Lágrimas Abençoadas

Camilo Castelo Branco · Capítulo 65 de 89

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Lágrimas Abençoadas

Capítulo XXII

O fidalgo recebera a carta no pospasto de um festim em que se banqueteavam os caçadores, commemorando as façanhas venatorias do dia. O conde de ***, chamado por Alvaro a conselho redigiu e escreveu a resposta á carta, visto que o seu amigo, turbado de vinho, apenas tinha entendimento para conhecer que o frade o incommodava, como parapeito dos tiros de sua mulher. A resposta, por tanto, foi simples e peremptoria. Alvaro agradecia muito os pios conselhos do padre, sentia muito os incommodos de sua mulher; recusava, porém, acceder á convivencia pedida, e approveitava a occasião para observar a sua reverendissima que a sua pertinaz assistencia em casa d'elle Alvaro era pouco delicada, provando-se que não havia n'essa casa meninos para educar. Terminava, ordenando que sua mulher se recolhesse a Lisboa quanto antes, visto que os ares campestres não conseguiam alliviar os seus padecimentos.

Esta carta foi lida a Alvaro, que deu no hombro do seu secretario uma sonora palmada, como signal de applauso e gratidão.

 

XXII

Frei Antonio fôra assistir ao trespasse de um moribundo, e não estava em casa quando chegou o conductor da resposta. Foi Maria que recebeu a carta, e vendo a letra inesperada de seu marido, sobresaltou-a tanto o prazer, que nem sequer reflectiu para abri'-la.

Leu... E mal viu as ultimas linhas. Entrou em tremuras, escondeu a carta no seio deixando uma parte visivel; luctou como querendo segurar o alento que lhe fugia; mas debalde. Padre Antonio ergueu-a desmaiada de um canapé, quando voltou. Tirou-lhe do seio a carta; leu-a, e tornou a insinua'-la sem a sobrinha dar fé. Esta, recuperando os sentidos, viu ao pé de si o tio, com ar risonho, trahindo-se em algumas palavras confortadoras; mas a pobre senhora, de momento a momento, levava a mão ao seio para certificar-se de que a carta lhe não fôra tirada.