Lágrimas Abençoadas

Camilo Castelo Branco · Capítulo 32 de 89

Páginas do PDF

Lágrimas Abençoadas

Capítulo IX

--É impossivel!--exclamou o padre, energicamente commovido.--É impossivel... não quero que em minha sobrinha se esconda um crime... uma falta! É uma injuria, meu irmão! Peccaste contra a innocentinha, e feriste-me a mim, que tenho formado aquelle coração, que Deus me confiou para crear-lhe um anjo.

--Meu irmão... não te afflijas... isto em mim é um receio.

A interrupção do coronel era tardia para evitar a exaltação nervosa do padre. As lagrimas davam-lhe ao rosto uma religiosa magestade. Assombrava-o o terror de uma conjectura cruel, como se visse caír á voragem do vicio a virtude, que elle, com sua propria mão, collocára em throno tão perto do céo. O coronel, tambem commovido, sentia-se nobremente exaltado pelo modesto orgulho de ter uma filha, cuja innocencia merecia tão fervorosa defesa. Abraçando seu irmão, parecia pedir-lhe carinhosamente desculpa do zelo paternal, que lhe inspirara receios por aquella que pertencia menos a seu pae, que a seu mestre. O lance era sublime; e o sentimento de ambos, vibrado na mesma corda, e acalorada pelo mesmo amor, elevava-se até Deus em oração de graças por Maria, anjo que lhes fôra dado como galardão á paciencia de muitos soffrimentos.

 

IX

Quem poderia consolar a triste nas suas amarguras?

Quem póde cá da terra dissipar a nuvem, que escurece a face de uma estrella?