Lágrimas Abençoadas
Capítulo XXV
«Aqui tens, pois, o meu destino, Alvaro. Vou para um convento; não devo, porém, sahir de tua casa sem praticar este acto de humildade, rogando o teu consentimento. Quasi certa de que m'o dás, vou fazer os meus ligeiros preparativos. Ainda não disse tudo, Alvaro... Se um dia sentires a penosa necessidade de falar a alguem que te diga palavras de allivio, procura-me, vae sem receio de encontrares uma queixosa. Eu farei quanto puder em teu bem contra o mal que o mundo te houver feito. Chamarei á tua alma as reminiscencias do que ella foi, quando eu t'a mereci, furtando-a ás outras paixões. Vae procurar-me, Alvaro, e acharás sempre uma irmã.
«De tudo o que te disse n'esta longa carta, deves tirar a certeza de que, muito longe de odiar-te, estimo-te, sou tua amiga, offereço a minha vida pelo dom da tua ventura; mas quizera, Alvaro, que essa ventura não fosse mentirosa. A que presentemente gosas não póde ser duradoura, nem filha do espirito.
Adeus.
Tua mulher
Maria dos Prazeres.»
XXV
Maria entrou no quarto do padre. Estava elle ajuntando n'um sacco os seus livros, e uma pouca de roupa branca.
--Já escreveste, filha?! Vamos ver a tua cartinha...--disse elle continuando o seu serviço--Eu estou aqui ajuntando estes farrapos, e estes quatro livros. A nossa bagagem, Maria, é tão pequena, que a póde um frade velho transportar debaixo de um braço. Ora vamos lá; lê a tua cartinha.