Lágrimas Abençoadas

Camilo Castelo Branco · Capítulo 52 de 89

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Lágrimas Abençoadas

Capítulo VII

Maria foi de improviso tocada pelo receio de se ter excedido. Córou, e abaixou os olhos, como se sua mãe lhe significasse, em um gesto, o desgosto de ouvi'-la.

Alvaro, suspenso dos labios d'ella, fascinado pelo som d'aquella voz, que parecia exercer o imperio do silencio sobre o coração de todos, sentia-se elevado a um assombro de admiração, onde quasi sempre o respeito profundo, ou o amor repentino se assenhoreiam do talento e do espirito.

Era um amor, que nascia, e respirava uma atmosphera embalsamada de perfumes, amor, que nunca, em suas passadas affeições, lhe coára no coração a vida suavissima da paixão tranquilla, sem sobresaltos de remorso, sem temores de culpa, e sem receios de insultar a Deus ou aos homens. No coração de Maria, o que se passava era uma sensação de ternura, o desabrochar de uma nova flôr de amizade para offerecer a Alvaro, como a offertaria a um seu irmão, que viesse de longe, pela primeira vez, reconhecer a sua irmã. Se, todavia, lhe perguntassem o segredo mais intimo da sua existencia desde aquelle dia, ella não teria nenhum a revelar. O mais que poderia accrescentar ao que a sua familia sabia do seu coração, a respeito de Alvaro, é que desde o dia, em que o viu, as suas orações por elle foram mais repetidas, mais fervorosas, e mais tocadas pelo interesse de uma amiga, que quizera gloriar-se de ter concorrido para a regeneração de um anjo.

 

VII

Á primeira visita succederam outras.

Alvaro realisára as esperanças do padre. A sombria tristeza, que assustára o mestre, cedeu a uma alegria doce que sorria no semblante do discipulo. O pae d'este, compartindo no contentamento do filho, quiz tambem conhecer o asylo de paz santa onde Alvaro fôra encontrar a felicidade, que o mancebo dizia não ser cousa impossivel na terra, desde que visitara a obscura familia de frei Antonio.

Redobrou o prazer do padre. O velho fidalgo foi acolhido como pae de um moço que era alli estimado como parente e recebido sem vislumbre de suspeita má. As noites passavam rapidas para todos. Cousas pequenas, passatempos quasi pueris, entretinham velhos e moços. Silveira, tão zeloso da honra do coronel como elle proprio, espionava as intenções de seu filho, como quem receia que a virtude não esteja ainda tão enraizada n'aquelle coração juvenil, que o torne frio para os mil encantos de Maria dos Prazeres.

Eis aqui um dialogo entre o pae e o filho, quinze dias depois que frequentaram juntos a casa do coronel.

--Parece-me que és feliz, Alvaro.

--Sou, meu pae, sou muito feliz. Se eu dissesse que não sou, era ingrato a Deus.

--Pois, filho, sê digno das mercês que Deus te faz. Põe da tua parte a força e a virtude para continuar a Merece'-las. A virtude, Alvaro, a virtude. Nunca te esqueça esta palavra: seja sempre a tua ancora, se a tempestade vier depois da bonança...

--Nunca a esquecerei, meu pae. Cada dia se me dobram as forças para vencer o mal. As reminiscencias do passado affligem-me e envergonham-me. Em quanto eu olhar assim para o homem que fui, nunca me será preciso luctar com as tempestades, em que o refugio está na ancora da virtude.

--Pois sim, filho; mas por mais risonho que esteja o céo e calmoso o mar, não largues nunca a ancora: tem-a sempre apertada ao coração, porque é lá d'onde rebentam as maiores tempestades.

--No coração? Eu creio, pae meu, creio que é nas tempestades do coração que se morre...

--Se a virtude nos não vale...

--A intenção com que me diz essas palavras...

--É boa, Alvaro; é a intenção com que um bom pae aconselha um bom filho, e até um mau filho. Que perda para todos nós se o coração que se te renova hoje, meu filho, obedecesse a uma impressão das que se não deixam vencer por pequenas resistencias...

--Fale, fale, meu pae... tenho precisão de ouvi'-lo porque preciso que me anime a falar-lhe.

--Adivinhei a tua alma?

--Não sei o que vae dizer-me... Quer-me falar da...

--Da filha do coronel... quero falar-te d'esse anjo que nos tem captivos a ambos, e nem eu sei qual de nós daria mais depressa a vida para que nunca um desgosto por nossa causa lhe banhe de lagrimas a face.

--Que desgosto podemos dar-lhe, meu pae?

--Que sentes por ella, Alvaro?

--O pae adivinhou-me... é um anjo que nos tem captivos a ambos; mas o meu captiveiro é cheio de consolações, é uma prisão que me não custa desgostos nem frenesis... Não vê que sou tão feliz assim? Se me dão a liberdade, fazem-me desgraçado. Amá'-la...

--Amá-la!?...--interrompeu o pae com sobresalto.

--Amá'-la, sim, pois não é isto amá'-la? O que sinto, o que senti, vendo-a uma só vez, tem alguma semelhança com tudo o que me fez vertigens do coração n'outro tempo? Amá'-la, sem que eu lh'o diga, adorá'-la, com a devoção dos justos, recolhe'-la em segredo á minha alma, e tão em segredo que nunca ella possa temer uma só palavra menos innocente que todas as nossas conversações... ama'-la, assim, meu pae, provocar as tempestades do coração?

--É, filho.

--É? então, meu Deus, não ha virtude que resista ao impulso de uma mulher! O homem, que quizer viver em boa paz com o céo, ha de renunciar a tudo que está na terra proclamando a grandeza de Deus. A religião, que nos não veda o amor, está em contradição com a virtude...

--Não está, Alvaro. A religião creou um sacramento para santificar o enlace dos corações que se inclinam para um fim justo, para uma união em que a virtude é o vinculo de cuja quebra ha tremendas contas a dar, e grandes expiações a soffrer na terra.

--Pois bem, meu pae...

Alvaro sustára o pensamento que vinha aos labios, em quanto as lagrimas se mostraram.

--Diz, Alvaro. Tu ias dizer alguma cousa que te fez chorar. É sensibilidade ou arrependimento?

--Melhor é que o não diga, meu pae... Eu preciso estudar-lhe o coração.

--De D. Maria dos Prazeres? não é necessario, filho. O coração d'essa menina não é um livro fechado, é um espelho. Vê-lh'o na face, nas palavras, na educação...

--Não é o coração de Maria dos Prazeres.

--Pois qual?

--O de meu pae.

--É o coração de um pae... que mais queres que te diga?--Gosta de Maria dos Prazeres?