Lágrimas Abençoadas
Capítulo XVII
--«Sabia, mas ha doze annos que não tive novas tuas» respondeu o coronel.
--«Ha doze annos... é verdade... Ha doze annos que frei Antonio dos Anjos descera a um tumulo... O espirito vivia... mas o espirito do penitente, vinculado pela expiação á imagem do seu crime, quebra os vinculos do sangue, se os tem no mundo.
A voz do padre balbuciava estas ultimas palavras, cortadas de pausas, que traíam a sua serenidade contrafeita.
Seguiram-se o silencio, e a anciedade.
Frei Antonio, á custa de um grande sacrificio, e de uma penosa recordação, explicou a seu irmão o extranho silencio de doze annos.
Doze annos tinham sido o prazo em que as noites eram veladas pelo remorso do homem, que tentára uma vez quebrar a alliança que fizera com a renuncia de todos os gosos terrenos. Doze annos de purificação para quem se manchara, um minuto, na rebeldia aos estatutos da sua ordem, fôra um grande prazo, uma longa expiação, um zelo suicida, talvez!
É que os homens não o comprehendem. Doze annos de crimes, e um momento de remorso... isso sim, que, se não em todos os criminosos, em alguns pelo menos, é verosimil e explicavel.
Esses prodigios explica-os facilmente a philosophia materialista: não é o remorso, nem os gemidos do bem torturado pelo mal, nem o temor de Deus: é a organisação com seus mysterios. Mysterios na escola da materia, onde a natureza, positiva e carnal, é tudo! Como é que da seiva do erro se nutrem viçosas as vergonteas da verdade? As luzes faiscam do seio das trevas. Ha máximas preciosas que brilham ao clarão dos incendios philosophicos.