Lágrimas Abençoadas
Capítulo XV
Alvaro entrava n'este momento, repartindo por todos amabilidades, chamando manos a seus cunhados, queixando-se de que o não tenham visitado, convidando-os para o seu camarote, offerecendo-lhes as suas carruagens.
--Cousa notavel!--dizia o coronel, tirando á parte frei Antonio que tambem concorrera á primeira visita de sua sobrinha.--Cousa notavel! As maneiras acanhadas de Alvaro desappareceram. Todos aquelles modos, a munificencia com que nos dispensa os seus favores, tem um ar de orgulhoso triumpho que me intimida. Ha alli alguma cousa que parece dizer. «Casei com vossa filha pobre, e tenho a fidalga generosidade de vos querer elevar com ella!» Não te parece?
--Parece-me que estás contaminado da má fé do mundo.
XV
Felicidade, o que és tu? Engano providencial que nos alimentas na alternativa do desejo e do desengano. Amiga cruel que nos foges com a esperança, apenas os labios sentem o travo do absyntho que a taça do prazer esconde no fundo.
Quem te encontrou n'esta vida, felicidade? O que eras tu, quando eu te via espargindo flôres desde o meu obscuro cantinho até aos imaginados horisontes do meu destino?
O que és tu hoje, phantasma severo que desdobras o teu manto negro sobre a esperança, que, momentos antes, mandaste luzir no meu despertar de infeliz?
Felicidade, o que serás tu, se não és a filha dos homens, morredoura como elles, soberba do teu nome, embaindo, com a mascara do opulento, os pobres que te esperam, cavando, cada vez mais fundo, no coração do ambicioso, o vácuo da cobiça, chegando aos labios do sequioso, que te busca na terra, a esponja acerba do desengano?
Porque te não vejo eu debaixo do docel dos principes da terra? Enfloraste os berços de Carlos I e Luiz XVI: porque deixaste borrifar de sangue no cadafalso as tuas grinaldas?
Busquei-te no seio da familia laboriosa, que aceitou humildemente a condemnação do eterno trabalhar, do suor copioso das fadigas. Não estavas lá. O braço trabalhador enervou-o a fome, no anno da esterilidade, e as creancinhas d'esse homem, sem cobiça de mais pão que o necessario á sua familia, vagiam pendentes dos seios aridos de sua mãe.
Busquei-te na mediocridade honesta, na alegria da independencia. Era falso esse existir na vida. A mediocridade anciava saír da sua esphera; a alegria da independencia era um sonho de infelizes servos; a independencia era uma situação mentirosa como o teu nome.
Estarias tu na gloria das batalhas? Se fizeste Cesar o primeiro de Roma, porque o não salvaste do punhal de Bruto?
Na gloria da virtude? E a cicuta de Socrates? e a guilhotina de Malherbe? Como estremaste os destinos de Séneca e Nero? de Virginia e Aggripina? Quando és tu o galardão da virtude, a socia fiel do nobre espirito, o premio benemerito do coração immaculado?
Na gloria da sabedoria?
Entraste, por ventura, na alma do philosopho, que tentou levar as multidões ao teu sanctuario? Orvalhaste-lhe a aridez do espirito abraseado em ancias de achar-te aqui? Déste a Cicero, teu apostolo inspirado, a resignação na morte? Estará o teu busto levantado sobre as ossadas de centenares de homens prodigiosos, poetas que fizeram seculos, honras perpetuas das nações, pisados pela desgraça, mortos de fome de pão e de ti, que lhes mandaste arrastar a mortalha por toda a vida?