Lágrimas Abençoadas
Capítulo IX
«Oh minha filha, o teu coração é puro, e eu quero ouvi'-lo mais a elle do que ouvir-me a mim. Diz-me se não agouras uma grande felicidade para ti, e para os teus? Confessa-me o que pensas quando estás triste... Diz, diz, Maria...
A filha atirou-se a chorar ao seio da mãe. Balbuciava palavras sem sentido. O coração batia forte, e o tremor convulso dos braços, em redor do collo de sua mãe, suppria a falta de expressão.
Assim as encontrou frei Antonio entrando sem se annunciar.
IX
--N'esta casa chora-se mais do que se reza--disse o padre.
--Não são peccaminosas as nossas lagrimas, meu irmão...--disse a mãe de Maria.
--Pois então dizei-me por que choraes.
--Logo, logo...
Maria beijou a mão do tio, e saía, enxugando as lagrimas.
--Onde vaes tu, menina?--disse o velho.
--Vou trabalhar, meu tio.
--Havemos de falar logo.
Ella saiu, e o frade disse a sua cunhada:
--Vá chamar seu marido e venha com elle.
O coronel entrava n'este momento.
--Ei'-lo aqui. Ora vinde cá ambos; temos muito que dizer e que pensar. Dizei-me cá: o que vos diz o coração a respeito de Alvaro?
--Bem; parece-me um bom moço.
--E o vosso, minha irmã?
--Tenho-lhe affeição de mãe, estou familiarisada com elle como se o conhecesse desde creancinha.
--E sabeis o que Maria pensa a respeito d'elle?
--Soube-o--disse a cunhada--no momento em que meu irmão entrou. As lagrimas que viu nos olhos d'ella eram a confissão do seu segredo.
--Pois que disse ella?--atalhou o coronel.
--Nada, quasi nada... Vendo que eu lhe adivinhava o coração, lançou-se-me ao pescoço, chorando. Disse quanto podia dizer.
--Ama-o, em summa--disse o frade--Não admira; o moço é digno d'ella, e a Providencia quer que se amem...
--E que tem ella que esperar d'esse amor?--interrompeu o coronel.
--Tem que esperar as consequencias de uma affeição approvada por seus paes...
--Se elles a approvarem, meu irmão.
--Pois tu reprovas o amor da tua filha a Alvaro da Silveira?! Eu fico por elle... Quereis melhor fiador? Dou-vos a virtude de Maria. Se a nós não defendermos, defende-se ella.
--Sabes pouco do mundo, meu irmão--redarguiu o coronel.
--Não sei muito, não; mas o que é preciso saber para o nosso caso, sei-o de auctoridade certa, que é o presentimento bom que me dá resolução. O pae de Alvaro diz-me que seu filho quer Maria para sua esposa, e elle pede-a para sua filha. Que respondeis?
--Eu respondo que sim, que lh'a dou com toda a vontade, com todo o coração--disse a mãe de Maria.
--E eu--disse o coronel--respondo que estudes bem o caracter d'esse moço, e quando, passados mezes, não vier algum accidente inopinado alterar a opinião que tens do seu merecimento, virás então consultar a minha vontade.
--Dizes bem, meu irmão--tornou o egresso--Penso ter-me enganado, e ainda agora caí em mim, e na fraqueza dos meus juizos. Disseste bem: eu conheço pouco do mundo.
--E não sabes--continuou o coronel---que certos homens, sem serem hypocritas, apparecem inesperadamente bons; ás vezes uma pequena alteração no seu modo de pensar, produz grandes mudanças na vida exterior. Eu recordo-me de um grande phenomeno na minha vida de mancebo. Aos dezoito annos era eu rapaz desenvolto, vicioso, desobediente a nossos paes, e desprezador de alguns deveres bem sagrados. Amava o escandalo estrondoso; e a publicidade das minhas loucuras desvanecia-me. Vi esta mulher, que é tua cunhada, e amei-a. Os paes d'ella eram exemplares de virtude, e quem houvesse de merecer-lh'a devia ser virtuoso. O talvez menos habilitado para lh'a pedir era eu. Resolvi ser hypocrita; deu nos olhos a minha improvisada virtude, e consegui levar a nova da minha conversão ao conhecimento da familia de minha mulher. Senti augmentar-se o meu amor ao passo que a violencia, que eu me fazia para ser bom apparentemente, ia deminuindo. Até cheguei a convencer-me de que os virtuosos sem mascara eram felizes. Pedi minha mulher, e concederam-m'a. Casei... e depois...
--Foste sempre um bom marido...--interrompeu ella.
--Se tu o dizes, devo acredita'-lo, e a consciencia tambem me diz que o fui; porém, a explicação da minha reforma tem alguma cousa singular. Fiz-me bom por orgulho, primeiro. Os nossos conhecidos, e particularmente os meus rivaes, diziam que eu te faria desgraçada. Entrou o meu amor proprio no combate, e tu foste feliz. Quando o mundo já não reparava nos meus actos, e calava envergonhado os seus vaticinios, era eu teu amigo, teu verdadeiro amigo, sentia-te muito dentro do coração, e já não poderia, se quizesse, expulsar-te de lá. Appliquemos o conto: Alvaro da Silveira, com quem sympathiso, foi o que tu sabes, meu irmão.
«Ainda não ha quatro mezes que o encontraste entregue aos prazeres de um gosto pervertido. Em poucos dias mudaste-lhe as inclinações; mas o aborrecimento em que o viste, deu-te receios de que o teu balsamo fosse inefficaz. Conduziste esse homem a minha casa; conheci que Maria o impressionára, e, depois de dois mezes de frequencia constante, Alvaro quer casar com minha filha. Quando se ama, meu irmão, é facil fingir dois mezes uma virtude que não tem raizes no espirito, e as que tem sómente no coração morrem, quando o amor acaba. Não duvido que Alvaro ame extremosamente minha filha; mas receio que não seja amigo d'ella: cousas muito diversas, cuja diversidade só bem se conhece dos trinta annos em deante. Um casamento rico não me lisongeia. Habituei-me a esta pobreza, e sou feliz, não sei até se alguma vez o fui mais do que hoje. Maria tambem é feliz. Vê, sem deslumbrar-se, os esplendores da sociedade. Sentiu privações em creança, e hoje, não as sentindo, agradece a Deus uma prosperidade que seria indigencia, se ella tivesse conhecido a abundancia, o fausto, e as demasias de prazeres e dissabores que sua mãe conheceu. Não a casemos para a fazermos rica. Se esse moço póde dar-lhe ao espirito novos gosos, seja elle embora seu marido; eu, porém, não creio que elle possa communicar-lhe o que não sente. Estuda-o, meu irmão; estuda'-lo é esperar. Entretanto Maria aprenderá de sua mãe as lições que deve receber uma menina que vae ser mulher.