Lágrimas Abençoadas
Capítulo XXI
Alvaro, nem um sorriso! Era demais para tanto espirito! O conde só agora compreendeu que os seus ditos causticavam a paciencia do discipulo. Este, apesar de molestado, não queria ser incivil. O predominio do conde sobre o seu genio não estava inteiramente extincto. Era-lhe necessario justificar-se de algum modo. Qualquer evasiva podia servir-lhe; mas a transfiguração do seu caracter, n'aquelle momento, não lhe permittia uma mentira. Bem podera Alvaro queixar-se de um padecimento physico, e tinha bem justificada a sua indolencia para as caricias folgazãs do conde; mas não o fez assim, e, se consultarmos o coração humano, ouviremos um applauso á franqueza que depois ostentava Alvaro. É que, se, por ventura, um sentimento novo acorda em nós desejos bons, o primeiro d'esses desejos é communicar aos outros uma felicidade, que tanto menos egoista, tanto mais perfeita se nos afigura. A passagem da indifferença para a observancia da religião revela-se sempre com esses symptomas. O zelo de um neophito manifesta-se mais corajoso e ardente que o apostolado de um orador feito, e encanecido em desalojar a impiedade dos seus ultimos reductos. E depois, no espirito illuminado pela effusão rapida e imperceptivel da graça divina, ha um desejo forte, uma vaidade santa de attrair espiritos contumazes, de curvar os joelhos arrogantes, e de vencer razões, cuja pertinacia nos parece impossivel na presença dos argumentos que humilharam a nossa. O que então se dá na alma é uma paixão sublime. A eloquencia do que fala, convicto de verdades que lhe promettem uma aspiração immortal, parece um emprestimo da linguagem dos anjos. Ei'-los ahi, de repente, credulos, os apostolos, que extendiam ha pouco as redes no lago de Gethsemani, e surgem agora entre os interpretes da lei, nas praças da Galiléa, falando linguas que nunca ouviram.
XXI
Alvaro da Silveira sentira-se capaz de converter um impio. Ha pouco ainda, balbuciára as primeiras palavras de fé, e crê-se já robusto para vibrar a funda contra o gigante do materialismo cuja arrogancia não vencem forças de homem, sem o impulso divino, que arrojára a pedra que prostrou o gigante philisteu.
--Que tens tu?--repetiu o conde.
--O que eu tenho--respondeu Alvaro--é o desejo de um amigo; mas queria um amigo, que nascesse n'este momento, e n'um momento me comprehendesse. Não podes avaliar-me, conde. Se pudesses, ser-te-hia bastante uma só palavra...
--Pois bem--replicou o conde--diz ao menos essa palavra... ou diz sequer tres palavras conceituosas como as de Cesar...
--Ora attende-me. Tendo nós vivido sempre juntos nunca me persuadi que pudesse estar tão longe de ti como estou agora.
--Serás tu romantico?! atalhou o conde dando-se uns ares grutescos de espanto.
--Se ouvisses--tornou Alvaro sorrindo--a definição que ha pouco ouvi do que é ser romantico, e se concordasses com ella, respondia-te que estava romantico.
--Pois quem anda cá por casa a dar definições? Teu pae deu agora n'essa?
--Não foi meu pae... Meu pae o que soube foi definir a minha posição.
--Apre! Estás mysterioso como o boi Apis! Vou-me embora, que não sei ler geroglyphos humanos. Palavra de honra! Soletra lá o conceito d'essa charada, do contrario vou-te mandar preparar quarto na enfermaria de S. José.