazer o café da manhã será fácil.

 

Quer desenhar mais? Coloque seus lápis, canetas, cadernos e

ferramentas de desenho em cima de sua mesa, com fácil acesso.

Quer se exercitar? Prepare suas roupas de ginástica, sapatos, bolsa

de ginástica e garrafa de água com antecedência.

Quer melhorar sua dieta? Pique uma boa quantidade de frutas e

legumes nos fins de semana e guarde-os em recipientes, para que

você tenha fácil acesso a produtos saudáveis e opções prontas para

comer durante a semana.

 

Essas são maneiras simples de tornar o bom hábito o caminho de menor

resistência.

Você também pode inverter esse princípio e preparar o ambiente para

dificultar os comportamentos ruins. Se estiver assistindo à televisão demais,

por exemplo, desconecte-a após cada uso. Apenas conecte-a novamente se

puder dizer em voz alta o nome do programa a que deseja assistir. Essa

configuração cria a resistência suficiente para evitar assistir à televisão sem

pensar.

Se isso não acontecer, você pode dar um passo adiante. Desconecte a

televisão e tire as baterias do controle remoto após cada uso, para que ligá-

la novamente exija dez segundos extras. E, se você for realmente obstinado,

mova a televisão para outro cômodo e guarde-a em um armário após cada uso. Você pode ter certeza de que só vai tirá-la quando realmente quiser

assistir a algo. Quanto maior a resistência, menor a probabilidade do hábito.

Sempre que possível, deixo meu telefone em uma sala diferente até o

almoço. Quando está bem do meu lado, acabo checando-o a manhã toda

sem motivo algum. Mas, quando está em outra sala, raramente penso nele.

E a resistência é grande o suficiente para que eu não o pegue sem um

motivo. Como resultado, tenho de três a quatro horas todas as manhãs em

que posso trabalhar sem interrupção.

Se colocar o telefone em outra sala não parece suficiente, peça a um

amigo ou familiar que o esconda por algumas horas. Peça a um colega de

trabalho para mantê-lo em sua mesa de manhã e devolvê-lo no almoço.

É notável como é necessária pouca resistência para evitar

comportamentos indesejáveis. Quando escondo a cerveja na parte de trás da

geladeira, onde não consigo ver, bebo menos. Quando excluo os aplicativos

de mídia social do meu telefone, pode levar semanas até que eu faça o

download deles novamente e faça login. Esses truques dificilmente

controlarão um vício real, mas, para muitos de nós, um pouco de resistência

pode ser a diferença entre manter um bom hábito e ceder a um mau.

Imagine o impacto cumulativo de fazer dezenas dessas mudanças e viver

em um ambiente projetado para tornar os bons comportamentos mais fáceis

e os maus comportamentos mais difíceis.

Quer estejamos abordando a mudança de comportamento como um

indivíduo, pai, coach ou líder, devemos nos fazer a mesma pergunta:

“Como podemos projetar um mundo onde é fácil fazer o que é certo?”

Reconfigure sua vida para que as ações mais importantes sejam também as

mais fáceis de fazer.

 

Resumo do Capítulo

O comportamento humano segue a lei do mínimo esforço.

Naturalmente, somos atraídos pela opção que requer o mínimo de

trabalho.

Crie um ambiente em que fazer a coisa certa seja o mais fácil

possível.

Reduza a resistência associada a bons comportamentos. Quando a

resistência é baixa, os hábitos são fáceis.

Aumente a resistência associada a maus comportamentos. Quando

a resistência é alta, os hábitos são difíceis.

Prepare seu ambiente para facilitar as ações futuras.

 

1 Esse é um princípio fundamental da física, conhecido como o Princípio da Mínima Ação. Afirma que o caminho percorrido entre dois pontos será sempre o que requer menos energia. Esse princípio simples sustenta as leis do universo. A partir dessa ideia, você pode descrever as leis do movimento e da relatividade.

2 A expressão adição por subtração também é usada por equipes e empresas para descrever a remoção de pessoas de um grupo para tornar a equipe mais forte no geral.

 

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