Lágrimas Abençoadas

Camilo Castelo Branco · Capítulo 7 de 89

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Lágrimas Abençoadas

Capítulo VI

Mas estas esperanças eram a cada hora desvanecidas pelas más novas que vinham do campo da batalha. O sobresalto da pobre mãe era constantemente despertado aos trons da artilharia que jogava nas linhas de Lisboa.

 

VI

O coronel... (já não era coronel) o homem da honra e da coragem amanheceu um dia á porta de sua mulher. Trazia nas faces aquella magreza livida que o sopro das batalhas, e o enervamento da fome estampam no rosto do vencedor, e do vencido. Vencido era elle. Não trazia espada, que a pureza, não aos pés do vencedor, mas sobre a acta de uma capitulação, deixára ao bravo a consciencia da sua intrepidez. Nem uma lagrima lhe escapou involuntaria dos olhos, quando, exauctorado e desvalido, se collocou entre os derradeiros thesouros que lhe restavam: sua esposa, e seus cinco filhos. Esses, sim, eram d'elle, eram de seu coração como a virtude, emanação de Deus, é quasi sempre o unico patrimonio do virtuoso.

E é por isso que não houveram lagrimas, que assombrassem n'aquelles labios o jubilo do sorriso. É por isso que paes e filhos caíram de joelhos; e, no silencio de seus corações, Deus sabe a acção de graças, que lhe subira aos pés de seu throno n'aquellas extaticas elevações de alegria reconhecida.

Ao levantarem-se, abraçaram-se, uma e muitas vezes; e quando as palavras venceram a suffocação da surpresa, uma só voz, a de todos, exclamou:

«Somos muito felizes! Bemdito seja Deus!»

 

VII

Caír de elevada jerarchia, quando os braços da religião não amparam o infeliz na queda, deve ser morrer!

Altearmo'-nos a despeito de muitos, que não podem voejar tanto acima, é provocar-lhes a inveja. Olha'-los em baixo, quando nos cospem o fel da inveja, deve ser-lhes o maior dos castigos; mas, se d'ahi a mão de Deus nos atira ao raso dos invejosos, se a desgraça nos marca, no meio d'elles, um circulo onde rodar com o peso de affrontas, que a nossa arrogancia enfardára... tal vida é a preexistencia do inferno.

Ha tres remedios para alliviar angustias de tal lance:

A resignação;

O cynismo;

O suicidio.

A resignação não é só o amparo d'aquelle que resvala no precipicio das honras d'este mundo; é mais: a resignação não deixa caír o homem, que olha sempre, com temor, o despenhadeiro, em que de ao pé de si se abysmaram colossos, e ruiram edificios fundados sobre areia. Levantado pela Providencia, o homem, que teme a Deus, não se julga, no vertice das glorias, posto ahi pela mão do destino. Quem lhe promette o dia de ámanhã, vinculado aos acontecimentos de hoje? Quem lhe diz hoje que a taça do seu mel ha de ámanhã trasbordar de lagrimas? Quem affiança á aguia, dominadora dos espaços, que, de mais alto, o açor se libra para abate'-la nas urzes?

E, quando a nuvem do infortunio escurece aquellas alegrias, que formavam o cortejo da nossa riqueza:--quando a sociedade nos retira os contentamentos, vendidos pelo ouro, que perdemos... quem é esse destino que accusamos? onde existe essa mentirosa fatalidade que nos humilhou? onde encontraremos o primeiro acaso, que nos felicitára, e o segundo que nos empobrecera? Não ha lagrimas que suavisem as ferocidades da nossa sina, nem ameaças que a forcem a desmentir-se? Será obrigatorio o punhal ou o veneno, porque estava escripto o meu suicidio!?...