Lágrimas Abençoadas

Camilo Castelo Branco · Capítulo 62 de 89

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Lágrimas Abençoadas

Capítulo XIX

O seu antigo amigo conde de *** foi reintegrado na sua particular estima. Era já recebido no seu quarto, era o seu confidente em segredos dignos de ambos, era tudo o que póde ser um amigo intimo, menos relação de sua mulher. Maria regeitára com imperio, pouco natural ao seu caracter humilde, a apresentação do conde. Ouvira falar d'este homem em casa de seu pae, ao tio, e ao sogro, de modo que lhe ganhou asco, e não podia vencer o sobresalto com que ouvia annunciar um tal nome, que seu proprio marido, tres mezes antes, banira das suas relações.

Na primavera d'esse anno, Alvaro partiu com o conde, e outros de egual porte para o campo, em busca de touros para as corridas do campo de Santa Anna. Demoraram-se vinte dias n'essa gloriosa expedição digna dos netos de Vasco da Gama e de Affonso de Albuquerque... Durante esse tempo, Maria não teve de seu marido um bilhete, nem uma saudade. De volta, Alvaro achou sua mulher gravemente enferma d'essa molestia que entra no coração, e filtra de lá o veneno da morte por todas as fibras.

Disse-lhe palavras consoladoras, instigadas pelo espinho do remorso, palavras calculadas na frieza do seu desamor; mas a idéa satanica da viuvez entrou-lhe na alma com a esperança de uma felicidade imprevista.

É horrivel! mas não duvideis... Olhae de redor de vós...

 

XIX

Foram aconselhados a Maria ares do campo. Saíu de Lisboa para Collares, acompanhada por seu tio, e dois creados. Alvaro partira para Villa Franca, e de uma quinta, muito conhecida nos arrabaldes d'aquella villa, fazia as suas excursões á caça, em que entreteve um mez, distraído de tudo; e embebido no seu affecto remoçado ao inseparavel conde.