Lágrimas Abençoadas
Capítulo XI
--Não, minha senhora; espero as ordens de v. ex.a.
--Vae para casa do nosso capellão, que é um egresso chamado Antonio dos Anjos, um santo, que foi algum tempo mestre de uma creança traquinas, que andou por esse mundo de Christo a fazer travessuras, e me dizem que ainda aqui ha-de vir para ser muito meu amigo, e talvez para me pedir contas de um coração que eu, sem sua ordem, recolhi ao meu, para ambos pedirem juntos ao Senhor das misericordias a redempção de um escravo do mal, tão digno de ser o que eu sei; e Deus quer que elle seja.
Maria rompeu em soluços e lagrimas. A prelada tomou-lhe para o seio a face, como se afagasse uma creança. Alvaro estava immovel, com os olhos rasos de lagrimas postos no sympathico grupo da encanecida prioreza e da ainda formosa Maria.
XI
--Assim a chorar (continuou a freira mudando para o tom jovial) não podemos combinar as nossas escripturas de casamento, nem as precedencias que hão de dar-se antes de se unirem os meus filhos. O sr. Alvaro ha de estar dois mezes na companhia do nosso capellão: ha de vir todos os dias a esta grade almoçar com a sua velha sogra e com a sua futura esposa; ha de vir todas as tardes saber como está o rheumatismo da decrepita prelada, e traduzir-me do francez um sermão do padre Massillon, porque eu já não posso ler. Quando não estiver para ler á velha, ha de me contar o que viu nas suas viagens. Para tornarmos bem amena esta santa vida que projectamos, ha de vir para esta grade o dote que eu dou á minha menina: é um piano, e ella ha de perder o seu natural acanhamento e tocar umas musicas tristes que levam a consolação ao espirito, e trazem de dentro um tributo de lagrimas aos olhos. Ora, pois, meu genro, responda se está pelas condições que eu acabo de propor-lhe.