Hábitos Atômicos

James Clear · Capítulo 2 de 26

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Hábitos Atômicos

Os Fundamentos

 

 

Por que Pequenas Mudanças Fazem uma

 

Grande Diferença

 

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1

 

O Surpreendente Poder dos Hábitos

 

Atômicos

 

O DESTINO DO ciclismo britânico mudou em um dia de 2003. A organização responsável pela regulamentação do ciclismo

profissional na Grã-Bretanha contratara recentemente Dave Brailsford

como seu novo diretor de performance. Na época, ciclistas profissionais da

Grã-Bretanha haviam suportado quase 100 anos de mediocridade. Desde

1908, os ciclistas britânicos conquistaram apenas uma medalha de ouro nos

Jogos Olímpicos, e se saíram ainda pior na maior corrida do ciclismo, o

Tour de France. Em 110 anos, nenhum ciclista britânico havia vencido o

evento.

Na verdade, o desempenho dos ciclistas britânicos era tão decepcionante

que um dos principais fabricantes da Europa se recusou a vender bicicletas

para a equipe porque temia que isso prejudicasse as vendas se outros

profissionais vissem os britânicos usando seus equipamentos.

Brailsford havia sido contratado para mudar o rumo do ciclismo britânico.

O que o diferenciava dos treinadores anteriores era seu compromisso

inabalável com uma estratégia que chamava de “agregação de ganhos

marginais”, que era a filosofia de procurar por uma pequena margem de

melhoria em tudo que você faz. Segundo Brailsford: “Todo o princípio

surgiu da ideia de que se você dividir todas as ações que conseguir pensar como integrante da atividade de andar de bicicleta e, em seguida, melhorar

em 1% em cada uma delas, teria um aumento significativo ao colocar todas

em ação.”

Brailsford e sua equipe começaram fazendo pequenos ajustes esperados

em uma equipe profissional de ciclismo. Eles redesenharam os selins das

bicicletas para torná-los mais confortáveis e esfregaram álcool nos pneus

para ganhar melhor aderência. Pediram aos ciclistas que usassem shorts

aquecidos eletricamente sobre as bermudas de lycra, para manter a

temperatura muscular ideal, e usaram os sensores de biofeedback para

monitorar como cada atleta respondia a determinado exercício. A equipe

testou vários tecidos em um túnel de vento e fez com que seus ciclistas ao

ar livre passassem a usar roupas de corrida indoors, que se mostraram mais

leves e aerodinâmicas.

Mas não parou por aí. Brailsford e sua equipe continuaram a encontrar

possíveis melhorias de 1% em áreas negligenciadas e inesperadas. Eles

testaram diferentes tipos de gel de massagem para ver qual deles levava a

uma recuperação muscular mais rápida. Contrataram um cirurgião para

ensinar a cada ciclista a melhor maneira de lavar as mãos para reduzir as

chances de pegar um resfriado. Determinaram o tipo de travesseiro e

colchão que proporcionava a melhor noite de sono para cada atleta. Até

pintaram o interior do caminhão da equipe de branco, o que ajudava a

identificar pontos de poeira que normalmente passariam despercebidos, mas

poderiam prejudicar o desempenho das bicicletas precisamente ajustadas.

Como essas e centenas de outras pequenas melhorias se acumularam, os

resultados foram mais rápidos do que se poderia imaginar.

Apenas cinco anos após Brailsford assumir, a equipe britânica dominou os

eventos de ciclismo de estrada e pista nos Jogos Olímpicos de 2008, em

Pequim, onde conquistou impressionantes 60% das medalhas de ouro. Quatro anos depois, quando os Jogos Olímpicos chegaram a Londres, os

britânicos elevaram o nível ao estabelecer nove recordes olímpicos e sete

mundiais.

Nesse mesmo ano, Bradley Wiggins se tornou o primeiro ciclista britânico

a vencer o Tour de France. No ano seguinte, seu companheiro de equipe,

Chris Froome, venceu a corrida, e voltaria a vencer em 2015, 2016 e 2017,

dando à equipe britânica cinco vitórias no Tour de France em seis anos.

Durante um período de 10 anos, de 2007 a 2017, os ciclistas britânicos

conquistaram 178 campeonatos mundiais e 66 medalhas de ouro olímpicas

ou paralímpicas, e conquistaram 5 vitórias do Tour de France, que é

considerada a corrida mais bem-sucedida na história do ciclismo.1

Como isso aconteceu? Como atletas comuns se transformam em

campeões mundiais com pequenas mudanças que, à primeira vista, parecem

fazer uma diferença modesta, na melhor das hipóteses? Por que pequenas

melhorias se acumulam em resultados tão notáveis e como você pode

replicar essa abordagem em sua própria vida?

 

POR QUE OS HÁBITOS FAZEM A DIFERENÇA

 

É muito fácil superestimar a importância de um momento decisivo e

subestimar o valor das pequenas melhorias diárias. Muitas vezes, nos

convencemos de que um grande sucesso requer uma grande ação. Seja para

perder peso, construir um negócio, escrever um livro, ganhar um

campeonato ou alcançar qualquer outro objetivo, pressionamos a nós

mesmos para gerar uma melhoria impressionante, de que todos comentem.

Enquanto isso, melhorar em 1% não é particularmente notável — às vezes

nem é perceptível —, mas pode ser muito mais significativo, especialmente

em longo prazo. A diferença que uma pequena melhoria pode fazer ao

longo do tempo é impressionante. Veja como a matemática funciona: se você conseguir ficar 1% melhor a cada dia durante um ano, acabará sendo

37 vezes melhor quando terminar. Por outro lado, se ficar 1% pior a cada

dia durante um ano, você declinará quase a zero. O que começa como uma

pequena vitória ou um pequeno contratempo se acumula em algo muito

maior.

1% MELHOR TODO DIA

1% pior por dia por 1 ano. 0,99365 = 0,03

1% melhor por dia por 1 ano. 1,01365 = 37,78

 

FIGURA 1: Os efeitos de pequenos hábitos se acumulam com o tempo. Por exemplo, se você conseguir se tornar apenas 1% melhor por dia, acabará com resultados aproximadamente 37 vezes melhores depois de um ano.

 

Hábitos são os juros compostos do autoaperfeiçoamento. Da mesma

forma que o dinheiro se multiplica com juros compostos, os efeitos de seus

hábitos se multiplicam à medida que você os repete. Eles parecem fazer

pouca diferença em um dia isoladamente, e ainda assim o impacto que

provocam ao longo dos meses e anos pode ser enorme. Somente dois, cinco

ou até dez anos depois é que o valor dos bons hábitos e o custo dos maus

tornam-se evidentes.

Esse pode ser um conceito difícil de avaliar no cotidiano. Muitas vezes

desprezamos as pequenas mudanças porque não parecem importar muito no momento. Se economizar um pouco de dinheiro agora, você ainda não será

milionário. Se for para a academia três dias seguidos, ainda estará fora de

forma. Se estudar mandarim por uma hora esta noite, não aprenderá o

idioma. Nós fazemos algumas mudanças, mas os resultados nunca parecem

vir rapidamente, e então voltamos para nossas rotinas anteriores.

Infelizmente, o ritmo lento da transformação também facilita que um mau

hábito volte. Se você comer um alimento não muito saudável hoje, a

balança não se move muito. Se trabalhar até tarde e ignorar sua família, ela

o perdoará. Se procrastinar e deixar seu projeto para amanhã, normalmente

haverá tempo para concluí-lo mais tarde. Uma única decisão é fácil de

ignorar.

Mas quando repetimos 1% de erro, dia após dia, reproduzindo más

decisões, duplicando pequenos erros e racionalizando pequenas desculpas,

as pequenas escolhas viram resultados tóxicos. É o acúmulo de muitos erros

— um declínio de 1% aqui e ali — que em algum momento gera problemas.

O impacto criado por uma mudança em seus hábitos é semelhante ao

efeito de mudar a rota de um avião em apenas alguns graus. Imagine que

você está voando de Los Angeles para Nova York. Se um piloto ajustar a

direção apenas 3,5 graus ao sul, você aterrissará em Washington, DC, em

vez de em Nova York. Uma mudança tão pequena é imperceptível na

decolagem — o nariz do avião se move poucos metros — mas quando essa

distância é amplificada por toda a extensão dos EUA, a viagem termina a

quilômetros de distância.2

Da mesma forma, uma ligeira mudança em seus hábitos diários pode

direcionar sua vida para um destino muito diferente. Fazer uma escolha que

seja 1% melhor ou pior parece insignificante no momento, mas, ao longo

dos momentos que compõem a vida toda, essas escolhas determinam a diferença entre quem você é e quem poderia ser. O sucesso é resultado de

hábitos diários — não transformações únicas na vida.

Dito isso, não importa o quanto você seja bem ou malsucedido agora. O

que importa é saber se os seus hábitos estão colocando você no caminho do

sucesso. Sua preocupação deve ser muito maior com sua trajetória atual do

que com seus resultados atuais. Se você é milionário, mas gasta mais do que

ganha todo mês, então está em uma trajetória ruim. Se seus hábitos não

mudarem, o resultado não será bom. Por outro lado, se está falido, mas

economiza um pouquinho a cada mês, então está no caminho da

independência financeira — mesmo que esteja se movendo mais devagar do

que gostaria.

Seus resultados são uma mensuração tardia de seus hábitos. Seu

patrimônio líquido é uma mensuração tardia de seus hábitos financeiros.

Seu peso é uma mensuração tardia de seus hábitos alimentares. Seu

conhecimento, de seus hábitos de aprendizado. Sua bagunça, de seus

hábitos de limpeza. Você colhe o que planta e cultiva.

Se quiser prever qual será seu destino na vida, tudo o que precisa fazer é

seguir a curva de pequenos ganhos ou pequenas perdas, e ver como suas

escolhas diárias se acumularão 10 ou 20 anos depois. Você está gastando

menos do que ganha por mês? Está indo à academia toda semana? Está

lendo livros e aprendendo algo novo a cada dia? Batalhas minúsculas como

essas são as que definirão o seu futuro eu.

O tempo amplia a margem entre o sucesso e o fracasso. Ele multiplicará o

que cultiva. Bons hábitos transformam o tempo em aliado. Maus hábitos o

tornam seu inimigo.

Hábitos são uma faca de dois gumes. Os maus conseguem arruiná-lo tão

facilmente quanto os bons, engrandecê-lo, e é por isso que entender os detalhes é essencial. Você precisa saber como os hábitos funcionam e como

projetá-los a seu gosto, para que possa evitar a face perigosa da lâmina.

SEUS HÁBITOS PODEM SE ACUMULAR A SEU FAVOR OU CONTRA VOCÊ

Acúmulo Positivo Acúmulo Negativo

 

Acúmulo de produtividade. Realizar uma Acúmulo de estresse. A frustração de um

tarefa extra é um pequeno feito em qualquer engarrafamento. O peso das responsabilidades

dia, mas conta muito ao longo de toda a parentais. A preocupação de fazer face às

carreira. O efeito de automatizar uma tarefa despesas. A tensão de estar com a pressão

antiga ou dominar uma nova habilidade pode arterial levemente alta. Por si só, essas causas

ser ainda maior. Quanto mais tarefas você puder comuns de estresse são gerenciáveis. Mas,

realizar sem pensar, mais seu cérebro estará quando persistem por anos, pequenos

livre para se concentrar em outras áreas. estresses se transformam em sérios problemas

de saúde.

 

Acúmulo de conhecimento. Conhecer uma Acúmulo de pensamentos negativos. Quanto

ideia não fará de você um gênio, mas um mais você se considera inútil, estúpido ou

compromisso com a aprendizagem ao longo da feio, mais se condiciona a interpretar a vida

vida pode ser transformador. Além disso, cada dessa maneira. Você fica preso em um ciclo

livro que você lê não apenas ensina algo novo, vicioso de pensamento. O mesmo é verdade

mas também abre diferentes maneiras de pensar para como você pensa sobre os outros. Uma

sobre ideias antigas. Como Warren Buffett diz: vez que adquire o hábito de ver as pessoas

“É assim que funciona o conhecimento. Ele se como irritadas, injustas ou egoístas, você vê

acumula, como juros compostos.” esse tipo de pessoa em todo lugar.

 

Acúmulo de relacionamentos. As pessoas Acúmulo de indignação. Motins, protestos e

refletem seu comportamento de volta para você. movimentos de massa raramente resultam de

Quanto mais você ajuda os outros, mais os um único evento. Em vez disso, uma longa

outros querem ajudá-lo. Ser um pouco melhor série de microagressões e agravos diários se

em cada interação resulta em uma rede de multiplica lentamente até que um evento

conexões amplas e fortes ao longo do tempo. desequilibra a balança e a indignação se

espalha como um incêndio.

 

COMO REALMENTE É O PROGRESSO

Imagine que você tem um cubo de gelo na mesa à sua frente. A sala está

fria e você pode ver sua respiração. Neste momento, a temperatura é de 25

graus. Mas, lentamente, a sala começa a se esquentar.

Vinte e seis graus.

Vinte e sete.

Vinte e oito.

O cubo de gelo ainda está na mesa à sua frente.

Vinte e nove graus.

Trinta.

Trinta e um.

Ainda assim, nada acontece.

Então, a temperatura atinge os 32 graus. O gelo começa a derreter. Uma

mudança de 1 grau, aparentemente igual aos aumentos de temperatura

anteriores, desencadeou uma grande mudança.

Momentos revolucionários são muitas vezes o resultado de várias ações

anteriores, que criam o potencial necessário para desencadear uma grande

mudança. Esse padrão aparece em todos os lugares. O câncer passa 80% de

sua vida indetectável, depois toma o corpo em meses. O bambu mal pode

ser visto nos primeiros cinco anos, pois constrói sistemas radiculares

extensos no subsolo antes de irromper do solo e atingir 27 metros em seis

semanas.

Da mesma forma, os hábitos geralmente parecem não fazer diferença até

que você cruze um limite crítico e desencadeie/desbloqueie um novo nível

de desempenho. Nos estágios iniciais e intermediários de qualquer missão,

muitas vezes há um Vale de Desilusão. Você espera progredir de forma

linear e é frustrante como as mudanças parecem ineficazes nos primeiros

dias, semanas e até meses. Não parece que você está indo a lugar algum. É uma característica de qualquer processo de composição: os resultados mais

poderosos são tardios.

Essa é uma das principais razões de ser tão difícil construir hábitos

duradouros. As pessoas fazem algumas pequenas mudanças, não

conseguem ver um resultado tangível e decidem parar. Você pensa: “Estou

correndo todos os dias há um mês, por que não consigo ver nenhuma

mudança no meu corpo?” Uma vez que esse tipo de pensamento assume o

controle, é fácil deixar que bons hábitos caiam no esquecimento. Mas, para

fazer uma diferença significativa, os hábitos precisam persistir por tempo

suficiente para romper determinado patamar — que eu chamo de Platô do

Potencial Latente.

Se você está com dificuldades para criar um bom ou abandonar um mau

hábito, não significa que perdeu sua capacidade de melhorar. Muitas vezes é

porque ainda não cruzou o Platô do Potencial Latente. Reclamar sobre não

alcançar o sucesso, apesar de trabalhar arduamente, é como reclamar que

um cubo de gelo não está se derretendo quando você o aquece de 25 a 31

graus. Seu trabalho não foi desperdiçado; está apenas sendo armazenado.

Toda a ação acontece quando atinge os 32 graus.

Quando você finalmente romper o Platô do Potencial Latente, as pessoas

o chamarão de sucesso instantâneo. O mundo exterior só vê o

acontecimento mais drástico e não tudo o que o precedeu. Mas você sabe

que é o trabalho que fez há muito tempo — quando parecia que não estava

fazendo progresso algum — que possibilita o salto de hoje.

É o equivalente humano da pressão geológica. Duas placas tectônicas

podem se friccionar uma contra a outra por milhões de anos, a tensão

aumentando lentamente o tempo todo. Então, um dia, elas se friccionam

mais uma vez, da mesma forma que fazem há séculos, mas dessa vez a tensão já está muito grande. Um terremoto irrompe. A mudança pode levar

anos — até que aconteça de uma só vez.

Maestria requer paciência. O San Antonio Spurs, um dos times mais bem-

sucedidos da história da NBA, tem uma citação do reformador social Jacob

Riis pendurada em seu vestiário: “Quando nada parece dar certo, verei o

cortador de pedras martelando sua rocha talvez 100 vezes, sem que uma

única rachadura apareça. Mas na centésima primeira martelada a pedra se

abre em duas, e eu sei que não foi aquela que conseguiu isso, mas todas as

que vieram antes.”

 

O PLATÔ DO POTENCIAL LATENTE

 

FIGURA 2: Muitas vezes esperamos que o progresso seja linear. No mínimo, esperamos que aconteça rapidamente. Na realidade, os resultados de nossos esforços são frequentemente tardios. Somente meses ou anos depois que percebemos o verdadeiro valor do trabalho realizado antes. Isso pode resultar em um “Vale de Desilusão”, onde as pessoas se sentem desencorajadas depois de semanas ou meses de trabalho árduo sem nenhum resultado. No entanto, esse trabalho não foi desperdiçado. Estava simplesmente sendo armazenado. Apenas muito mais tarde é que o valor total dos esforços prévios é revelado.

 

Todas as grandes coisas são originadas de pequenos começos. A semente

de todo hábito é uma única e minúscula decisão. Mas como essa decisão é

repetida, um hábito brota e se fortalece. As raízes se avigoram, e os ramos crescem. A tarefa de abandonar um mau hábito é como desenraizar um

poderoso carvalho de dentro de nós. E criar um bom hábito é como cultivar

uma flor delicada um dia de cada vez.

Mas o que determina se nos apegamos a um hábito por tempo suficiente

para que ele sobreviva ao Platô do Potencial Latente e irrompa do outro

lado? O que faz com que algumas pessoas adotem hábitos indesejáveis e

permite que outras desfrutem dos efeitos compostos dos bons?

 

ESQUEÇA AS METAS, CONCENTRE-SE NOS SISTEMAS

 

A sabedoria convencional afirma que a melhor maneira de alcançar o que

queremos na vida — entrar em forma, construir um negócio de sucesso,

relaxar mais e se preocupar menos, passar mais tempo com amigos e

familiares — é definir metas específicas e práticas.

Por muitos anos, foi assim que encarei meus hábitos. Cada um deles era

um objetivo a ser alcançado. Estabeleci metas para as notas que queria na

escola, para os pesos que queria levantar na academia, para os lucros que

queria obter nos negócios. Consegui conquistar alguns, mas fracassei em

muitos deles. Por fim, comecei a perceber que meus resultados tinham

pouco a ver com as metas que estabeleci e quase tudo a ver com os sistemas

que segui.

Qual é a diferença entre sistemas e metas? Aprendi essa distinção com

Scott Adams, o cartunista por trás do personagem dos quadrinhos Dilbert.

As metas estão relacionadas aos resultados que deseja alcançar. Os sistemas

se referem aos processos que levam a esses resultados.

 

Se é treinador, sua meta pode ser ganhar um campeonato. Seu

sistema é o modo como você recruta jogadores, gerencia seus

assistentes técnicos e conduz os treinos.

Se é empreendedor, sua meta pode ser construir um negócio

milionário. Seu sistema é como você testa ideias de produtos,

contrata funcionários e executa campanhas de marketing.

Se é músico, sua meta pode ser tocar uma nova peça. Seu sistema é

quantas vezes você pratica, como desmembra e lida com métricas

difíceis e seu método para receber feedback de seu instrutor.

 

Agora vem a pergunta interessante: se você ignorasse completamente suas

metas e se concentrasse apenas em seu sistema, ainda teria sucesso? Por

exemplo, se fosse um técnico de basquete e ignorasse a meta de ganhar um

campeonato e focasse apenas o que sua equipe faz no treino todos os dias,

você ainda teria resultados?

Acredito que sim.

O objetivo em qualquer esporte é terminar com a melhor pontuação, mas

seria ridículo passar o jogo todo olhando o placar. A única maneira de

realmente vencer é melhorar a cada dia. Nas palavras do tricampeão do

Super Bowl, Bill Walsh: “A pontuação cuida de si mesma.” O mesmo se

aplica a outras áreas da vida. Se quiser melhores resultados, esqueça a

definição de metas. Concentre-se no seu sistema.

O que pretendo dizer com isso? As metas são completamente inúteis?

Claro que não. Metas são boas para determinar uma direção, mas os

sistemas são melhores para fazer progresso. Vários problemas surgem

quando se gasta muito tempo pensando nas metas e não há tempo suficiente

para projetar seus sistemas.

 

Problema 1: Vencedores e perdedores têm as mesmas metas.

O estabelecimento de metas sofre de um caso sério de viés de

sobrevivência. Nós nos concentramos nas pessoas que vencem — os

sobreviventes — e erroneamente assumimos que suas metas ambiciosas as levaram ao sucesso, ao mesmo tempo que negligenciamos todas as outras

pessoas que tinham o mesmo objetivo, mas não tiveram sucesso.

Todo atleta olímpico quer ganhar uma medalha de ouro. Todo candidato

quer conseguir o emprego. E se pessoas bem e malsucedidas compartilham

os mesmos objetivos, então não é a meta o que diferencia os vencedores dos

perdedores. Não foi a meta de ganhar o Tour de France que impulsionou os

ciclistas britânicos para a elite do esporte. Ao que tudo indica, todos os anos

o desejo de vencer era o mesmo — como qualquer outra equipe esportiva

profissional. A meta sempre esteve lá. Somente quando implementaram um

sistema de pequenas melhorias contínuas, conseguiram um resultado

diferente.

 

Problema 2: Alcançar uma meta é somente uma mudança momentânea.

Imagine que tenha um quarto bagunçado e defina uma meta para limpá-lo.

Se tiver energia para arrumá-lo, terá um quarto organizado — por ora. Mas

se mantiver os mesmos hábitos desleixados que levaram a um quarto

bagunçado, logo estará olhando para uma nova pilha de bagunça e

esperando por outra explosão de motivação. Um resultado idêntico o

persegue porque você nunca mudou o sistema por trás dele. Tratou o

sintoma sem abordar a causa.

Alcançar uma meta muda sua vida no momento. Esse é um fato

controverso sobre o aperfeiçoamento. Achamos que precisamos mudar os

resultados, mas eles não são o problema. O que realmente precisamos

mudar são os sistemas que os produzem. Ao resolver problemas no âmbito

dos resultados, a solução é temporária. Para que a melhoria seja perene,

você precisa resolver os problemas no âmbito do sistema. Corrija as

entradas, e as saídas se corrigirão.

 

Problema 3: As metas restringem sua felicidade.

O pressuposto implícito por trás de qualquer meta é o seguinte: “Quando

alcançar minha meta, serei feliz.” O problema com uma mentalidade de

metas é que você está continuamente colocando a felicidade de lado até o

próximo marco. Caí nessa armadilha tantas vezes que perdi a conta.

Durante anos, a felicidade sempre foi algo para o meu “eu” futuro desfrutar.

Prometi a mim mesmo que, assim que ganhasse 20kg de músculo ou assim

que meu negócio fosse destaque no New York Times, eu finalmente poderia

relaxar.

Além disso, as metas criam um conflito “ou-ou”: ou você atinge seu

objetivo e é bem-sucedido ou fracassa e é uma decepção. Mentalmente você

se enquadra em uma versão restrita de felicidade. Isso é um equívoco. É

improvável que seu caminho real ao longo da vida corresponda à exata

jornada que tinha em mente quando a iniciou. Não faz sentido restringir sua

satisfação a um cenário quando existem muitos caminhos para o sucesso.

Uma mentalidade focada no sistema oferece o antídoto. Quando você se

apaixona pelo processo, e não pelo produto, não precisa esperar para se dar

ao luxo de ser feliz. Pode ficar satisfeito a todo momento que seu sistema

esteja em execução. E um sistema pode ser bem-sucedido de muitas formas

diferentes, não apenas da primeira que você imagina.

 

Problema 4: As metas estão em desacordo com o progresso em longo prazo.

Por fim, uma mentalidade orientada por metas pode criar um efeito “ioiô”.

Muitos corredores trabalham arduamente ao longo de meses, mas assim que

cruzam a linha de chegada param de treinar. A corrida não está mais lá para

motivá-los. Quando todo o seu trabalho árduo está concentrado em uma

meta específica, o que restará para impulsioná-lo depois de ser alcançada?

É por isso que muitas pessoas se veem retomando os velhos hábitos depois

de realizar um objetivo.

O objetivo de estabelecer metas é ganhar o jogo. O propósito de construir

sistemas é continuar jogando. O verdadeiro pensamento em longo prazo é o

pensamento sem metas. Não se trata de uma única realização, mas sim de

um ciclo de refinamento e melhoria contínua. Em última análise, é o seu

compromisso com o processo que determinará seu progresso.

 

UM SISTEMA DE HÁBITOS ATÔMICOS

 

Se está tendo problemas para mudar seus hábitos, o problema não é você, é

seu sistema. Maus hábitos se repetem de novo e de novo não porque a

mudança não seja desejada, mas porque o sistema errado está sendo usado.

Você não sobe para atingir o nível de seus objetivos. Desce ao nível de

seus sistemas.

Concentrar-se no sistema geral, em vez de em um único objetivo, é um

dos temas centrais deste livro. É também um dos significados mais

profundos por trás da palavra atômico. Você provavelmente já percebeu que

um hábito atômico se refere a uma pequena mudança, um ganho marginal,

um aprimoramento de 1%. Mas os hábitos atômicos não são apenas velhos

hábitos, por menores que sejam. São pequenos hábitos que fazem parte de

um sistema maior. Assim como os átomos são os blocos de construção das

moléculas, os hábitos atômicos são os blocos de construção dos resultados

notáveis.

Hábitos são como os átomos de nossas vidas. Cada um deles é uma

unidade fundamental que contribui para a melhoria geral. No início, essas

minúsculas rotinas parecem insignificantes, mas logo se acumulam e

alimentam ganhos maiores que se multiplicam em um grau que supera em

muito o custo de seu investimento inicial. Eles são pequenos e poderosos.

Esse é o significado da expressão hábitos atômicos — uma prática ou rotina regular que não é apenas pequena e fácil de fazer, mas também a fonte de

um incrível poder; um componente do sistema de crescimento composto.

 

Resumo do Capítulo

 

Hábitos são os juros compostos do autoaperfeiçoamento. Obter

uma melhoria de 1% todos os dias conta muito no longo prazo.

Hábitos são uma faca de dois gumes. Eles podem trabalhar para ou

contra você, e é por isso que entender os detalhes é essencial.

Pequenas alterações, geralmente, parecem não fazer diferença até

que você cruze um limite crítico. Os resultados mais poderosos de

qualquer processo de composição são tardios. Você precisa ser

paciente.

Um hábito atômico é um pequeno hábito que faz parte de um

sistema maior. Assim como os átomos são os blocos de construção

das moléculas, os hábitos atômicos são os blocos de construção dos

resultados notáveis.

Se quiser melhores resultados, esqueça a definição de metas.

Concentre-se no seu sistema.

Você não sobe para atingir o nível de seus objetivos. Desce ao nível

de seus sistemas.

 

1 Enquanto este livro estava em gráfica, novas informações sobre a equipe de ciclismo britânica foram divulgadas. Você pode ver meus comentários em atomichabits.com/cycling [conteúdo em inglês].

2 Eu me empolguei e resolvi fazer as contas. Washington, DC, fica a cerca de 225 milhas da cidade de Nova York. Supondo que você esteja voando em um 747 ou em um Airbus A380, mudar o rumo em 3,5 graus ao sair de Los Angeles provavelmente faz com que o nariz do avião mude de 7,2 a 7,6 pés (86 a 92 polegadas). Uma mudança muito pequena na direção pode levar a uma mudança muito significativa no destino.

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